“Meu nome é Francisco Martins e tenho 34 anos. Sou designer gráfico de formação, mas trabalho com design e ilustração, além de ciclista amador. Tenho um projeto de ciclismo, o Daemon Cycling, que começou como um blog e depois virou uma plataforma para iniciativas fora do universo online, com produção de corridas e desafios de ciclismo. Por que eu moro em São Paulo, o ciclismo de estrada e fixa são mais fortes, mas eu também faço mountain bike e etc. O projeto é bem uma pegada de ciclismo dentro de um universo que eu pratico muito: ciclismo de estrada, mobilidade urbana e um pouco de mountain bike quando tenho a oportunidade.”

Por que você começou a pedalar?

Eu comecei a pedalar desde moleque no interior de Minas, sempre fui da bicicleta. Ela foi aquele negócio de ser um brinquedo quando você é criança e aquilo te dá uma liberdade que nenhum outro brinquedo te dá. Aquela coisa de você pegar a bicicleta e ir o mais longe que conseguir, e depois voltar pra casa com uma espécie de segredo de “minha mãe nunca vai saber onde eu fui”. É do caralho isso. Então, eu sempre pedalei.

Quando eu me mudei pra Belo Horizonte, eu fiquei distante da bicicleta, porque eu fui pra lá estudar, etc, então meio que perdi o vínculo. Acabei ficando 10 anos na cidade e longe desse mundo. Em 2009, eu vim pra São Paulo e por acaso eu tinha uns amigos de Minas morando na cidade, insistindo que eu precisava de uma bicicleta pra usar por aqui. O bichinho me picou de novo e, desde então, tudo que eu faço é só de bicicleta. Minha vida melhorou pra caralho porque eu parei de andar de ônibus – ter que ficar esperando ele no ponto ou ficar parado no trânsito. Então, tudo o que eu faço é de bike. Claro que, às vezes, tenho que pegar um 99 ou Uber, mas a maior parte do tempo é tudo de bicicleta.

O que o ciclismo já te trouxe?

Pô, me trouxe várias coisas. Prejuízo e dívidas no banco também (risos). Mas cara, com certeza ele me trouxe grandes e sinceras amizades aqui em São Paulo. Foi engraçado porque quando me mudei pra cá, os meus contatos eram da galera que trabalhava com design – grandes amigos, pessoas incríveis e talentosíssimas – só que a gente só se encontrava pra beber, apenas. O rolê era se encontrar pra ficarmos tortos de bêbados, ir pra festas e tal. Era da hora pra caralho. Quando comecei andar de bike, conheci uma galera que estava simplesmente interessada em andar de bicicleta, e foi ótimo, porque eu gostava muito de ficar de boa também, tinha outro propósito. Comecei a me envolver cada vez mais e o que era só uma brincadeira, começou a virar um hobby, que virou um esporte e hoje é uma parada que toma muito tempo da minha vida.

Você leva a cultura da fixa pra frente com os eventos do Daemon – faz as pessoas pedalarem mais e mais pessoas pedalarem – de onde vem essa vontade e qual o objetivo desses eventos?

O principal motivo de organizar as corridas, por exemplo, é porque são corridas que eu gostaria de correr e que não tinha nenhuma aqui. Então, acabei organizando para eu ter a oportunidade de participar, mas também percebi que não dava pra pedalar e organizar o evento ao mesmo tempo. Quem sabe no longo-médio prazo eu consiga participar das corridas?

É muito triste ver as coisas acontecendo fora do Brasil e aqui a gente fica só pensando que “Ah, um dia vai ser legal ter uma corrida no Brasil”, “Um dia a gente vai ter uma cena de fixa” – cara, se a gente ficar esperando isso, com o contexto que a gente vive, com esse mercado que a gente vive, vai ser muito difícil. Se a gente não se organizar pra fazer as coisas, nunca vamos ter a oportunidade de vivenciar ou experienciar o que acontece fora do Brasil que achamos tão legal.

A gente é bombardeado de informação e estímulo de todos os tipos – não só de consumo, mas estímulos visuais. Como a fixa tá virando um negócio de contra-cultura, tem essa relação com a cidade. Quando eu era adolescente, eu andava de skate e tive uma identificação muito forte com a fixa por causa do skate. O conceito é muito parecido. Então, isso tudo junto traz esse lifestyle, música, estilo de vídeo, estéticas, ilustrações. Isso tudo tem a ver com essa cultura que está crescendo, e a gente vê isso fora do Brasil e aqui é meio mirrado. O meu objetivo é fazer isso ganhar força, de podermos ter quórum o suficiente pra poder exigir do mercado produtos melhores com preços acessíveis, ou que nós mesmo produzimos alguma coisa aqui no Brasil.

Existe um protecionismo babaca no mercado de bicicleta, que tem certas marcas e empresas que estão interessadas em que você continue comprando produtos de merda por preços exorbitantes. Simplesmente porque de alguma forma ele tá protegido. Então, a gente tem que dar muito mérito às pessoas que estão produzindo coisas, porque a galera é muito raçuda – mesmo diante de tantas dificuldades, eles continuam lá, rasgando mata virgem no peito, saca? É foda. É muito difícil você competir com essas marcas grandes e se você não tem incentivo, se o governo não te ajuda em nada, se o mercado não abre espaço pra você. É muito difícil. 

De que forma você vê a bicicleta afetando a forma de se locomover dentro da cidade?

Certamente quanto mais bicicletas tiver, mais humana e viva será a cidade. As pessoas terão mais tempo de experienciar ela da melhor maneira. O que mudou na minha vida foi que eu consegui justamente sentir mais São Paulo, porque andar de bicicleta você sente o cheiro das coisas, você tem tempo pra poder ver fachadas de prédios e casas, de ver as pessoas, de colocar o pé no chão – colocar o pé no chão é muito importante, porque se você fica dentro do carro o dia inteiro, você não tem contato com a cidade.

A previsão é que essa quantidade de carros que existe, vai acabar mesmo, vai acabar, é insustentável cara. E outra, se você pensar que relatórios da própria Mercedes apontam que o maior concorrente deles é a Apple e o Google, porque eles vão começar a desenvolver carros inteligentes que não precisam de motorista, além de carros elétricos e essas coisas. Essa sociedade carrocrata que vivemos hoje, ela está fadada a acabar em um futuro breve. E a bicicleta tem um papel muito importante, que é humanizar a cidade, é você poder viver a cidade, acalmar o trânsito, de você poder ter contato com as pessoas.

Quando você está dentro de um carro, é muito fácil você brigar no trânsito por pura besteira, por algum descuido seu ou do motorista ao lado, e isso virar uma troca de tiros – dentro do carro, o maluco acha que tá protegido dentro de um tanque de guerra. Agora, você já esbarrou com algum cara na fila do banco e você falou “Ae, filho da puta, olha por onde você anda!”? No banco você tem coragem de fazer isso? Não, cara. Você tá olhando pra ele, às vezes ele esbarrou sem querer mesmo. No carro você tá protegido e isso te da um poder pra gritar, xingar, passar por cima dos caras. Isso é muito bizarro.

Qual sua relação com a cidade?

Eu sempre gostei de cidade grande, eu gosto de ver gente e movimento. Quando eu mudei pra cá, eu pirei demais, porque eu saí de uma cidade pequena para morar em BH e depois em vim pra São Paulo. Eu gosto da cidade, mas ultimamente ela tem me entristecido, porque quando você viaja, as cidades são lindas e cheias de coisa, mas quando você volta pra cá, tem que se esforçar para achar beleza em umas coisas que, cara, realmente não são bonitas. Você tem que achar o caos bonito. Mas eu ainda acho que ela é a melhor cidade para você se desenvolver profissionalmente, e você ter contato com o que mais tem evoluído: cultura, moda, esporte, vai estar tudo aqui.

E a cidade me trouxe amizade também, porque quando você tá pedalando – principalmente se você vai pra estrada – você está em situações de risco e, se você está com um grupo de pessoas, você tem que confiar nelas. Você cria relações de confiança muito intensas, porque, cara, eu tô na estrada e se der qualquer zica a única pessoa que eu posso contar é essa. Então, a partir do momento que você cria essa relação de confiança, pra você se tornar amigo delas é rapidinho. Realmente, esses grupos de pedal que viram grupos de amigos vira uma coisa muito normal e natural, principalmente por esse motivo.

Quais lugares da cidade você levaria alguém pra dar um rolê de bike? Tem algum canto dela que você se identifica mais?

Puta, é foda, porque é bem babaca e fresco, mas, cara, Pinheiros é foda demais. A gente chama de Pinherópolis, porque – principalmente eu que vim de uma cidade pequena – morar em Pinheiros é muito da hora, porque você vive uma vida de bairro, de cidade pequena quase, só que com todo o acesso à São Paulo. E é foda, porque Pinheiros é Zona Oeste, meio zona nobre, tem uma galera que vai pirar mais no centro. Eu acho o centro bem da hora também, mas, cara, eu me resolvo muito em Pinheiros, eu acho o bairro muito style. Então, quando vem alguém de fora, eu sempre falo “vou te mostrar um bairro muito da hora” e a gente vai em Pinheiros, fazemos vários rolês em picos legais.

Obviamente tem vários outros bairros de São Paulo que eu adoro, como o Mercadão, eu gosto pra caralho dos parques também. E, cara, um rolê de bike pela cidade é o melhor que tem.

Descreve pra gente o seu dia a dia.

Isso no meu dia ideal: eu acordo por volta das 6h, tomo um café rápido, beijo na minha esposa e vou pedalar. Se eu puder ir pra estrada, ótimo. Se não der, eu vou pra USP. Se eu conseguir ir pra estrada, eu pedalo uns 80km; se vou para a USP, eu pedalo uns 50km. Volto pra casa, tomo outro café da manhã, um banho, daí vou para o escritório – eu tô trabalhando bem perto de casa. Almoço com alguém, volto para o escritório, ou então vou fazer algum corre, como visitar fornecedor ou entregar encomenda e colocar no correio. Tem um cara que produz as coisas pra mim, ele fica lá no Jaguaré, então pego a bike, vou até lá, volto e trabalho mais um pouco. Eu tava machucado, mas eu faço Krav Magá, então às vezes eu treino de noite ainda. Volto pra casa, janto e fico em casa assistindo alguma série ou filme com a minha esposa. É mais ou menos isso em um dia bom.

Qual é o papel do tênis no seu corre diário?

Eu sempre curti pra caralho. Tênis pra mim é a peça de roupa mais importante, e ela diz muito sobre a sua personalidade. Então, eu gostava de ficar julgando as pessoas de acordo com o tênis que elas usavam, saca? Do tipo “puts, esse cara ta usando esse tênis, então ele deve ser mais ou menos assim, ele assiste esse tipo de filme” (risos). Eu acho tênis uma parada muito específica – tem gente que não se importa, mas eu consigo fazer uma leitura a partir do que o cara calça. Então, eu sou muito criterioso com os tênis que eu uso. Tem algumas marcas que eu uso mais do que as outras e algumas que eu não uso nunca. E o fato de você ficar o dia inteiro, te sustentando alí, tem uma série de critérios, né.

Acho interessante também como ele virou um ícone, porque ele tem datas, ele marca épocas  – desde designs específicos até em épocas. Certas crews usavam esses tênis, da pra marcar isso com o Hip HopPunk RockHeavy Metal, o skate principalmente; várias tribos tem o seu tênis específico que comunica isso. E tem gente que acha ridículo a gente ficar falando sobre tênis. Até a minha esposa mesmo me questionou “onde você vai tirar tanto conteúdo pra falar de tênis?”. E, velho, tem conteúdo pra caralho! Você fala de um objeto que tem histórico, é uma peça de design, moda, é uma série de critérios, não é uma coisa aleatória. Com ele eu consigo fazer link de épocas, galeras, de design, sobre cultura. Eu acho foda pra caralho.

Nike Air Zoom Mariah Flyknit Racer
Dono: 
@francisco_martins
Ganhado: 2017