A Grazi Oliveira buscou através da sua profissão, meios para dar mais espaço e voz para o skate, principalmente o skate feminino. Na nossa entrevista ela nos conta sua trajetória e experiências que a levou a criar o Go Channel – um canal dedicado a dar voz e visibilidade para as mulheres do skate e do graffiti, e valorizar os corres que elas fazem diariamente.
Além disso, ela e mais 7 mulheres criaram o projeto Una Skate, que surgiu mais tarde com a necessidade de criar um movimento para as minas do stake e roller, chamando todas para praticar juntas. Para a entrevista com a gente, Grazi escolheu um tênis preferido para andar de skate e que representa um pouco de tudo isso para ela, o Puma Suede – um tênis que foi abraçado totalmente pela cultura do skate.
FOTOS POR PÉROLA DUTRA

“Eu sou a Grazi Oliveira, tenho 30 anos e ando de skate desde os 15 anos. Sou natural de Porto Alegre e foi lá que eu comecei a andar de skate, na pista do IAPI – eu me apaixonei pelo skate e depois desse dia eu nunca mais parei de andar.”

Como começou a sua trajetória no skate?

Quando eu comecei a andar de skate, eu queria ser skatista profissional. Só que chegou um momento que minha mãe falava assim “tá, você se machuca, você não trabalha, qual que é o objetivo da sua vida? O que que você quer fazer?”. E aí eu fiz vestibular, passei em jornalismo e eu entendi que meu papel de repente, era muito mais além do que andar de skate, de ser uma skatista profissional – e sim uma profissional do skate. Então, dentro da faculdade, eu fiz o máximo para entender de todas as matérias como eu poderia melhorar a imagem do skate. Porque naquela época, 15 anos atrás, não era como é como hoje, sabe? Hoje o skate é legal, bacana, as pessoas investem. Mas na época o skate feminino era uma sementinha. Falar sobre o skate não era algo comum ou respeitado.

Então foi na faculdade que eu comecei a aprimorar um pouco mais sobre jornalismo especializado no skate e quando eu estava no segundo semestre, fui fazer um curso de radialista. Eu era muito tímida, eu não conseguia falar ‘presente’ na aula. E aí um dia eu fui fazer um curso de rádio porque tinha uma rádio muito legal em Porto Alegre chamada Ipanema. Era como se fosse a 89, só que de Porto Alegre, só tocava as músicas daoras e tinha programas de skate, surfe, rap e reggae. E eu era uma ouvinte muito fiel, toda vez que tinha um programa de skate, além de eu interagir com o locutor, eu mandava e-mail para ele, tipo fã nº 1 do programa. E eu tava fazendo esse curso de rádio e um dia ele me perguntou “Grazi, já que você é muito fã do programa, vem produzir aqui na rádio” e eu topei na hora.

Eu morava perto da rádio, então eu ia toda semana produzir esse programa de skate. Na sequência, apareceu uma oportunidade para fazer estágio na rádio e eu entrei. E este locutor que fazia outros programas na rádio, entrou de férias e eu fiz um piloto. Fiz as férias do cara e quando ele voltou, meu chefe me deu o programa. E eu era uma mulher, falando sobre skate – não era skate feminino – eu trazia tipo informações sobre skate no geral e música. Naquela época a internet não é como hoje de fácil acesso de vídeo, vídeo-part, de bandas e tal. Então eu fazia uma pesquisa bem apurada para colocar o som do vídeo do o que a galera curtia na seção. E eu amava tudo isso. Tanto é que uma época, 56% de público era feminino. O programa tinha chegado no IBOPE como o segundo mais ouvido de sexta-feira a noite. Isso era uma resposta para mim, sabe?

Fora a rádio que tava bombando muito, que eu tava super feliz de fazer isso, eu comecei a clicar. Comprei uma câmera usada, e aí eu conheci o pessoal da Vista, que foi a primeira revista que eu colaborei com foto, texto, com tudo. Ao mesmo tempo, eu aprendi a editar comercial em rádio e foi assim os meus primeiros passos para o vídeo. Então eu fazia paralelo o rádio, eu virei locutora normal, e junto, colaborava para todas as revistas de skate do país, como a CemporcentoSKATE, a Tribo, a Vista.

Enfim, me formei, larguei tudo, tirei umas férias e aí fui pra Califórnia. Eu queria entender um pouco mais da história do skate, eu queria viver a raiz, a história, eu era tão fascinada por isso. Era pra eu ficar 3 meses mas acabei ficando 2 anos (risos). E lá eu tive que me virar em tudo, eu aprendi a ser gente. O que me movia a ficar lá era o skate, as oportunidades que eu tive. Mas eu tive que fazer todo tipo de trabalho pra pagar minhas contas. Então era um equilíbrio, sabe? Ao mesmo tempo que um dia eu tava entregando pizza, no outro eu tava no red carpet cobrindo uma premiere da Transworld, a Transworld Awards, que era tipo o Oscar do skate. Então sempre era muito contrastante.

E aí eu continuei trabalhando pra rádio e entrevistei muitas pessoas lá, como o Danny Way, o Mariano, Stevie Williams, puts, todo mundo. E eu gravava o áudio e perguntava o som da seção. Eu falava uma coisa mais breve, fazia uma intro do entrevistado e como que era o som da seção. Já que é rádio né, vamos falar de música, o que tu escuta andando de skate? Foi uma experiência muito legal, porque eu continuava conectada com skate, com uma vida muito louca lá, tendo um aprendizado de vida enorme, fotografei bastante, e enfim. Eu fui correspondente da ESPN por um tempo também, então eu fazia 3 em 1 – fazia para as revistas, pro rádio e para a ESPN. Foi aí que eu comecei a fazer e aprender vídeo, vídeo, vídeo, e texto né? Mas ai cansei. Ficar 2 anos sem ver a família, os amigos, é muito tenso. Saí dos Estados Unidos, fiquei meses em Porto Alegre, e depois me aventurei em vir pra São Paulo. Quando eu cheguei aqui eu não tinha onde morar, e aí fui morar numa república com 14 caras na Vila Leopoldina, foi um contraste muito doido. E fui andando de skate.

Eu fui trabalhar com moda, em uma marca luxo e eu nunca tinha usado um salto alto na vida. Fiz a entrevista de emprego e fui muito sincera, falei todos os pontos de ruim que tinha na marca e eu não sei porque, mas a mulher da marca gostou de mim e me contratou pra ser gerente de marketing. Eu aprendi a fazer São Paulo Fashion Week, revista de moda como Vogue, vestir elenco de novela. Foi um aprendizado bem “O Diabo Veste Prada”, porque no horário de almoço eu ia no Pico do Valadão ver a galera andar de skate, e eu lá, toda arrumadinha. Eu sabia que algo dentro de mim queria que eu tivesse no meu núcleo. Mas enfim, trabalhar nessa empresa foi uma escola para mim, tanto é que depois que eu saí de lá, eu fui trabalhar numa multimarcas, que aí tinha Vans, a Superga e etc, e aí eu levei um pouco da moda nisso. Lá eu trabalhei como RP e assessoria de imprensa, então foi muito legal ter visto um mundo totalmente diferente, vinda do skate, do jornalismo e do mundo da moda, que eu não tinha visto, depois voltar pro mercado com uma bagagem de vários mundos.

E UM DIA PENSEI “JÁ QUE NENHUM CANAL OU REVISTA FALA SOBRE MULHER, PORQUE NÃO FAZER UM ESPAÇO SOBRE MULHERES? NÃO É PRA EXCLUIR O CARA, MAS SIM DAR VOZ PARA MULHERES QUE TÊM POTENCIAL, MAS NÃO TÊM VISIBILIDADE.

E como foi o começo e a criação do Go Channel?

Em paralelo a tudo isso eu comecei a filmar, continuava filmando as meninas e tirando foto. E um dia pensei “já que nenhum canal ou revista fala sobre mulher, porque não fazer um espaço sobre mulheres? Não é pra excluir o cara, mas sim dar voz para mulheres que têm potencial, mas não têm visibilidade. Tirei minhas férias, fui pra Califa, e fiz o piloto lá. Nas primeiras sessões lá, teve um evento no Berrics, então eu fiz meu piloto lá! Foram muitas coisas boas, muitas vivências, foi muito legal.

Voltei de férias da agência que eu trabalhava. Lá eles criavam muitos eventos e eu sempre com tentava levantar a bandeira feminina, tipo “e aí, vamo botar mulher?”. Uma das marcas que trabalhei não tinha uma mulher, dentro da equipe de skatistas, só era o time masculino. E já que eles não queriam assinar com nenhuma mulher, eu propus da gente fazer um seeding para beneficiar várias meninas que não necessariamente andavam pra caralho, mas que viviam o lifestyle e queriam continuar andando de skate, só que precisam de estrutura. E deu muito certo, as meninas foram valorizadas e começaram a ser vistas. O canal eu fui filmando, fui indo pra lugares que ninguém sabia que existia outras meninas que andavam, tipo no norte, no sul, lá no Rio.

E aí teve o evento Slides & Grinds, que foi um evento grande, bem segmentado e difícil, até para os caras andarem, e eu insisti muito para a gente ter um espaço de skate feminino – não pela premiação nem nada, mas sim pela inclusão de realmente ter as meninas. Pra mim foi isso que valeu, ter as meninas ali, andando num campeonato. E agora, cada vez mais tem a presença das mulheres no evento, dá pra ver uma evolução. Depois, chegou um momento que eu queria dedicar todas as minhas energias pro meu projeto, para esse mundo que eu tava disposta a lutar, que é esse universo da mulher no skate e aí eu saí da agência e continuei freelando como videomaker, fazia outros trabalhos assim pequenos de produção de conteúdo, e aí tentei focar mais no Go Channel.

Trouxe outros temas como o graffiti, e aí eu fiz um vídeo bem legal da Venus, que é uma pixadora aqui de São Paulo. Foi um desafio muito grande porque eu nunca tinha feito rolê de pixo e é tão foda quanto o skate. E aí eu respeitei muito mais ainda a cena. Porque se no skate é difícil, hoje em dia com todas essas possibilidades, imagina o graffiti que é total marginalizado? A gente foi quase presa, um cara bateu em mim na rua porque eu tava filmando e ela tava fazendo só o esboço. Então é muito tenso e eu paguei muito mais pau assim. Eu falei “meu, agora sim eu quero falar mais sobre essas mulheres que dão a vida por isso”. No Go Channel eu trabalho só comigo, se tivesse mais pessoas acho que iria fluir muito mais e eu iria produzir mais. E eu vejo ele como uma consequência, não é uma obrigação. Não é qualquer menina que eu vou falar porque ela tá em destaque, e sim pelo corre que ela tá fazendo – é valorizar o que ela faz.

Eu fui pra Barcelona nas duas férias que eu tirei e fiz uma video part com umas manobras bem pesadas e de nível, de uma skatista de São Paulo que mora lá, a Xushines. E pra mim foi um desafio e o resultado ficou muito legal. A gente levou prêmio no MIMPI e foi a primeira vez que teve categoria feminina lá. Então é isso que vale. E para ela que tava um tempo desmotivada e desanimada de andar, ela voltou agora com tudo, e isso motivou também outras mulheres a quererem fazer vídeos e fazer vídeo parts e tudo mais. No meio disso tudo, eu bati na porta de algumas marcas para tentar fazer algo para essa categoria, para esse movimento, para essa situação que a gente tava vivendo e eu fui muito bem recebida pela Puma, e esse ano a Puma falou “cara, vamos fazer algo pro skate”. Que foda, sabe, que bom que alguém tá valorizando, tá enxergando que a gente precisa e de que maneira eu posso ajudar.

E o skate, por mais que ele seja individual, ele só funciona com o coletivo, ele só funciona com outras pessoas. É isso, sem isso é sem graça. Você pode até botar um fone e dar o teu rolê, mas só vai ficar divertido quando tiver teus brothers, quando tiver a galera, ou a sessão, nem que for depois da sessão tomar uma breja. Skate é sobre isso. É uma família, é uma comunidade. Por mais que hoje eu me visto mais como mulher, porque antigamente eu era mais largadona, naquela época acho que a gente tinha que se esconder de mulher, não podia ser mulher. Não sei explicar. Antes eu tinha medo de ser feminina no skate, pelo assédio, preconceito, muito machismo, e pela inveja também de outras meninas de achar que você é “Maria-rolamento”. Hoje em dia a mulher pode ser quem ela é e andar de skate, ter o estilo dela, ser feminina no skate, não tem problema nenhum. Então graças a Deus que isso tá mudando.

E O SKATE, POR MAIS QUE ELE SEJA INDIVIDUAL, ELE SÓ FUNCIONA COM O COLETIVO, ELE SÓ FUNCIONA COM OUTRAS PESSOAS. É ISSO, SEM ISSO É SEM GRAÇA. VOCÊ PODE ATÉ BOTAR UM FONE E DAR O TEU ROLÊ, MAS SÓ VAI FICAR DIVERTIDO QUANDO TIVER TEUS BROTHERS, QUANDO TIVER A GALERA, OU A SESSÃO, NEM QUE FOR DEPOIS DA SESSÃO TOMAR UMA BREJA. SKATE É SOBRE ISSO. É UMA FAMÍLIA, É UMA COMUNIDADE.

E você sentia isso também na cena de skate da Califórnia?

Zero. Preconceito? Zero, zero. É porque é um lance cultural. Digamos que hoje o skate está começando a ser algo cultural porque ele é o 2º esporte mais praticado no Brasil. Então é um lance consideravelmente forte. Em primeiro lugar é o futebol e em segundo é o skate. E outra, a mídia não tá mais daquela competição de transição. Anos atrás falava assim “ah então você anda de skate, você anda no half”. Não, eu ando na rua, é isso que eu faço. E naquela época era estranho, como assim você anda na rua? Hoje você fala pra alguém isso, e a galera fala “cara que legal, eu conheço a Karen Jonz, Pamela Rosa, a Fadinha Rayssa“. A mídia querendo ou não também facilitou, favoreceu com que o leigo também conhecesse outras modalidades, outras figuras importantes nesse nosso meio. E agora com as Olimpíadas mais ainda. Porém, por mais que já tá mais culturalmente reconhecido, aqui em São Paulo por exemplo não tem bons lugares para andar de skate. A própria Roosevelt precisa de uma grande reforma para atender a demanda de skatistas.

O que vem de bom para o Go Channel esse ano?

Esse ano eu quero realmente filmar mais. Eu to filmando uma menina do Graffiti, que pra mim ela é um dos maiores nomes do graffiti do Brasil. Agora eu tô focada muito nas meninas da arte, porque através do rolê com a Vênus eu vi que as meninas dão a vida por isso, dão a vida mesmo. Eu conheci uma em um evento, que tinha acabado de cair de um prédio de 4 andares e ela se quebrou inteira. Ela tava firme e forte no evento, ela tinha acabado de sair do hospital e tava na cadeira de rodas e aquilo me deixou pensando “o que eu to reclamando tanto e esperando tanto, sendo que a mina não vê a hora de se recuperar pra fazer o que ela fazia?”. Aquilo me deixou muito mais motivada e eu falei pra ela “sara logo pra gente filmar”.

E eu tenho toda essa motivação para o skate também. São coisas muito parecidas, sabe, essa adrenalina. Então esse ano o meu objetivo é filmar mais, eu gosto de produzir conteúdo, de boas histórias, eu gosto de contar histórias que ninguém contou ainda de mulheres empoderadas. Hoje tem muita menina que não anda tanto mas faz um projeto foda que faz a diferença na cena. Então é isso que vale.

O NOME, O LOGO, A IDEOLOGIA TUDO FORMADO POR ESSA CÚPULA DE MENINAS. NÃO É UMA CREW, NÃO É UMA COMUNIDADE, NÃO É ALGO QUE A PUMA CRIOU, NÃO É NADA DISSO QUE A GENTE JÁ VÊ HOJE EM DIA, É UM MOVIMENTO.

Falando sobre o Una Skate, como surgiu esse movimento?

Quando apareceu essa oportunidade de reunir uma ideia com suporte de marca, eu falei “opa, vamos chamar meninas que andam de skate, mas que não necessariamente são skatistas cabulosas que andam pra caralho, mas as que amam skate também, que é o lifestyle delas. E aí a gente formou esse grupo que se chama Una Skate. O nome, o logo, a ideologia tudo formado por essa cúpula de meninas. Não é uma crew, não é uma comunidade, não é algo que a Puma criou, não é nada disso que a gente já vê hoje em dia, é um movimento. É um movimento criado por mulheres, mas que não tem só mulheres nesse núcleo – são mulheres que lideram, mas que incluem mulheres trans, e crianças.

Nossa primeira ação foi construir obstáculos para a gente aprender algumas manobras, para se divertir e ficar leve também o rolê, para ter esse acesso a outras pessoas que gostariam de andar. E teve a galera do patins também e foi muito legal, eles se matam tanto quanto a gente do skate. Eu vi que tinha outras crews, tipo a Supa Nova que é uma crew de patins, elas montam o patins no tênis! Então assim, é sobre isso. Se a gente puder ensinar outras pessoas a fazer, a gama vai crescer, a gente vai explorar mais os espaços, a gente vai dominar a porra toda, e vamos quebrar esse preconceito.

No Una, a gente quer fazer elas se sentirem bem-vindas, porque várias vezes quando você quer iniciar algo você não se sente pronta ou capaz. Você acha que as pessoas vão te olhar, você não se sente seguro. Então é mais esse sentido, uma dá a mão pra outra, tamo junta. Esse é o princípio da parada. Muita coisa tem por vir esse ano, nossos encontros nesse primeiro momento estão sendo na Roosevelt, mas através da conta do Instagram, a gente vai lançar tipo “hoje vamos estar não sei onde, hoje vamos levar pra outras cidades, pra outros estados” e também escutar a necessidade das pessoas. 

Quando a gente começou o Grupo Una, de pensar de o que a gente poderia dar no nosso seeding e presentear as meninas, que não trocam de tênis há dois anos, meninas que estão precisando de boot pra andar de skate, pra continuar manobrando. A gente pensou, além do tênis o quê a gente poderia dar? E uma coisa que rasga sempre no skate é o cadarço. Então depois que criamos as cores, o logo, a persona, fomos atrás do cadarço. E essa ideia tivemos com uma das skatistas da Puma, que é a Isadora Pacheco, que é uma menina lá de Floripa, ela recebeu o boot dela que era azul marinho, e colocou um cadarço roxo, se não me engano. E ficou tão foda, que mina criativa! Daí eu mostrei pras meninas do grupo e falei, “olha gente, que legal, a gente pode ao invés de pegar um cadarço preto e branco, vamos pegar colorido! E vamos botar nosso nome!”. Porque não é feio, qualquer pessoa usaria, tem a nossa marca, nossa chancela, e tem uma utilidade, além de ser esteticamente daora.

É muito legal ver o Una acontecendo, e tudo que vocês estão fazendo com ele.

É muito louco, né? Por isso que eu falo que tem que valorizar, tem que ter boas ideias, e sempre tem essa troca. Que uma hora gira. Imagina três anos atrás, quando eu fui na Puma pela primeira vez, e só agora aconteceu. Eu acredito também que isso desperte outras marcas a quererem fazer. A competição, a concorrência, ela é saudável, todo mundo acaba ganhando. Então tomara que outras marcas também olhem, valorizem e façam algo pelo skate feminino, porque se você for olhar nas próprias Olimpíadas a chance de ter caneco de ouro, é muito mais feminina do que masculina no Street, por exemplo. No Street a gente quase tem garantido um pódio. Só pra ver que tá na hora de realmente incentivar. E muitas delas estão indo às vezes com grana do bolso pros eventos e competições. Mas elas ainda são favorecidas nesse meio olímpico. E o resto? E as outras? Precisamos mudar isso.

Agora falando sobre tênis, por que de todos os seus, você escolheu o Puma Suede para contar sua história?

Olha que louco, quando eu trabalhava para a Converse, óbvio que eu ganhava e tal, mas eu gostava de usar Puma pra andar de skate. Porque a Puma, por mais que não seja uma marca de skate, ela sempre foi adotada pela cultura. Então por exemplo, o graffiti, não é que ela fez um tênis pra grafiteiro, mas os grafiteiros usavam o tênis em Nova Iorque. No skate a mesma coisa. E aí eu trabalhava na Converse e comprava Puma. Trezentão pagava pra botar na lixa. Mas ao mesmo tempo eu pensava: se eles me dão o tênis, eu tenho que valorizar. Não posso ser ingrata se eu tou ganhando. Eu fazia seeding de cinquenta meninas dentro da Converse. Ajudava muita menina no Brasil inteiro. Eu usava, andava de skate também, só que daí eu comecei a usar o Puma e eu amei por que é confortável. Então pros meus rolezinhos eu usava Puma. 

Além disso, eu acho o Puma Suede bonito, justamente por essa história de ser um tênis que a cultura abraça, não ele que abraça algo, e isso pra mim é legítimo. Acho que quando o skatista não quer se associar a algo muito tipo “não sou Vans”, “não sou Nike” – tipo, a Nike tem um perfil mais “atleta número 1”, de ser sempre o primeiro. A Vans de repente é uma coisa mais “junkie”, saca? E o Puma não, ele é um pouco mais neutro. É uma coisa que você se apropriar dele. Você curte a arte, você é uma pessoa urbana, então é um tênis que eu me identifico muito, o Suede. 

E agora que eu tenho mais oportunidade pra pegar outros tênis eu vivo testando outros produtos pra ver que que dura mais, ou o que a gente pode usar mais. Dentro do patins por exemplo a gente tá vendo algum tênis que a gente consiga cano médio ou alto pra não sair do pé, porque tem que ser botinha. Então é um laboratório.


E você curte mais o preto, em específico?

Eu comprava o que tinha na loja, o que era mais barato na verdade. Porque por mais que eu trabalhasse pra uma marca de tênis, eu tirava do meu bolso pra usar outra marca. E tênis de skate você gasta muito, né? Esse aqui eu acho que andei de skate umas quatro vezes. Então assim, você põe na lixa e acaba com o tênis rapidinho. E agora eu vou trocar de shape, botar lixa nova, então vai mais rápido ainda.

ALÉM DISSO, EU ACHO O PUMA SUEDE BONITO, JUSTAMENTE POR ESSA HISTÓRIA DE SER UM TÊNIS QUE A CULTURA ABRAÇA, NÃO ELE QUE ABRAÇA ALGO, E ISSO PRA MIM É LEGÍTIMO.

Puma Suede
Dono: Grazi Oliveira
Fotos: Pérola Dutra