“Fabrizio Lenci, 29 anos, arquiteto de formação mas trabalho com criação de tudo que envolve arquitetura/design/gráfico, tudo que é multimídia.”

Fale um pouco sobre essa sua formação como ilustrador, arquiteto e designer.

Na real, eu trabalho com desenho – se eu fosse definir o que eu faço é desenhar. E desenho tem uma gama de atuação gigantesca, na verdade fui estudar arquitetura porque desde moleque eu amava desenhar, isso era a minha brincadeira, passava horas fazendo isso em casa. Lembro muito de uma impressora antiga do meu pai, que tinha um papel contínuo – eu estendia aquilo e ficava desenhando horas e horas.

Quando saí da escola queria desenhar, mas de fato não existia um curso de desenho e eu não queria estudar design ou ilustração. Então, acabei entrando em arquitetura e essa foi a melhor escolha que eu fiz na vida, porque aprendi a desenhar na faculdade de arquitetura. Durante a faculdade eu entendi o poder do desenho – desde o desenho técnico, de você transformar uma ideia em algo exequível até o desenho contemplativo, que a única função é ser legal, bonito e comunicar. Desenho comunica ou uma informação técnica ou uma emoção, uma opinião, então essas foram as duas coisas que eu acabei desenvolvendo em paralelo.

Quando você começou a pensar no espaço urbano e essa questão de desenhar a cidade?

Quando entrei na faculdade, eu não sabia nada sobre cidade, mas desde muito novo eu gostava de música hardcore, punk rock, então vivia no centro, lá na Galeria do Rock, no Hangar 110. Eu morava no Ibirapuera, um bairro completamente residencial, não tinha nada pra fazer. Pegava o ônibus com os amigos, íamos para o centro e eu ficava louco, cara, eu não sabia o que era, mas sentia uma conexão com o lugar, achava muito foda. Acho que meu tesão pelo lugar é pela diversidade – várias pessoas diferentes no mesmo lugar – que você não vê em outros bairros, acho que só o centro tem esse poder em São Paulo. E também por ser um bairro aberto pra rua e não um local trancado pra dentro das casas ou condomínios, então isso já me despertava alguma coisa mas eu ainda não sabia o que era.

Na faculdade, quando comecei a ter aula de urbanismo e vim estudar no centro, foi quando eu comecei a pirar. Mesmo assim eu ainda era muito novo e hoje eu consigo perceber como isso foi evoluindo pra mim: a importância do que é de fato uma cidade é uma coisa que eu tento levar em São Paulo. Todo mundo fala que aqui é uma cidade horrível, e em vários aspectos ela realmente é, mas se você conseguir moldar a sua vida, você consegue ter uma vida nível europeia. Claro que isso depende do bairro, mas o centro é um local que te proporciona essa sensação. É meio bizarro falar isso, mas é europeu no sentido de usar a cidade, da rua ser realmente um local de encontro. Se você está na Europa, dificilmente o cara vai te chamar pra tomar uma breja na casa dele porque a rua é o espaço de encontro, tem um monte de praça, vários bares, você senta na calçada e não tem medo de nada, as pessoas não são paranoicas. Aqui é totalmente diferente porque a primeira coisa que se faz com seus amigos é conhecer a casa deles porque você não se encontra muito na rua.

Esse foi até um dos motivos de eu ter escolhido a locação das fotos na rua, você tá ali a mercê das coisas que estão acontecendo. Você tá ali desenhando e vai chegar um cara, e você ta no espaço dele – ele está ali há quinze anos, você tá lá de passagem, então você é um invasor. Você tem que aprender a conviver e, cara, é muito de boa, as pessoas têm muito medo à toa. Não viver por medo é a pior coisa que as pessoas podem fazer para a cidade, porque aí as pessoas não conhecem a cidade.

Agora respondendo a pergunta, acho que o interesse pelo espaço urbano se deu quando entendi que a vida que eu queria ter era uma vida de usar a cidade e as coisas que ela te dá. Então odeio andar de carro, gosto de sair pra comprar a minha comida todos os dias, gosto de conhecer os meus vizinhos e meu interesse veio daí quando percebi que era essa vida que queria ter. Foi assim que comecei a curtir mais a cidade.

O que é o Vapor 324?

O Vapor é onde eu trabalho, é um escritório/estúdio de arquitetura, design e audiovisual. Foi fundado por mim e mais três sócios que estudaram comigo na faculdade, que eram mais velhos que eu e sempre brinco que eles eram os caras com que eu queria trabalhar, quando eu era mais novo eu olhava eles e achava mó foda. Além de que minha faculdade era pequena, todo mundo se conhecia. A gente ficou amigo e começamos a trabalhar juntos no porão da Escola da Cidade, fazendo umas luminárias para festas da faculdade. Começou a dar meio certo e aí a gente foi trabalhar em um escritório com mais 9 amigos, durou uns três anos. Depois acabamos nos separando e junto com esses três sócios fundamos o Vapor, isso já faz quatro anos.

A gente desenvolve diversos projetos dentro dessa área de arquitetura e design. Os projetos são divididos em construção e obra: temos uma atuação forte em reforma e criação de projetos para restaurantes, apartamento, casa, mobiliário, a gente faz questão de desenhar tudo milimetricamente; fazemos questão de fazer uma arquitetura inteligente que seja franca e que possibilita a obra a ser o mais inteligente possível. Temos atuação em design gráfico e ilustração; trabalhos de identidade visual, identidade gráfica para festivais, shows, eventos. Eu fiz muita coisa para jornal, desenhei muito para o Estadão e Folha de São Paulo e revistas. Temos uma área de audiovisual que é uma área de instalação, projeção, vídeo mapping e animação.

A nossa idéia é que todas as áreas se cruzem, isso é o que a gente mais gosta de fazer. Por exemplo, quando vamos fazer uma instalação de audiovisual como na Virada Cultural, você tem que desenhar isso, então você tem que fazer um projeto: a arquitetura vem, você desenha uma peça, faz de acordo com o budget do cliente; depois você pega esse desenho, anima ele no computador e depois solta o audiovisual da instalação. Então tudo se cruza sabe? Isso é o mais legal. Mesmo quando a gente faz animação para redes sociais, como do Red Bull Music Academy, a parte gráfica acaba servindo à parte de audiovisual. E um dos meus sócios está fazendo muita trilha sonora, então a gente está produzindo tudo aqui.

É tudo muito legal, mas tem o lado ruim de que a gente acaba competindo com pessoas que são especialistas em uma área só. Por exemplo, um cara vai fazer um vídeo ou animação, a gente nunca é a primeira opção porque eles chamam um cara que só faz animação. Então o nosso gap é fazer cliente entender e nos chamar principalmente porque fazemos outras coisas. Isso já rola, o Sesc, por exemplo, que é um cliente super fiel, eles chamam a gente porque eles sabem que fazemos várias coisas. Estamos fazendo a inauguração do Sesc 24 de Maio, ou seja, nós criamos toda a parte gráfica de lançamento – do convite aos mapas; vamos fazer também as animações que vão passar no metrô que já conversam com essa parte gráfica; e nos chamaram também para editar o documentário que fala sobre o prédio. Então é o tipo de cliente que entende que você tá dentro de todo o projeto e que tudo está conversando. Quando tem um projeto de arquitetura no qual produzimos a parte gráfica dele, ou quando tem uma instalação audiovisual, esses são os projetos que mais gostamos.

Pra mim, o Vapor é o trabalho dos sonhos, eu nunca me imaginei trabalhando em outro lugar. Na verdade, rola uma crise pessoal mesmo, que às vezes sinto que eu não trabalho, que sou meio vagabundo e acabo me sentindo meio mal. Mas na real quando paro pra pensar, vejo que faço o que eu realmente gosto. Penso tipo “caralho, os caras estão me pagando pra ficar desenhando o dia inteiro, que delícia” (risos). Mas às vezes é muita treta, porque a gente trabalha muito, eu pelo menos fico 9h aqui todos os dias da semana. Mas o clima é muito leve e isso é muito bom. Tem semana pauleira, esse ano principalmente, e eu não curto muito esse discurso de trabalhar até morrer, sabe? Acho isso uma besteira. Todo mundo do Vapor tem talento pra estar trabalhando em outro lugar e ganhando muito mais grana, mas a gente não quer isso. Pra mim, sucesso é muito relativo, não tem só a ver com grana, tem a ver com o que é a sua vida todos os dias e, até agora, pra gente tá muito animal.

Isso talvez seja uma premissa da arquitetura, mas você diria que os seus projetos têm impacto na cidade e na vida das pessoas?

Na minha opinião, na arquitetura você tem uma atuação pública, você tem que ser muito responsável, porque você tá construindo uma coisa que tem que durar no mínimo 100 anos. É difícil atuar com poder público, é mais fácil quando você tem clientes particulares. Então, quando você faz um projeto de arquitetura, você tem que pensar primeiro em quem que vai usar, tem que ser o mais confortável e coerente possível para quem vai utilizar esse espaço. Nós não somos nada formalistas no sentido de partir primeiro para a forma porque é mais bonito, a gente sempre pensa no usuário final antes – em consequência disso você deixa as coisas bonitas, porque se não você se perde no meio do caminho. Tudo dá pra ficar bonito, então a primeira coisa é funcionar. Segundo, temos que pensar em todas as escalas para o cara se sentir bem em um lugar bem ventilado, bem iluminado, com acústica boa, com materiais coerentes e inteligentes, gastando o menos de energia possível. Até pensar na mão de obra de tudo isso, quem que vai construir. Faz sentido em 2017 você usar uma mão de obra muito semi-escravizada? É importante ser coerente nos processos.

Já os trabalhos gráficos tem duas funções que são facilitar a vida, facilitando a leitura, e passar a mensagem que precisa ser passada. Por exemplo, o público do Sesc é gigantesco, então a linguagem que você tem que falar tem que funcionar para todos os tipos de público que frequentam o espaço. Acho que trabalho bom é trabalho inteligente, você tem que saber com quem você fala antes de qualquer coisa. E opinião pessoal, mas tem que ser tudo bonito, eu sei que isso é meio relativo, mas tem que ser tudo bem feito. Dificilmente uma coisa bem feita é feia.

E qual sua relação com a cidade?

É a melhor possível. Eu tenho uma relação de amor e ódio por São Paulo – mais de amor do que de ódio. Ódio porque eu sei o potencial que a cidade tem de ser muito foda e não é, já que ela não é usada. Ela tem uma puta geografia legal, tem dois rios muito animais e tem muita gente boa, muito arquiteto bom, muita gente que pensa a cidade e, mesmo assim, ano passa e a gente vê que nada muda. Existe uma puta carência de espaço público, de ciclovia, de programas que deixam a cidade mais agradável e gostosa que nem é lá fora. Então, aqui a gente espera criar uma demanda pra fazer alguma coisa, por exemplo: vamos deixar ter milhões de ciclistas antes de fazer ciclovia; e não construir ciclovias para criar demanda. Essa parte é a que eu acho uma merda.

Mas a minha relação de amor com a cidade é porque acho São Paulo muito legal, é uma cidade em que, em determinados bairros como o centro, centro expandido, várias culturas se conversam de um jeito que não acontece em nenhum outro lugar. O bairro Pari, por exemplo, tem uma puta imigração síria-libanesa, uma boliviana muito recente, uma coreana dos anos 80, tem mesquitas, mulheres de burca nas ruas, tem uns portugueses, tudo ao mesmo tempo. E não é como se eles estivessem interagindo entre si porque seria uma mentira dizer isso, mas tudo está acontecendo ali, todo mundo coexistindo e eu acho isso muito foda. Além do mais, a cidade é muito linda, o centro velho, o centro novo, são maravilhosos. Então eu moldei a minha vida para ser incrível: eu e minha esposa moramos em um prédio bem pequeno sem portaria nem nada, não tenho carro e só ando de bike, trabalho no centro então eu saio pra comer em todos os lugares que eu conheço por aqui, é muito agradável. A cidade me deu muita coisa – meu trabalho, minha paixão por desenhar. O que desenho é muito de observação da cidade, além de ter conhecido muita gente por causa da bike, nos vários roles à noite; fiz muito amigo na rua.

Quais lugares da cidade você levaria alguém pra dar um rolê?

Tem um lugar que eu amo de paixão que é um boteco na Liberdade chamado Kintaro – pra mim esse lugar é a cara de São Paulo. É de uma família de imigrantes que prosperou vendendo comida, um boteco que é a cara da cidade, tem desde esfihas a ovos coloridos, ou de caipirinha a saquês. Gosto muito da Liberdade, pra mim, lá é um bairro muito fotogênico. Levaria no Ita, que eu adoro também, é uma família de portugueses que abriu um bar que vende bacalhau nas sextas-feiras, mas vende comida brasileira também. Tem uma coisa dos imigrantes se adaptarem à cultura local e acho incrível como aqui acontece de um jeito muito orgânico e natural.

Tem um rolê que eu adoro fazer aqui que eu chamo de “rolê turístico”. Se viesse um gringo, eu colocaria ele dentro de um carro ou pegaríamos uma bike e faria esse rolê: sair da Paulista com a Consolação, cruzar a Paulista inteira, descer a Liberdade e entrar alí atrás da Praça da Sé, passar no Pátio do Colégio, até o Largo São Bento e aí pegar a Líbero Badaró até o Viaduto do Chá, virar à direita, cruzar o viaduto e passar atrás do Teatro Municipal, e pegar a Av. São João. Pra mim, esse é o rolê turístico pela cidade, e tem que fazer isso à noite. Várias vezes, quando eu preciso pensar, eu pego a minha bike e faço isso.

Tem algum pedaço de São Paulo com que você se identifica mais?

Curto muito o Beco dos Aflitos, que é perto da praça da Liberdade. É um lugar que o pessoal fala que é mal-assombrado e tal, mas eu curto muito porque tem uma geografia de beco que tem muito pouco em São Paulo. E parece que você ta em um filme meio Bruce Lee, parecendo um lugar de Nova Iorque; acho esses lugares muito fodas. E eu detesto carro, odeio dirigir, então esses becos tem poucos carros porque não tem lugar pra manobrar.

Descreva o dia a dia ideal do Fabrizio.

Um dia ideal é acordar, pedalar um pouco – voltando um pouco ao assunto, isso pra mim é uma coisa ruim de São Paulo, que tem poucos lugares pra pedalar. É a USP, ciclovia e a estrada, mas é um saco sair de São Paulo pra andar na estrada. E isso eu sinto falta, de ter uma natureza mais próxima pra pedalar. Mas enfim, o ideal é acordar, dar uma pedalada, voltar pra casa, tomar um banho, tomar um café, pegar a bike de novo e parar no meio do caminho para tomar outro café, tipo no KOF ou no Beluga, chegar no trabalho e o ideal mesmo é quando eu só tenho que criar e não tenho que resolver nenhuma bucha. Depois saio daqui, passo no mercado pra comprar alguma coisa pra cozinhar e depois vou pra casa, e continuo desenhando (risos). Tem vários dias que são assim.

Qual é o papel do tênis no seu corre diário?

Eu tenho uma teoria que eu saco a pessoa a partir do tênis que ela usa, totalmente. Então  eu já sei que vou ter um problema com a pessoa quando eu vejo o tênis dela (risos). Mas eu acho que o tênis é uma extensão da sua personalidade, você sabe muito de uma pessoa por isso. Você consegue saber do que ela gosta, se ela anda de carro, a pé, de skate, se ela pedala, se ela é meio fitness, você saca tudo. Sabendo isso, sou muito chato, só uso os que eu curto muito e só uso isso, raramente uso sapato – só quando é realmente necessário. Meu trabalho me permite ser como eu sou, então uso o que quero, vou pra reunião sempre de tênis.

A coisa que mais prezo é conforto, porque ando muito a pé, então eu curto muito tênis confortável. Se vou pedalar, pego uns ténis com um solado mais duro porque aí eles demoram pra ficar detonados. Curto muito tênis bem clean, gosto de tênis preto de uma cor só – isso tem muito a ver com a forma de eu me vestir, porque meu armário é composto por peças pretas, brancas e cinzas, e tem umas peças azul-marinho.

Todo mundo que trabalha com imagem, arquitetura, design, criação – você vende um bom desenho, então você preza muito pelo que está usando e pelo que eu julgo que é um bom desenho, tem que ser funcional, bonito e inteligente.

Nike AirMax 97 Ultra
Dono:
@falenci
Ganhado: 2017