FOTOS POR VITOR MANDUCHI

“Haile Pimenta, 29 anos e de Moçambique. Sneakerhead desde sempre, mas particularmente skatista.” 

Que lugar é esse e porque você escolheu aqui para as fotos?

Estamos no MACBA, um lugar importantíssimo para o skate, aqui é essencialmente o Meca da cultura desde 1992. Meu sonho é estar aqui, é fazer sneakers que as pessoas usam aqui – skatear aqui é como se eu já tivesse chegado ao topo do Everest (risos). Não existe lugar melhor no mundo pra tirar foto do meu sneaker a não ser no MACBA. 

Andar de skate é para muita gente mais que uma atividade, é um modo de vida. O que o skate representa para você?

Eu quis ser pro, mas como pra muita gente o meu sonho também foi por água abaixo, hoje em dia o nível está muito alto. Para mim o skate é tudo, é a minha meditação, minha medicina, é tudo que eu sempre quis fazer, eu comecei a fazer sneakers porque consigo juntar duas paixões, e eu ainda estou tentando transformar isso em realidade.

Comecei a andar de skate no dia 1 de Junho de 1997, foi um dia das crianças e a minha mãe me presenteou com um skate, me apaixonei imediatamente. Na época não tinha Youtube, não existia essas coisas todas e eu ainda morava em Moçambique, onde não existia skateparks ou lojas, aquele skate era tudo que eu tinha. Depois eu me mudei para Zimbábue, onde também não havia skatepark, também não havia lojas. Isso em 1997, nós fomos os primeiros skaters de lá. Eu e os meus amigos puxavam para a galera de lá andar de skate, só que não era fácil divulgar comparado com hoje. 

Como que era ser o único grupo de skatistas de um país inteiro? Da onde vinha as referências de vocês? Como vocês aprendiam a fazer manobras?

A gente aprendia improvisando, não existia Youtube de referência, então a gente inventava as coisas e depois descobria que isso já existia, que tinha um nome, que já existia uma indústria toda. Olhando para trás, o percurso foi uma coisa linda, cresci com o skate, pensando que eu tinha inventado muita coisa, mas que na verdade já estava inventada a muitos anos antes (risos). Com a tecnologia e a internet a gente foi descobrindo muitas coisas, líamos blogs sobre isso porque ainda não tinha vídeos na internet. 

É muito interessante que vocês ficaram vários anos andando de skate, sem nenhuma referência de nada, só porque vocês gostavam e ponto.

Obrigado, mesmo! As minhas primeiras memórias do skate na verdade foram vendo Tartarugas Ninjas, essa era a minha referência “Se ele consegue fazer isso no Tartaruga Ninja então eu consigo fazer isso na vida real” (risos). 

Qual sua relação com tênis em geral?

A minha relação na verdade é uma muito íntima, lembro que tinha 4 anos quando realmente gostei de um tênis pela primeira vez. Era um All Star roxo que não tinha do meu tamanho, então eu tive que forçar o meu pé para entrar, mesmo que doesse, foda-se (risos). Eu usei esse tênis durante um ano com o meu pé todo amassado lá dentro, desde essa altura eu soube que era isso que eu curtia, que eu queria. Meu próximo tênis foi um All Star vermelho.

Mas assim que eu comecei a andar de skate eu não sabia que tinha tênis específico para isso, então eu andava com o sapato normal da escola, o todo preto mesmo. Depois a gente começou a andar só com o All Star. 

Você faz os seus próprios tênis, por que e como você aprendeu?

Isso começou por uma cena muito nata em todos os skatista, porque nós gastamos o tênis muito mais rápido por causa da lixa. Então todos os skatista já improvisaram com um pouco de cola, um pouco de borracha e faz essa coisa caseira para o tênis durar um pouco mais, só mais uma semana (risos). Um dia eu pensei “Porque eu não faço tudo desde o início?” tem certas solas, perfis, alturas que são ideais para mim, usei isso como referência e disse “Vou começar a fazer do zero, vou comprar couro, comprar a sola, a palmilha e vou fazer um tênis, não só remendar um buraquinho”. 

E como você aprendeu a fazer isso?

Improvisando em casa, sozinho, que nem o skate. Quero um dia evoluir e ter uma grande produção, mas foi assim mesmo. 

Qual o seu processo para fazer um tênis do zero?

Primeiro eu olho a minha volta pra ver quais são os materiais disponíveis, depois eu vou na base da necessidade – O que eu preciso? Mais borracha aqui, mais couro aqui, um perfil mais baixo, ou mais alto, eu considero todos os parâmetros. Depois levo para o papel para ver se é uma coisa concebível e após disso coloco no molde 3D que tenho do meu pé – O primeiro eu tinha feito em casa mas aí depois eu mandei fazer um, é super exclusivo (risos). Depois do molde eu faço o corte, vou ajustando até ficar como eu quero e só depois que começo a fazer com o couro em cima do molde, e para acabar a costura. 

Você se considera um sneakerhead?

Acho que eu sou a essência daquilo que é um sneakerhead. Hoje existe muito a coisa do Hypebeast, que segue muito as tendências e quando eu comecei a colecionar, com vários Jordans, Converse, Nike SB antes de ser SB, no sentido que eu tinha já vários Dunks antes de todo mundo ter essa obsessão por tênis reto, eu já fazia isso. E agora que está tudo na moda, você só precisa entrar na internet, escolher o tamanho e em 5 dias está na sua casa, eu fazia isso mas parei porque isso pra mim não ajuda na evolução do tênis… mas não posso falar mal porque eu já fui uma dessas pessoas.

Naquilo que é o tênis, o processo criativo, de criar o tênis, tem que ter as referências mas não se pode tentar seguir uma certa época ou algo que já aconteceu, a evolução tem que ser linear. O que está acontecendo hoje eu não diria que é um passo para trás, mas é viver parado no tempo, ficar preso em uma certa nostalgia. As pessoas querem reformular a roda, mas a roda já foi feita, tem que evoluir para frente. 

E porque de todos que você fez, o escolhido foi esse Lodis Footwear Moyo?

Todos os modelos que já fiz até agora tem alguma referência da África, que é de onde eu sou. “Moyo” nas línguas africanas do centro da África, significa “coração, centro, meio, núcleo”. E Moyo para mim representa muito mais do que aquilo que é, muito mais que um tênis de skate, representa a essência toda acomulada em uma só coisa.

Eu fui operado do ligamento dos joelhos, e tentei fazer um tênis que me estabilizasse mas que também me desse vontade de andar de skate e que fosse algo ultra resistente, como um tênis de skate mesmo é. O Moyo é tudo sintetizado para a estabilidade e o skate, essa é a essência dele. 

Lodis Footwear Moyo
Dono: @lodisfootwear
Feito: 2018
📸 @vmanduchi