“Meu nome é Leandro Maia, tenho 27 anos, trabalho como coordenador de merchandising da Fila na divisão Casual. Sou sneakerhead, gosto de tênis e de produtos em si. Sou daltônico, não sou gótico mas só uso roupa preta (risos), às vezes uso cinza, marinho e raramente vermelho, por serem as cores da Fila, mas de resto é bem raro.”

Leandro, qual a sua relação com tênis no geral?

Pra mim, é o início de tudo. A primeira coisa que faço quando levanto da cama é colocar algo no pé. Quando eu vou tomar banho, já saio dele pensando em qual tênis usar – eu começo do tênis, depois pra meia, depois pra cueca, depois pra calça e depois pro resto. O tênis que vai definir o resto do meu look. Até na hora da compra, já penso como as peças de roupa vão combinar com os tênis que tenho.

O tênis diz muito sobre uma pessoa. Trabalho com varejo a mais de 10 anos e na minha lista de clientes sempre marcava o primeiro calçado que eu via a pessoa usando. Normalmente eu não lembrava o nome da pessoa mas falava “pô, você é o cara que tem o Y-3 todo preto né?”. Pra mim é muito marcante, tênis é a primeira coisa que olho na pessoa, é automático.

Diz pra gente como você começou a gostar de tênis.

Em 2002 para 2003 eu comprei o meu primeiro Nike para skate, foi quando eles lançaram a divisão de skateboarding e em 2004 começaram a fazer a produção local. Na época eu estudava em uma escola particular: tinha uma bolsa de 100% aqui na região do Jardim Europa e todos tinham poder aquisitivo AAA. Na época eu jogava basquete pelo time da escola, meu irmão andava de skate e eu gostava de acompanhá-lo, comecei a fazer umas graças e aí fiquei na vontade de comprar um tênis. Na época via uns vídeos de basquete e de skate e tinha uns tênis na cabeça – queria um específico, na época eu não sabia que era o Jordan 1 – mas fiquei com o Dunk na cabeça.

Foi aí que eu conheci o Marcelo, foi o meu primeiro gerente, ele trabalhava em uma loja na Haddock Lobo que vendia Nike SB e era super escondido, porque tinha a Maze do lado e ninguém ia lá, todo mundo ia na Maze. Encontrei uns Dunks nacionais por R$199 e na época tinha a Doc Dog que vendia uns importados por R$599. Então eu comprava por R$199 pra passar para os caras por R$399; falava que era 200 reais mais baratos que a Doc Dog e eles não achavam esse produto pra vender – porque eles não procuravam. Comecei a usar o Dunk pra jogar basquete, o povo curtiu e ainda eu fazia umas graças no skate com ele. Me questionavam de porque eu usava esse tênis pra fazer as duas coisas e falava: “A gente não precisa ter um tênis pra cada uma das coisas”, a galera achou legal e eu comecei a vender esses Dunks.

Qual foi a sua primeira coleção?

A minha primeira foi de Vans, antes das idas e vindas da marca no Brasil, então quando o importado custava R$80 eu consumia muito, cheguei a ter todas as cores do Vans do Geoff Rowley, tinha uma fixação por esse modelo. Depois mudei pro Old Skool, especificamente para o  royal, marinho e amarelo, tênis que o Pharrell usou no video clipe de sua banda N.E.R.D., fiquei maluco nesse tênis. Até o ano passado eu tinha um par desses fodido, mas a minha mãe jogou fora.

E qual é o seu papel na Fila?

Trabalho com a divisão de lifestyle, casual. Hoje em dia ela trabalha com mais de 3 mil pontos de venda – desde sapatarias, lojas de departamento até lojas menores de calçado – então faço essa ponte entre os PDVs e os designers. Fico uma semana no Sul e outra em São Paulo, trazendo esses inputs do que é tendência tanto de produto, como de cor. Brinco que fui do básico ao luxo porque mexo com a sapataria, mas em troca vendi um projeto do Fila Heritage, que é a nossa linha retrô. A importação pro Brasil é complicada, os preços são abusivos, então alguns produtos eu resolvi que não deveríamos trazer pra cá, até pelo timing, porque os produtos estavam chegando depois da data de lançamento. Então sugeri da gente começar a reproduzir eles por aqui.

Escolhi alguns pilares da marca – tennis, running, basquete, training – pegamos a silhueta de cada um que exista globalmente e vamos reproduzir fielmente tudo por aqui. A idéia é quebrar esse paradigma que no Brasil não é possível produzir um tênis bom. Eu brinco que a Osklen se transformou no que é porque o tênis é bom – por mais que não agrade a todos, ele fez jus e conseguiu entregar números surpreendentes, tanto quanto marcas internacionais esportivas. Vejo esse movimento que acontece lá fora de DiadoraCommon ProjectsKappa, todas essas marcas pequenas fazendo coisas boas e locais, então porque a gente não pode fazer isso aqui?

Globalmente falando, todas essas grandes marcas como Adidas e Nike, estavam em queda na divisão casual ou perdidos dentro dessas lojas legais de departamento. Você pega a Sneakerboy por exemplo, que é uma das lojas de sneaker mais conceituais do mundo, ele tem Nike, Reebok, Adidas e Puma, mas o maior investimento é Gucci, Common Projects, Balenciaga, que são marcas grandes que não faziam parte do mercado de tênis e estão fazendo super bem. A história que estou criando essa coleção é que, o Sul é um dos maiores polos calçadistas do mundo, nós somos um dos maiores produtores de couro do mundo, a gente pode muito bem elevar essa história e vender para o mundo que o Brasil faz tênis muito bem; que é um lugar legal para fazer tênis.

O mais legal é que estamos fazendo tudo isso, com a autorização deles lá fora. O mais legal é que já conseguimos vender essa idéia para toda a América Latina. Todos os calçados serão nas cores preto, branco e tan: o preto é para simbolizar o luxo, o branco para a seriedade e o tan que remete ao couro natural.

O projeto Famiglia terá uma história de 360º: vamos produzir as roupas, bonés e meias em parceria com a Starter, camisetas com uma modelagem bem escalonadas do feminino ao masculino e moletons. A Fila completa esse ano 106 anos, então a idéia é de produzir 106 pares de tênis. Outra parte do projeto chama OG, que são 4 modelos de tênis todos brancos com detalhes em vermelho e azul, nenhum acabamento terá costura, vai ser tudo carimbado e com baixo relevo. São produtos de luxo mesmo.

Falando agora sobre o seu Fila Disruptor, porque você escolheu ele?

Era um tênis que antes de eu trabalhar na marca, eu já admirava muito. Como falei, a Fila fez eu mudar pensar e mudar em relação a estilo. Eu sempre usei calça skinny, mas quando comecei a trabalhar na Fila, descobri que um tênis super bold não combinava com uma calça dessas. Uma coisa que eu sempre gostei muito dele, é essa sola shark, queremos fazer uma versão brasileira desse produto – não que a gente vá mexer nesse produto – mas sim que tenha uma cara mais brasileira, menos bold, mais comercial.

Essa versão dele toda branca é a que eu mais gosto, porque por mais que ele seja grosseiro, pesado, ele é minimalista e limpo de visual. É um tênis que eu já queria e admirava antes mesmo de trabalhar na Fila. Sem contar que, esse é o produto da marca mais pesquisado no Pinterest e é uma febre entre as mulheres, as primeiras edições especiais dele foram para tamanhos menores. Vai chegar esse modelo em suede para o Brasil e será somente em numeração feminina.

Qual foi o corre para conseguir esse tênis?

Esse eu consegui através de um amigo meu, ele tem uma loja online, a Alfa Sneakers, onde ele só re-vende tênis e roupas da Supreme, Palace e etc. Eu fiz uma compra no site dele e fui pegar na sua casa, comentei que queria esse tênis. Logo quando cheguei em casa ele tinha me enviado um print desse tênis pra venda no Ebay, em questões de 15 dias eu já tava com ele em casa! E fiquei chocado, porque um povo que trabalha comigo foi pra Nova Iorque e não acharam o tênis, eles procuraram nas principais lojas, foram no escritório da Fila e os caras de lá não sabiam onde poderia ter porque ele tava vendendo muito.

Fila Disruptor II
Dono:@_lemaia_
Comprado: 2017