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A Verônica Hipólito comprou sua primeira sapatilha de corrida de QUARTA mão. Isso mesmo, três pessoas antes dela já tinham gasto o tênis. Pregos faltando na sola, tecido surrado, um modelo antigo, pessoas julgando. O que ela fez com esse par? História! Ganhou o Mundial de Atletismo e não parou por aí. Leia a entrevista e descubra tudo que a Verônica fez com sua Nike Zoom Jana Star II.
FOTOS POR VITÓRIA LEONA

“Eu sou a Verônica Hipólito, tenho 22 anos, sou velocista e atleta paralímpica. Eu já fiz três cirurgias na cabeça, uma no intestino grosso, já tive um AVC e enfim. Mas não é desse jeito que eu gosto de ser lembrada, eu gosto que olhem para as minhas conquistas: sou campeã mundial dos 200m rasos, vice-campeã dos 100m rasos, sou tricampeã nos jogos Parapan-Americanos; sou a maior medalhista do atletismo e a mais nova também, ganhei medalha de prata e bronze nos 100m e 400m dos jogos Paralímpicos de 2016, e desde 2013 eu estou entre as três meninas mais rápidas do mundo.”

Conta pra gente, quando e como você começou a praticar atletismo? Eu sempre fiz esporte, não para ganhar medalhas, dinheiro, ou fama, eu sempre fiz porque os meus pais acreditam que o esporte é uma forma de socialização e educação muito forte. Os dois são professores de história e também foram atletas a vida inteira, nada de medalha, mas eles praticavam por diversão e saúde. Eu já fiz de tudo um pouco – judô, taekwondo, karatê, ginástica olímpica, natação, polo, tênis de mesa, tênis de campo, futebol, futsal, vôlei e assim vai – em quase todos eu era horrível, mas no final eu me divertia e pra mim isso que importa (risos). Eu me encontrei no judô perto dos meus 11 anos, só que com 12 pra 13 anos eu tive que fazer uma cirurgia de urgência na cabeça para retirar um tumor, que se chama Adenoma Hipofisário. O meu já estava muito grande, só descobriram quando eu podia ficar cega ou morrer – e como vocês podem ver não aconteceu nada disso comigo (risos). Após a operação, eu tava no quarto do pós-cirúrgico e perguntei para o doutor se ia dar tempo de eu competir no brasileiro de judô. Ele falou “não Verônica, você não pode ir para o Brasileiro”. Eu pensei que fazia sentido, eu tinha acabado de operar. Então perguntei “Quando eu vou poder voltar a treinar?”, e ele “Verônica, você não vai poder mais voltar para o judô ou nenhum outro esporte de impacto”. Ou seja, nada que bolas pudessem bater em mim, ou esporte que as pessoas me empurrassem ou que tivesse algum contato físico. Na época eu fiquei muito chateada porque eu tinha me encontrado no judô. Eu fiquei um bom tempo em casa e aí um belo dia, o meu pai fala que me inscreveu em um festival de atletismo no clube Aramaçan que ia acontecer no domingo às 8h da manhã. E claro que eu, que ama dormir, falei prontamente que não, eu não estava afim, eu sempre achei atletismo muito chato; ele não falou nada. No dia da competição os meus pais me acordaram e me levaram pra lá. Quando cheguei lá e corri eu gostei muito, eu levei uma surra das meninas, mas eu amei. E aí eu saí de lá falando para os meus pais que eu ia ser a menina mais rápida da cidade.
Só que depois disso eu tive um AVC que paralisou todo o lado direito do meu corpo, inclusive a fala – aliás, acho que é por isso que eu falo muito (risos). Muita gente falava “ela tá de cama, ela não consegue nem andar, vai ser impossível voltar a correr”. Só que eu tinha o mais importante: os meus pais acreditando em mim e eu acreditando em mim. Minha mãe sempre me disse que eu não deveria ser medíocre, que eu tinha que dar o meu melhor mesmo que às vezes fosse doloroso; já o meu pai sempre disse, principalmente quando saí do hospital, que todo mundo ia tentar me limitar mas eu que iria decidir o que era ou o que não possível para mim. A vida é minha, as ações são minhas. E foi aí que decidi que eu realmente ia ser a menina mais rápida da cidade. Eu comecei no atletismo como reabilitação, andava um pouco, fui aumentando, comecei a trotar, depois comecei a correr e aí eu fui correndo mais rápido. Eu não fui a menina mais rápida da cidade, eu não ganhei os jogos escolares de primeira, mas eu ganhei o campeonato mundial adulto com 17 anos sendo estreante. Essa é a minha história no início do atletismo. Depois disso ganhei outras coisas, eu estou entre as 3 meninas mais rápidas do mundo nos 100m, 200m e 400m, e sou uma das cinco maiores do mundo no salto em distância. Tive que fazer outra cirurgia, tive que tomar remédios fortíssimos para evitar o tumor na cabeça de 2013 a 2017. Em 2015 na véspera do Parapan-Americano e do Mundial, eu descobri que tinha mais de 200 tumores no intestino grosso, mas mesmo assim eu competi dois dias antes de tirar 90% do meu orgão – eu como de tudo viu gente? Podem me convidar (risos). Tive que fazer uma cirurgia em 2017 para retirada do tumor da cabeça, deu erro, tive que repetir a cirurgia em 2018, perdi quase tudo de hormônio masculino, feminino, GH, tive broncopneumonia, trombose, tive várias coisas que me levaram para o hospital, mas o mais importante de tudo é que eu sempre voltava para correr e hoje, eu estou correndo.
EU NÃO FUI A MENINA MAIS RÁPIDA DA CIDADE, EU NÃO GANHEI OS JOGOS ESCOLARES DE PRIMEIRA, MAS EU GANHEI O CAMPEONATO MUNDIAL ADULTO COM 17 ANOS SENDO ESTREANTE.

Você entrou para a Seleção Brasileira alguns meses antes do mundial de 2013 em Lyon, na França. Qual foi a sensação de entrar para equipe e poder representar o Brasil?

Eu sempre achei aqui entrar na seleção era muito distante de mim, mas sempre sonhei com isso né, de correr com a seleção, com o uniforme. Eu fiquei tão feliz quando eu entrei que eu espalhei as minhas roupas na cama – todo mundo já super experiente, já sabiam de tudo, eles pegavam a bolsa com as coisas da seleção e saiam andando – mas eu peguei a minha, joguei tudo na cama e fui tirando várias fotos. Uma das minhas primeiras fotos no Instagram, são as roupas da seleção, até hoje eu tenho muito amor por elas (risos).

Quando eu tive um AVC em 2011, eu fiquei um bom tempo parada, no final de 2012 eu comecei a fazer a minha reabilitação no atletismo, eu parei no final de 2012 porque o Aramaçan acabou com o time de atletismo. Em 2013, antes de eu completar 16 anos, comecei no SESI treinando no olímpico e o meu treinador na época, que era de olímpico e paralímpico me perguntou porque eu não consegui usar tanto meu braço e porque eu mancava tanto. A primeira coisa que eu pensei em pedir era desculpas, porque eu não sabia que isso era uma sequela, eu não sabia o que poderia ser, mas ele falou “eu acho que todo esse tempo você estava competindo com o olímpico sendo paralímpica”. E isso me deixou muito mais forte.

Em março eu fiz a minha classificação para o paralímpico e entrei. Primeiro eu corri o regiona, muita gente achava que era impossível eu correr o regional, mas eu corri e ganhei nos 100m, 200m e no salto em distância. Depois eu fui para o brasileiro, que muita gente achava impossível eu conseguir o índice para o mundial, e fiquei em primeiro no 100m, 200m e no salto em distância e ainda fiz o índice para o mundial adulto. A minha terceira competição oficial foi o Open, achavam que era impossível eu ganhar porque tinha vários atletas de outros países, mas reforcei o meu índice para 100m, 200m e para o salto em distância e ainda bati o recorde mundial dos 100m. Então a minha quarta competição oficial foi o mundial. Entre o Open e o mundial, o recorde foi batido cinco vezes, então as meninas eram muito forte, mas elas não esperavam que eu fosse também. Quando eu estava correndo no Mundial foi muito louco porque quando eu vi, eu tava na frente e quando eu vi, eu ganhei o campeonato mundial!

E foi com essa sapatilha Nike Zoom Jana Star II que você ganhou o mundial! Qual a sua história com ela? Porque ela é tão importante para você?

Para começar, eu acho muito importante falar que eu sempre quis ter algum calçado da Nike. Meus pais sempre davam o melhor para mim para o meu irmão, mas na época eu sabia que a gente não tinha condição de comprar um Nike. Quando íamos comprar tênis na Centauro, eu analisava todos os tênis e preços para ver qual era o melhor custo-benefício, eu escolhia o que ia durar mais tempo porque eu tinha que usar ele na pista, para andar e também para a escola. E o meu sonho era ter Nike, mas não conseguíamos ter porque era muito caro.

Quando eu comecei no atletismo, todo mundo corria de sapatilha e eu não tinha bendita sapatilha. E as sapatilhas são muito caras, custam por volta de R$300 a R$400, e falaram que eu não ia durar 1 ano com uma sapatilha. Um dia meu treinador do Aramaçan, o Valdemar, disse que eu precisava de uma sapatilha e que ele achou uma menina vendendo a dela. Ele falou “não é a ideal, mas se você pagar à vista fica R$130”. Eu falei com meu pai e minha mãe se eles poderiam me ajudar a pagar, eu economizava bastante, mas eles  decidiram que iam me dar.

UM GRANDE AMIGO MEU, O YOHANSSON, VIU QUE EU ESTAVA COM MEDO E FALOU “VOCÊ DEU VÁRIOS TIROS NO TREINO, VOCÊ CORREU VÁRIAS VEZES, E A COMPETIÇÃO ERA SÓ UMA, VAI LÁ E FAZ, ISSO É MAIS FÁCIL DO QUE QUALQUER TREINO.

Três pessoas usaram essa sapatilha antes de mim, ela foi meu primeiro calçado da Nike e a minha primeira sapatilha. Eu peguei ela no final de 2010, antes do meu AVC, depois eu usei em 2012, em 2013, e quando chegou o mundial, ela tava um “pouco” judiada (risos). Ela tava bem esgarçada, alguns pregos não saíam, outros estavam presos nela, tinha uns a menos. Além disso ela não é uma sapatilha de velocidade, ela é de meio-fundo e fundo – que é acima de 800m rasos. Tinha tudo para dar errado.

No Mundial, na câmera de chamada, todas as meninas estavam com umas sapatilhas novas, com lançamentos, e eu olhando para minha de pano (risos). Um grande amigo meu, o Yohansson, viu que eu estava com medo e falou “você deu vários tiros no treino, você correu várias vezes, e a competição era só uma, vai lá e faz, isso é mais fácil do que qualquer treino”. Ele reparou eu olhando para minha sapatilha e falou “isso aí tem história, a delas não”. Aí eu pensei “agora eu vou!” (risos). Eu sabia que a minha chance de perder era muito grande, mas a minha sapatilha tem história, e foi ela que me ajudou a chegar.

EU A CONHEÇO E ELA ME CONHECIA, EM QUALQUER PISTA, DE BORRACHA, DE CARVÃO, DE TERRA, EU SABIA COMO ERA, EU SABIA COMO ELA PODERIA ME LEVAR LONGE E COMO ELA JÁ ESTAVA ME LEVANDO. E FOI ESSA SAPATILHA, A MINHA PRIMEIRA, QUE NÃO SÓ ME LEVOU AO TÍTULO COMO FEZ A NIKE VIR ATÉ MIM ME PATROCINAR. EM QUAIS SONHOS EU IMAGINAVA QUE A NIKE, VIRIA ATÉ MIM QUERENDO ASSINAR COMIGO?!
Você fala bastante em como se sentia em ter uma sapatilha inferior a das outras meninas. Você sentiu algum preconceito com você, por isso? Várias vezes. Algumas pessoas davam risada, olhavam e ficavam menosprezando do tipo “você não vai conseguir ir, o que você tá fazendo aqui”. Mas de verdade, tirando Mundial que eu fiquei mais insegura, de resto eu nunca liguei porque essa é a minha sapatilha, foi o meu primeiro calçado da Nike e tô com ela até hoje, eu amo essa menininha (risos). Eu a conheço e ela me conhecia, em qualquer pista, de borracha, de carvão, de terra, eu sabia como era, eu sabia como ela poderia me levar longe e como ela já estava me levando. E foi essa sapatilha, a minha primeira, que não só me levou ao título como fez a Nike vir até mim me patrocinar. Em quais sonhos eu imaginava que a Nike, viria até mim querendo assinar comigo?! De verdade? Não é o melhor que vai te levar mais longe, mas sim todo o carinho, toda uma história e você conhecer o que está usando, e ir. Só vai.
O ANO PASSADO EU NÃO TAVA CONSEGUINDO ANDAR SEM USAR O MEU ANDADOR OU SEM ME ESCORAR NA PAREDE. HOJE EU CORRI COM A BATERIA MAIS FORTE QUE TINHA DE MENINOS E MENINAS. O QUE ME IMPEDE DE IR PARA O PAN, MUNDIAL, TÓQUIO E GANHAR? NADA.
Depois da sua última cirurgia você ficou um tempo parada, mas agora você voltou com tudo. Quais são os seus próximos passos? Eu fiquei dois anos e meio parada, tive várias dificuldades, mas uma coisa que a gente acredita aqui é que você dá um passo de cada vez, você conserta uma coisa e conserta outra. Hoje você corre 10m, mas amanhã você corre 10,1m e depois de amanhã você corre 10,2m. O importante é um passo de cada vez. Às vezes você tem que recuar um pouco, às vezes você avança muito, mas é devagar que você vai conseguindo. Eu sei o quanto é difícil o que eu vou falar agora: muita gente diz que é impossível, mas eu não acredito nessas coisas de impossível. É muito diferente impossível para o difícil. Tudo é difícil mas nada é impossível. Eu quero conseguir o índice para o Pan, eu quero conseguir o índice para o mundial deste ano, quero ir no Pan e no mundial, eu quero medalhar e vou fazer de tudo para ser campeã, para ganhar o campeonato mundial, ganhar o Parapan-Americano, conseguir mais medalhas do que da última vez, melhorar a minha marca comparado com das últimas vezes. E ano que vem tem Tóquio com jogos olímpicos e paralímpicos, e eu vou para Tóquio! Eu treino para isso, eu vou para o Pan, eu vou para o mundial, eu vou para Tóquio, mesmo que quase todo mundo não acredite, eu acredito. E eu sei que junto de mim tem pessoas que acreditam – os meus treinadores estão aqui comigo, meus pais estão sempre comigo, meu namorado me liga todo dia pegando no meu pé na academia. Eu vou chegar lá. O ano passado eu não tava conseguindo andar sem usar o meu andador ou sem me escorar na parede. Hoje eu corri com a bateria mais forte que tinha de meninos e meninas. O que me impede de ir para o Pan, Mundial, Tóquio e ganhar? Nada.

Nike Zoom Jana Star II
Comprado: 2010
Dona: Verônica Hipólito
Fotos por: Vitória Leona