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Visitamos o studio do Atsuo, que é não só conhecido pelos seus montros dragões e criaturas fofinhas, mas também por ser uma pessoa de muito bom astral!

Encantado com a “bagunça” e diversidade daqui, Atsuo deixou sua terra natal de Kyoto para viver como artista no Brasil. Mas a temática e inspirações  do seu trabalho são claramente um reflexo da suas origens.

Atsuo teve a oportunidade de fazer a sua propria leitura do Mexico Delegation para uma coleção da Onitsuka Tiger chamada The Art of Mixing, que reuniu 4 artistas de origem japonesa para celebrar a conexão Brasil e Japão, onde cada um pode aplicar a sua arte em uma silhueta, e cria sua interpretação sobre o impacto das duas culturas uma na outra.
FOTOS POR PÉROLA DUTRA

“Eu sou Atsuo Nakagawa e nasci lá em Kyoto, no Japão. A primeira vez que eu vim pro Brasil foi há 13 anos atrás, em 2006, para um projeto de uma galeria chamada Choque Cultural. Um grafiteiro grande, o Titi Freak, com a artista Yumi Takatsuka, me chamaram para vir ao Brasil e eu vim. E aí eu gostei, achei diferente. Eu nunca tinha pensado no Brasil, nem conhecia nada, porque no Japão não tem revistas do Brasil. E nossa, é muito engraçado e tem muitos grafites. Eu também gostei da galeria Choque Cultural, nessa época eles estavam começando, era todo mundo jovem, até eu era jovem (risos). E aí eu quis mudar pra cá, porque o Brasil era um choque muito grande e nessa época era tudo bem barato. Hoje em dia é muito caro, antigamente era muito barato e a arte vendia mais fácil aqui. É ótimo, tem comida boa, tem muitas frutas, é legal.

Então em 2011 mudei pra cá e comecei a trabalhar com a Galeria Choque Cultural. E em 2012 eu saí da galeria e fiquei sozinho. Nossa era muito complicado, porque nessa época eu quase nem falava português. Mas os meus amigos grafiteiros me ajudaram muito. Agora sou mais ou menos, mas eu consegui entender o português (risos), mas ainda não sou bom em falar. Aí a Asics me achou em 2012, nessa época eu era muito trapo, não tinha dinheiro, era muito complicado. Eu não tinha galeria, não tinha trabalho. Eles foram visitar um restaurante e esse restaurante tinha o meu grafite. Aí uma pessoa da Onitsuka Tiger me ligou, a gente conversou e em 2013 comecei a ser patrocinado por eles.”

No Japão já é compromisso falando boca a boca. Aqui, é “esqueci” ou tem atrasos. A diferença eu acho que é cultural, é bem diferente na cultura. E aqui a cultura é muito misturada, japonesa, italiana, muitas africanas, coreanas, asiáticas. Isso eu acho legal, é muito interessante a mistura cultural, muito louco. E eu acho que aqui é mais tranquilo. Japão é tudo certo, é legal, mas é muito mais estressante porque não pode errar, não pode atrasar – tipo robôs.

Qual foi pra você o maior choque para você em sair do Japão e vir para o Brasil?

 Tudo é diferente. Lá no Japão é tudo muito certo, sabe? Tudo certinho, limpinho, organizado. No Japão já é compromisso falando boca a boca. Aqui, é “esqueci” ou tem atrasos. A diferença eu acho que é cultural, é bem diferente na cultura. E aqui a cultura é muito misturada, japonesa, italiana, muitas africanas, coreanas, asiáticas. Isso eu acho legal, é muito interessante a mistura cultural, muito louco. E eu acho que aqui é mais tranquilo. Japão é tudo certo, é legal, mas é muito mais estressante porque não pode errar, não pode atrasar – tipo robôs. Mas o diferente é que no Japão tem um monte de arte legal, mas vender é um pouco difícil, porque lá tem muita coisa. Tóquio é capital, centro, é louco, a moda muda em um mês, sobremesas, roupas, tudo. No Japão em um ano tudo muda. E os jovens em um ano falam: “já é velho, não quero mais”. É muito louco e não é bom. Tudo novo, sabe? No Brasil é mais devagar, eu gosto disso.

E como você aprendeu a ilustrar? Foi uma coisa natural ou foi um processo de aprendizado mesmo?

 Eu gosto muito de cinema e filmes, desde criança. Minha mãe também gosta muito e eu fui com ela primeiro. E eu amo um diretor que chama Ray Harryhausen, ele é americano, mas é das antigas, ele fazia stop motion de monstros com pessoas. E desde os meus 5 anos eu pensava: “nossa, muito animal!”. Eu gostei dos monstros e aí eu comecei a ilustrar. E no Japão tem bastante monstros e dá um pouco de medo, fantasmas e tudo, é pesado (risos). Tem fantasmas no Brasil, mas não dá medo, Japão dá mais medo. Aqui os fantasmas são mais tranquilos, mais fofinhos (risos).

Mais pra frente eu trabalhei colocando roupas em manequim (designer de vitrine). Então eu conheço marcas e gosto muito de moda também. Mas eu comecei como artista há 20 anos atrás, eu trabalhava aos fins de semana com arte, pintura e escultura. Eu trabalhei 10 anos no Japão e agora aqui. Foram 18 ou 20 anos mais ou menos ao todo fazendo minha arte.

É legal que dá pra ver muito sua evolução como artista. Mudou de um estilo pro outro.

 Engraçado, quando eu era jovem eu não gostava de Kyoto, a minha cidade. Porque ela é muito antiga. É bonito, mas quando jovem, eu gostava da bagunça como Tóquio ou Osaka, cidades grandes, eu gostava do mais louco. Aí o tempo passou e agora mais velho, eu quero o mais tranquilo. E Kyoto é muito mais bonito, tem uns 300 ou 400 templos. Kyoto é uma cidade muito antiga, tem 1.200 anos, ela foi a capital há 1.000 anos atrás e é uma cidade pequena. Aí lá eu achei um grande artista, um artista antigo, e ele faz pinturas grandes de dragão no teto dos templos. Nossa, é muito bonito. Tipo grafite, né? Da época de 1.650 mais ou menos, é bem antigo. Aí gostei. Nossa, queria pintar, mas no Japão o grafite é mais complicado, aqui é mais livre. Este ano eu não sei, a prefeitura daqui não gosta eu acho (risos). Mas até hoje pode fazer grafite, tem vários projetos. E aí eu pintei na rua dragões. Aqui no Brasil o dragão é mau.

 Mas no Japão é interessante. Tem templo com dragões, desenhos grandes e escultura. O significado é diferente. Lá é sucesso, felicidade e proteção também. E aqui no Brasil é perigoso.

Mês passado você fez uma exposição aqui em São Paulo, na galeria Alma de Rua. Conta mais para a gente sobre ela.

 Sim, no Beco do Batman, tem uma galeria chamada Alma da Rua. Eu fiz mais ou menos 50 obras, com Duoarte Print e Fito Design, que é uma marca de móveis. Além disso, fiz o lançamento de dois rótulos de uma cerveja que se chama Oak. E no dia da abertura da exposição eu chamei grafiteiros curitibanos para uma exposição coletiva no Local Estúdio que fica dentro do Beco do Batman. Tem a galeria e na frente tem o estúdio. Aí eu juntei todo mundo.

Mas no Japão é interessante. Tem templo com dragões, desenhos grandes e escultura. O significado é diferente. Lá é sucesso, felicidade e proteção também. E aqui no Brasil é perigoso.

Em que você se inspirou para fazer essa exposição? Existe uma uniformidade em relação às cores e também nos elementos que você usa.

É… eu gosto muito de vermelho e azul. Uso muito nas minhas roupas também, quase só azul, vermelho e preto. E essa exposição é de “oni wa soto”, é como se significasse “o diabo está fora”, proteção para a casa. E minha cidade é antiga, então tem muitos monstros, chamam Youkai. Tem vários Youkai e vários significados, eu não sei todos, são muitos, e Kyoto é bem antigo. E tem vários personagens, a raposa é antigo, também tem mal e bom. E a raposa parece uma mulher japonesa e às vezes ela é muito ruim, mas ela é deusa também – então se você respeita, ela pode significar segurança da casa, da cidade, bairro. Eu acho que monstro é assim, quando respeita é amigo, vai ficar seguro, proteger. Se não, ele faz mal.

Cada um recebeu um modelo, e aí o méxico ficou comigo. Para fazer o tênis eu me inspirei nas Bandeiras do Brasil e do Japão – as duas tem círculo, aqui no Brasil significa terra e no Japão, o Sol.

Agora falando sobre o seu tênis com collab com a Onitsuka. Como que foi esse convite para você participar do projeto?

 Eu já trabalho com eles desde 2013. Acho que foi quando começou o trabalho da Asics aqui no Brasil. A Onitsuka Tiger muda de artista a cada ano eu acho, aí primeiro escolheram eu e depois foi o Titi, depois uma artista do Rio de Janeiro, a Lovefoxxx, aí o Japinha que é baterista do CPM 22 e meu amigo também, e por último foi o Felipe Suzuki.

Aí nas Olimpíadas, os americanos da Onitsuka vieram aqui pro Brasil e escolheram 4 artistas. Aí topamos fazer de novo Onitsuka Tiger, tênis e colaborações. Cada um recebeu um modelo, e aí o méxico ficou comigo. Para fazer o tênis eu me inspirei nas Bandeiras do Brasil e do Japão – as duas tem círculo, aqui no Brasil significa terra e no Japão, o Sol. Aqui é a Lua. A terra precisa do Sol e da Lua, juntos. E no dragão, eu pensei em um personagem que tem dois lados, é muito bonito e misterioso, mas o outro lado é perigoso. Porque no Japão tem bastante problema, terremotos e a natureza lá é muito forte, às vezes destrói tudo quanto é lugar. Então o dragão eu pensei que é tipo: a pessoa tem que ter respeito com a natureza, se não ela vai sofrer. Mas a felicidade também está presente, ele é bonzinho, mas tem que respeitar. Esse tênis foi vendido mundialmente, Japão, Estados Unidos, Europa, Coréia, China e aqui também.

Antes de você fazer isso, você já gostava ou se interessava por tênis?

 Ah, eu gosto muito. Até de outras marcas, Nike, Adidas. E agora conheço a Öus, eles tem 10 anos de vida, é bem jovem e é muito bom. E tem fábrica daqui. Aí não sei ainda, eu já conversei com Narciso e pessoal da Asics, eu gostaria de colaboração Asics e Öus. É muito complicado. Mas eu gostaria, acho que daria certo.



Onitsuka Tiger Mexico Delegation
Colaboração: 2016
Dono: Atsuo Nakagawa
📸 Pérola Dutra