FOTOS POR PEROLA DUTRA

Nesse “Outubro Rosa”, o Kickstory e a Altai se uniram para ajudar na conscientização sobre a importância da prevenção e diagnóstico precoce do câncer de mama.

Convidamos duas ilustradoras incríveis para conversar com a gente sobre seus trabalhos, suas influências e porque a mulher é o principal assunto de suas artes. Elas criaram ilustrações exclusivas para essa ação que serão vendidas no evento da campanha. Todo dinheiro será revertido para uma instituição que ajuda na batalha e prevenção do câncer de mama. Faça como a gente: #VistaRosa e entenda um pouco mais sobre o assunto.

Para a primeira entrevista falamos com Camila Rosa, ilustradora catarinense que hoje mora em São Paulo. Além de seus desenhos serem lindos visualmente, Camila expressa muito suas opiniões sobre temas contemporâneos em suas ilustrações, usando seu trabalho para ampliar sua voz e fazer com que esses temas cheguem a mais pessoas. Tendo saído de Joinville, passado por Curitiba, Nova York e São Paulo, ela nos contou sua trajetória para chegar onde está hoje, como ela percebeu que era possível fazer trabalho político e ainda viver do que ama.

“Eu sou a Camila Rosa, tenho 29 anos, sou Ilustradora, formada em Design de Produto e hoje trabalho como freelancer. Já trabalhei em agência de design e também em indústria na área de design de produto. Sou natural de Joinville em Santa Catarina e já morei nessa ordem – São Paulo, Curitiba, Nova Iorque e voltei para São Paulo com a ideia de ficar por aqui. Trabalho para marcas e para mim mesma, na verdade o trabalho para marcas só surgiu porque eu fazia coisas para mim – os projetos pessoais que me trouxeram projetos maiores. Gosto muito de trabalhar a questão da mulher, mas não só isso, abordo vários outros tipos de questões políticas.”

Ilustração por Camila Rosa, para a campanha #VistaRosa por Kickstory e Altai

É muito claro que mulheres e feminismo são tópicos muito comuns em suas ilustrações. Porque eles são tão relevantes para você?

Esse lance do feminismo está comigo a muito tempo, isso vem desde os meus 13 anos, porque era um tema muito debatido dentro do movimento hardcore e punk que eu fazia parte. Eu era muito nova, escutava umas bandas feministas e me considerava feminista desde então, mas só comecei a ilustrar muito tempo depois, com uns 25 anos, em 2010. No mesmo ano, comecei o Coletivo Chá com mais quatro amigas em Joinville, onde fazíamos lambe-lambe porque queriamos desenhar e colocar nossas coisas na rua. Esses lambes eram todos únicos, desenhávamos neles mesmo e depois colávamos. O tema dos lambes eram bem livres, na época eu ilustrava muito sobre animais, tinha uma relação com o veganismo, eu não tinha esse lance político ainda, que era uma coisa que me frustrava bastante mas que eu não sabia muito como fazer…acho que faltava um pouco de referência.

Em algum momento o coletivo começou a ficar muito grande – fomos chamadas para dar palestras, oficinas e até começamos a viajar. No final, conseguimos criar um nome na cidade, ganhamos editais públicos para dar oficinas para crianças e tudo mais, foi a partir daí que eu percebi que eu queria trabalhar com ilustração. Só que eu ainda trabalhava em indústria, foi aí que me formei e decidi mudar para São Paulo para tentar ganhar a vida com isso. Aqui trabalhei em um estúdio de ilustração e com isso, fui criando mais contato com o mundo. Nos meus primeiros meses eu consegui um trabalho com a SchizziBooks, que para mim foi muito massa, ilustrando capa, ilustrando coisas para evento, e a partir daí uma coisa foi puxando a outra.

Nesse meio tempo comecei a participar de feiras de arte e design, eu tinha minha própria loja online…eu já tinha lançado duas coleções de camisetas. Mas na época eu ainda trabalhava como designer, ilustrando só de noite e de final de semana como trabalho secundário mesmo, o que não me deixava evoluir tanto quanto eu gostaria e nem eu me considerar uma ilustradora. Só que em 2016 eu consegui uma oportunidade para morar fora e assim eu teria tempo para ilustrar o tempo todo – foi aí que eu falei para mim mesma “ou você vira ilustradora agora ou não vai ser nunca”. Até lembro que no meu último dia de trampo na agência eu falei pro meu chefe que estava meio triste por estar indo embora e ele me falou “vai lá ser artista”.

Depois disso comecei a desenhar todos os dias e postar no Instagram, e quando eu encontro um trampo que eu quero fazer, eu vou atrás da pessoa até ela me perceber. Então quando estava em Nova York, descobri um coletivo, que na verdade é só uma menina, chamado The Bettys. Ela participava de feiras independentes e vendia produtos feitos por mulheres, quando vi isso pensei que poderia ser uma oportunidade de abrir outras portas. Segui no instagram, dei uns likes, comentei em umas foto, até ela me chamar para ilustrar um zine e esse foi o meu primeiro trabalho por lá. Depois disso fui conhecendo as pessoas, quem fazia o que, quem trabalhava com o que, e esses trabalhos me renderam muitas coisas.

Você consegue dizer qual foi o trabalho mais relevante que você fez?

O trabalho que mais mudou a minha carreira foi o para a Refinery29, que é um portal de moda muito grande, eles têm muito seguidores e isso me fez conseguir todos os meus outros trabalhos em Nova York. Foi a partir daí que comecei a colocar o feminismo dentro do meu trabalho, quando percebi que tinham artistas que antes de tudo viviam de arte, algo que até então eu achava muito impossível – as pessoas viviam de vender em feira, produtos na sua loja, alguns trabalhos para marcas, sempre somando várias coisas.

Percebi também que muitos artistas tratavam da figura humana, mesmo sem saber realmente desenhar a figura humana, e eu tinha muito disso, que você precisava desenhar tudo muito perfeito. Também percebi que a galera faz vários tipos de personagens – isso me abriu muito a cabeça – pensei comigo mesma que iria desenhar mina, coisa que eu sempre quis, misturado com os temas que eu quero trabalhar. A partir disso minha carreira deu uma virada. Claro que muitas coisas ajudaram na mesma hora, o Trump ter ganhado a eleição e o feminismo ter se popularizado me ajudou muito conseguir fazer essa virada. A eleição do Trump fez a criação e venda de trabalhos políticos aumentar muito, eu não via tanto trabalho político antes.

Eu me achei, me sinto muito confortável fazendo o que eu faço, falando o que eu falo, é bem o clichê de trabalhar com o que você gosta. Mas claro, pra chegar ai você tem que trabalhar muito, sempre (risos).

Quando eu voltei para o Brasil, tinha a sensação de ter conseguido o que eu queria lá em Nova York, só que por aquí que não tinha feito quase nada. Cheguei em Novembro do ano passado e tinha em mente que precisava começar a fase 2, que era vender minhas coisas no mercado daqui. Mas no final não tive que fazer muito, ter morado fora me ajudou e já em Fevereiro começaram a surgir vários trabalhos.

O seu estilo de ilustração é muito seu. Quando e como você achou esse estilo?

Isso é uma busca constante, porque na verdade, ele sempre vai mudando conforme as referências que você vai tendo no seu momento de vida. Demorou muito para eu chegar, por exemplo, num estilo de olho que eu gostasse, mas aprendi dentro de agência que a vida é feita de referências. E claro, praticar muito, depois que eu parei para desenhar sempre, eu consegui desenvolver melhor, porque você tem mais tempo para testar, mudar e evoluir.

Se você ver desenhos meus de um ano atrás comparados com os de hoje, já são totalmente diferentes. Mudar ou não mudar é sempre uma coisa que me pergunto, dá uma certa insegurança, mas se você for ver, todos os artistas têm fases. No final é tudo um processo, isso nunca terá fim, o que eu produzia cinco anos atrás hoje eu já não produzo de maneira nenhuma; e o que eu produzia um ano atrás eu ainda estou produzindo mas de um jeito um pouco diferente.

Eu fico agoniada de fazer sempre a mesma coisa, inclusive com cor. Se for olhar no meu Instagram, tem a fase do roxo, a fase do rosa e agora estou numa fase vermelho e verde, e eu não sei porque, é muito natural.

O que ilustrar significa para você?

Hoje significa tudo, é muito quem eu sou, é isso que eu faço da vida. Não me vejo trabalhando mais em agência, não me vejo mais fazendo outra coisa. Depois que consegui me encontrar eu só quero que seja daqui pra cima, só quero fazer mais coisas, é onde eu me sinto mais feliz – mas quero que não seja só trabalho para ganhar dinheiro, quero que sempre tenha um porquê. Outro dia eu postei uma ilustra contra o Bolsonaro, eu nem estava com tempo para ilustrar, mas estava tão agoniada que eu parei tudo que estava fazendo porque eu preciso falar – e a maneira que eu falo é pelo meu desenho. Por exemplo, não consigo usar meu Instagram como influencer falando ou tirando foto, não sou assim, eu prefiro estar em segundo plano e colocar a minha ilustra como a minha forma de expressão.

Eu uso as minhas ilustrações como uma forma de ampliar a minha voz e fica um pouco mais tranquila comigo mesma. Se não eu fico pensando que não estou fazendo nada, que não estou mudando nada. Talvez não tenha nenhum resultado direito, mas talvez tenha um pouco, já que eu já recebi muitas mensagens de minas falando que meu trabalho ajudou elas de alguma maneira.

Agora falando sobre tênis, qual sua relação com tênis em geral?

Eu não sei explicar, mas eu gosto muito! Eu só uso isso e é o que eu mais compro em questões de roupa. Se eu tivesse muito dinheiro eu compraria muitos tênis (risos). Eu tento não consumir demais no geral, mas gosto muito de ir nas lojas de tênis, ver as cores e tenho alguns amigos que são bem mais aficcionados. Tenho estado em um momento mais básico, usando muito preto e branco, anos atrás eu tinha uns mais coloridos – e agora eu tenho um rosa (risos).

Converse é uma marca muito clássica e que já fez parte da vida de muita gente. Qual a sua história com a marca?

Quando eu era uma adolescente, um pouco mais “menino” do que eu sou hoje, eu usava shorts compridão, era uma época mais skate da minha vida, eu usava um Converse preto e eu amava muito esse tênis, depois tive um branco e parei de usar só porque mudei de gosto, mas eu acho super lindo.

Essa entrevista é parte de uma ação entre o Kickstory e Altai, com apoio da Converse para o Outubro Rosa, trazendo mais visibilidade para a causa. O que te fez aceitar participar da campanha com a gente?

Porque é por um motivo maior, esse foi o motor principal para eu participar. Eu felizmente estou num momento com vários trampos, um momento que posso escolher no que vou participar e quando eu vi a apresentação eu achei muito massa, me ver escolhida entre tantas ilustradoras foi muito massa mesmo. Além da motivação de toda a campanha, porque para mim é muito importante me colocar ao lado de coisas assim, o mais importante é poder colocar essa ideia para frente.


Converse Chuck Taylor All Star
Ganhado: 2018
Dona: @camixvx
Apoio: @converse_br e @saymynameclub
📸 @peroladutra