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Byan saiu de uma carreira como administrador financeiro para seguir a sua vontade de ser produtor de evento, fazendo parte hoje de shows, festivais, lançamentos e festas. Ele começou sua relação com tênis muito cedo no principio dos anos 90, com marcas como Rainha, Le Cheval e Reebok, mas foi na sua época trabalhando na loja Guadalupe que esse gosto aumentou e virou uma paixão que dura até hoje. 
FOTOS POR JULIO NERY

“Sou o Fabiano Byan, mais conhecido como Byan. Sou formado em Administração mas trabalho com marketing, com conteúdo digital, redes sociais, e além disso, sou produtor de eventos. Uma coisa nada a ver com a outra, mas há dez anos eu abandonei a administração pra me dedicar única e exclusivamente a produção de eventos, que é o que eu realmente gosto de fazer – faço produção executiva, shows, lançamentos, coquetéis, eventos, festas, festivais, eu sou apaixonado por essa área.

Já o meu lance com tênis começou desde pivetinho, o primeiro tênis que eu vi e pirei foi o Rainha System, por volta de 91. O tênis vinha com dois amortecedores extras que você podia trocar por outras cores e se não me engano, também foi um dos primeiros tênis que você conseguia ver o amortecedor. O Rainha foi meu primeiro tênis, ele era branco e azul, com uma meia interna de neoprene, era dahora demais. Naquela época também tinha o Le Cheval, que hoje você fala esse nome e vira piada, mas já foi muito foda porque no momento que a Le Coq Sportif estava em alta, o Le Cheval chegou com um valor muito mais acessível, com uma silhueta muito similar, até com um logo parecido, era uma marca nacional. Eu pirava também nos Reebok Pump, eles me pegavam muito.

O meu gosto por tênis começou nessa época, e óbvio que eu não entendia absolutamente nada, até porque eu tinha 12 anos, mas eu já tinha um gosto diferenciado. Naquela época não existia nem um terço das informações que se tem hoje e era muito difícil você ter acesso. Ficava com o tênis quem conseguia ir pro centro, na galeria. Mas eu só fui entrar nessa parade tênis de verdade, virar sneakerhead e começar a colecionar décadas depois, por volta de 2010, quando eu recebi o convite para trabalhar na Guadalupe. O Rato é amigo meu de infância e já estava como gerente da loja, eu conhecia o Twothousand de outros rolês também e acabei ficando 2 anos lá. Foi nesse momento que eu me tornei um completo viciado em tênis.

Pra mim não importa se o tênis é hit, se é grail, se tá na moda, se é hype, se não é. Eu gosto de tênis e não importa o modelo, eu vi a colorway e curti, curti a silhueta e tenho a grana na hora, o tênis é meu (risos). Não importa se ele é raro ou não. Hoje em dia a galera dá muita importância só porque é raro, e porque custa num sei quantos “dols”. Eu já dormi não sei quantas semanas na rua pra comprar um tênis, e isso pra mim não é ser sneakerhead, pra mim é gostar de tênis e querer ter tênis sem se importar com o número de pares que você tem, e ter um gosto e procurar entender o meio.” 

EU NÃO ME CONSIDERO UM SNEAKERHEAD NOS PADRÕES DE HOJE EM DIA, PORQUE SE O TÊNIS É MUITO CARO E EU NÃO TENHO A CONDIÇÃO FINANCEIRA NO MOMENTO, EU NÃO COMPRO. HOJE EU NÃO DEIXO DE PAGAR UMA CONTA PARA PEGAR UM TÊNIS.

Você coleciona tênis até hoje?

Sim, até hoje. O meu gosto não mudou, não diminuiu, a única coisa que diminuiu foram as loucuras. Eu não me considero um sneakerhead nos padrões de hoje em dia, porque se o tênis é muito caro e eu não tenho a condição financeira no momento, eu não compro. Hoje eu não deixo de pagar uma conta para pegar um tênis.

Por exemplo, eu não curto Yeezy, então eu meio que já estou na contramão do mercado. Eu continuo sendo fiel aos Forces, aos tênis mais undergrounds. Hoje em dia eu me rendo muito ao conforto, gosto muito do Huarache, é um dos tênis mais confortáveis que eu tenho. Além de que, eu sou meio “Nikeiro” (risos), eu gosto muito e vai ser sempre a minha primeira marca. Eu gosto muito da Reebok também, essas são as marcas que eu mais gosto. 

Você já parou para contar quantos pares de tênis você tem?

Hoje eu não sei te falar ao certo quantos eu tenho, mas perto do que já tive antes,  considero que são poucos. Tem gente que tem 400, 500 pares de tênis fácil, eu cheguei a ter muitos, mais de 300 pares em alguma época. Mas vendi muitos, desencanei por uma época, quando virou muito modinha – não sou nada contra, porque acho que quantos mais adeptos tiver, melhor, só que a coisa cresceu de uma forma meio desorganizada, distorceram um pouco o que é ser um colecionador de tênis. Você ter um tênis de mil e quinhentos reais não te faz um colecionador.

Quando eu comecei, e olha que eu me considero um cara das antigas, aprendi muito com o pessoal que já sabia muito mais do que eu, mas tenho a impressão que hoje a maioria não tem essa vontade de aprender. Parece que eles não sabem o que é o gosto de ter um tênis, o que é colecionar um tênis – fica muito no “quanto vale seu outfit” e isso pra mim não tem nada a ver com a cultura sneakerhead, mas também, não tenho nada contra. 

Você sendo um cara das antigas, quais são as maiores diferenças que você vê entre o que está rolando agora e antigamente?

Como eu estava falando, quanto mais gente estiver no meio, melhor porque isso fortalece a cena. Mas o que está tendo hoje em dia é uma divisão já que eu diria a galera mais antiga não está tendo muita cabeça pra aceitar esse novo segmento e essas pessoas novas não estão querendo aprender o que as pessoas mais antigas sabem. Ninguém sabe mais do que ninguém, mas quando você vai entrar num meio novo, é bom procurar entender e conhecer com os mais antigos.

Hoje em dia é muito baseado em se o tênis é extremamente limitado e caro, então eu vou comprar porque eu sou um sneakerhead. Antes não era isso, era a vontade de você ter um tênis limitado, mas o vestuário do pé pra cima não importava. Hoje em dia a moda do tênis está muito associada a moda da passarela, roupa cara com tênis caro; diferente do sneakerhead das antigas que andava todo fudido mesmo, todo largado, mas com o tênis brilhando (risos). O meu ciclo de amizades continua sendo muita a galera das antigas, mas conheci muita gente nova, a Sneaker Cult por exemplo, gosto muito deles, do trabalho deles, total sinergia.

Outra coisa também, na época que eu trabalhava na Guadalupe, eu chegava para abrir a loja e tinha que chutar o pessoal da porta, os caras dormiam duas semanas ali porque não tinha esquema de senha, era ordem de chegada mesmo, era joga o tênis pro alto e salve-se quem poder (risos). Lembro no lançamento do Air Force 1 Ano do Coelho, que veio somente 12 pares para o Brasil, mostrando como as coisas eram muito mais limitadas naquela época e que não tinha reposição nenhuma. A própria Guadalupe mudou muito, se pegar os videos do começo eram só lowriders e chicanos/colecionadores de tênis. As roupas que tinham para vender era de rap, “guanguera” gringa. Agora repaginou, eles explodiram, cresceram e sucesso, no final quanto mais melhor, sempre no progresso. 

HOJE EM DIA A MODA DO TÊNIS ESTÁ MUITO ASSOCIADA A MODA DA PASSARELA, ROUPA CARA COM TÊNIS CARO; DIFERENTE DO SNEAKERHEAD DAS ANTIGAS QUE ANDAVA TODO FUDIDO MESMO, TODO LARGADO, MAS COM O TÊNIS BRILHANDO (RISOS).
SEGUNDO O SITE SNEAKERNEWS, ESSES MODELOS DO FORCE SÃO UM DOS MAIS BEM FEITOS QUE SAÍRAM, PORQUE A NIKE FEZ TESTES DE MATERIAIS COM ESSES PARA O LANÇAMENTO DO AF1 30 ANOS. A JUNÇÃO DOS MATERIAIS, MESMO SENDO MATERIAIS SUPER CONHECIDOS COMO COURO LISO E DENIM, FOI MUITO BEM ACEITA.

Porque de todos os tênis da sua coleção, esse Air Force 1 foi o escolhido para o Kickstory?

Escolhi ele porque eu não queria falar de grail, queria falar um negócio mais rua, que tem muito mais a ver comigo. Além de que, o Air Force é o modelo de tênis que eu mais gosto, que eu mais piro, continuo gostando muito mesmo que eu esteja usando menos hoje em dia, já que a gente vai ficando velho e vai dando preferência para as coisas mais confortáveis (risos).  Esse Force aqui é extremamente guerreiro, ele me acompanha desde 2011 e foi meu quinto Air Force de coleção. Ele tem muito a ver comigo, me acompanhou em vários shows, desde rap, hardcore, metal, vários bate-cabeça, poças de lama, estádios de futebol, tudo quanto é rolê. Esse tênis é bonito demais, guerreiro e muito duradouro, eu nem nunca limpei ele, desde o começo! Eu cuido muito dos meus tênis, esse é de 2011 e é um dos tênis mais detonados que eu tenho. Na época eu tinha muitos pares, eu trocava muito, e ficava muito tempo sem usar – e aí a durabilidade aumenta muito, a vida útil dele fica gigante.

Esse modelo em específico é do Denim Pack, que era composto de quatro cores, e foi um pack lançado um pouco antes da edição especial de 30 anos. O 30 anos foi lançado no verão de 2012 e esse veio uma coleção antes no final de 2011. Segundo o site Sneakernews, esses modelos do Force são um dos mais bem feitos que saíram, porque a Nike fez testes de materiais com esses para o lançamento do AF1 30 anos . A junção dos materiais, mesmo sendo materiais super conhecidos como couro liso e denim, foi muito bem aceita. Ele fez muito sucesso e previu o lançamento da edição de 30 anos. Eu tenho o Camo, com a sola translúcida e é um dos Forces que eu mais gosto de toda minha coleção. 

Você que faz parte do mundo dos eventos: falando mais especificamente de eventos de sneakers e moda, quais são as dificuldades, quais são as coisas legais, como é fazer parte disso nesse momento que as coisas estão numa crescente?

Eu já fiz alguns grandes eventos no meio sneakerhead, já fiz em lojas, em festivais, fiz o I Love Sneakers junto com os caras da Sneaker Cult e vários outros. Fiz uma vez um evento na loja da Artwalk no Metrô Tatuapé, que particularmente foi um dos que eu mais gostei de, já que a gente fechou o corredor do shopping, deu mais de 400 pessoas! Teve DJ, apresentação de Bboy e com a ajuda de amigos, na minha humilde opinião, eu consegui reunir os maiores colecionadores de tênis da cena desde as antigas.

A vitrine dessa loja é bem grande, a gente cobriu ela com um pano preto de cetim, colocamos uns caixotes pretos e uns tênis raríssimos desses colecionadores em cima dos caixotes. A dificuldade naquela época era divulgar essa festa, porque hoje em dia com a quantidade de gente na cena, fica muito mais fácil lotar um evento, até por isso que tínhamos shows e diversas outras atrações.

Em Outubro de 2016, eu fiz o festival Artwalk 10 anos, que foi gigante já que na época a loja era a maior rede sneaker store do país, hoje com mais de 40 lojas. Fizemos o evento no memorial da América Latina para 4.000 pessoas, foi gigantesco, com show do Rael, vários DJs, ativação da Puma com uma quadra de basquete street, duas ativações de beisebol da New Era, muita coisa. Esse evento foi muito animal porque a cena sneakerhead colou em peso. Teve a cobertura da Sneaker Cult, da I Love Sneakers, foi sensacional. 

Você tem mais alguma coisa para acrescentar?

Eu queria ressaltar aqui na entrevista que eu sou muito fã do trabalho de vocês, eu sei que vocês fazem um trampo sério, bem profissional, sem demagogia ou puxa-saco e é um trampo dahora que vocês fazem porque vocês gostam. Além disso, vocês valorizam demais a cena, com pessoas antigas igual eu e com pessoal da geração nova também. É um trampo diferenciado, saca? Vocês não fazem panela, vocês não segmentam, isso é muito dahora de ver.

Byan, a gente agradece demais pela sua participação e por ter compartilhado um pouco da sua história com a gente! 

Nike Air Force 1 
Comprado: 2011
Dono: Fabiano Byan
📸 Julio Nery