FOTOS POR DANIEL SIGAKI
busenitz-01

“Eu sou um cara bem tranquilo, gosto muito de cultura, tudo que for cultural e me agregar conhecimento, conteúdo, é super válido. Gosto muito de ajudar e da coletividade – absorvendo conhecimento através de pessoas que conheci, porque sem isso a gente não chega a lugar nenhum. Aprendi a ouvir muito e executar também. Eu gosto muito de música, faço isso com muito amor. Skate e tênis também, são grandes paixões.” 

De onde veio o seu interesse pela música?

Meu avô tinha uma banda de Samba Bossa, que chamava Newton Samba Bossa – eles faziam shows, até tocaram no começo de Brasília. E desde pequeno eu tive essa relação muito forte com samba, que veio da minha família, além do meu avô os meus primos tocavam samba também. Desde os meus 5 anos de idade, o meu pai sempre colocava discos e discos para eu ouvir, aí eu fui aprendendo e pegando o gosto…aos 8 anos eu já tocava pandeiro. Nas festas de família eu ouvia os meus primos fazendo samba e eu queria saber também, mas eu não aguentava o pandeiro, era muito pesado pra mim. Mas eles me ensinaram e aí comecei a tocar.

Você vai escutando muito as coisas que gosta, não só da raiz da sua família, e aí você vai fazendo as suas coisas – então eu fazia muito Hip-hop com Samba, eu pegava meu cavaco, fazia umas batidas e rimava por cima do som dele, fazia versado igual aos sambistas fazem. Assim que eu comecei o meu amor por freestyle e Hip-hop. 

Você faz parte do coletivo Rap Salva Vidas. Fale mais sobre ele pra gente.

O Rap Salva Vidas foi um convite que a gente recebeu do Two Freaks – o RSV são 6 grupos de Rap envolvidos – e a gente busca muito essa parte social, a gente quer usar a música como válvula de escape. Temos a nossa missão que é um QG para termos oficinas ensinando os quatro elementos do Hip-hop, dar uma profissão para essas crianças, e quem sabe futuramente a gente faz também um QG com mais aulas de música, de violão, música popular, clássica, qualquer coisa que a gente consiga dar alguma profissão para essas crianças. O Rap Salva Vidas é isso, é uma luta diária para salvar vidas através da música. 

Fale mais também sobre o single Novos Planos que vocês acabaram de lançar.

Isso! Ele saiu dia 31 de Agosto. Mais pro final do ano vamos lançar o nosso EP com o conceito “fábrica do som”, porque nós somos filhos de operários, chão de loja, chão de fábrica do ABC – lá é muito conhecido pelas fábricas de carros – então a gente pensou “somos a fábrica de som, temos que ser reconhecidos pela arte também”. Então temos objetivo de tirar o foco do consumismo, das fábricas e vendas para o lado musical e artístico que realmente está em falta no ABC. Não pelas pessoas, mas sim pelo apoio do governo. Ultimamente o governo de São Bernardo gasta R$1 milhão com sertanejo mas não da R$500 para o Hip-hop, só porque é marginalizado. A cultura existe, mas pra quem? O que é cultura pra você? Só festa italiana e sertanejo? Isso é cultura, mas e a nossa? Mas no final a gente faz o nosso de coração, ajudando muito mais que a prefeitura. 

A música tem um papel social muito importante e a gente deve utilizar isso, o RSV vem com essa aposta disso, que a música realmente salva vidas, que tem a sua válvula de escape, não é só uma porta de saída, é também uma porta de entrada para tantas outras coisas boas. A gente vê isso no dia a dia, quantas vezes já não chegaram pessoas em mim e falaram “pô, meu filho melhorou na escola por causa da idéia que vocês trocaram com ele”, ou “o meu filho me respeita muito mais em casa”, “o meu filho é fã de vocês, ele me falou que quer fazer uma faculdade”. A gente ouve muito isso! A gente não quer entretenimento, a gente quer movimento, isso que vale.

Com o Rap Salva Vidas a gente quer transformar as crianças em pessoas com instrução, que quer frequentar o local, quer fazer a diferença onde ela pisar, e também é algo para ocupá-las. Fome é um problema no Brasil muito intenso, devo morrer em média 123 crianças por dia por falta de hidratação. Então você ter um espaço que fornece alimentação, cultura, você ocupa a criança e assim deixa que ela vá para outros caminhos para conseguir dinheiro. 

Como começou o seu interesse por skate?

Eu nasci no Rudge Ramos em São Bernardo do Campo, e desde pequenos eu e meu amigo Vinel jogávamos muito Tony Hawk, a gente curtia muito! A mãe do Vinel sempre andou com a galera do skate do Rudge, ela levava o Beto, que é um dos skatistas pioneiros do Brasil, super old school, e eu tinha muito esse contato com ele. Eu achava muito louco, ele andava de skate e motorboard. 

Eu peguei referências na rua também, você vai andando, ouvindo músicas, vendo muito o skate… foi assim que despertou essa admiração em mim, isso quando eu tinha 7 ou 8 anos de idade, quando comecei a subir em cima de um skate. O skate te deixa muito concentrado, dá muita adrenalina – não precisa saber andar, é só você estar em cima e se jogar – era muito isso. Você tem que se jogar na rua com ele, do jeito que você quiser fazer, é o jeito de você se expressar, skate é uma arte, é um esporte mas é uma arte também.

O skate é muito vivo no ABC, por mais que você não seja tão interessado você já andou pelo menos uma vez, você conhece as pessoas que andam lá, é o berço do skate nacional. São Bernardo tem a maior pista de skate da América Latina né, então lá você já nasce com um skate (risos). 

Qual a sua relação com tênis no geral?

Tênis mostra muito a personalidade da pessoa, por exemplo, eu gostava muito de Nike SB quando eu comecei a entender o que é o tênis, quando eu comecei a ganhar meu dinheiro né porque meus pais não ficavam dando essas paradas pra mim, tá ligado? Aí um dia eu comprei um Adidas Bounce e coloquei no pé, meu brother olhou pra mim e falou “caramba, você mudou mano” e eu “mudei?” e ele “velho, você fica muito estranho com esse tênis”. Então ele transmite muito a originalidade e a atitude da pessoa. Quando você está com um tênis que não condiz com o que você representa, fica estranho, então pra mim, tênis representa muito a originalidade da pessoa que está usando. 

Qual sua relação específica com esse Adidas Busenitz Samba Vulc?

O modelo Busenitz é o meu tênis favorito, desde os meus 17 ou 18 anos, porque ele é inspirado em uma chuteira da Copa do Mundo, eu nasci em ano de Copa do Mundo, eu gosto muito de futebol e ele fica muito bem no meu pé. E é muito bom pra andar, e todo o conforto que dá; é um tênis que eu me identifiquei muito. 

Eu escolhi esse Busenitz Vulc Samba, pela história que tenho com ele. Esse é todo preto, com couro, bem resistente. Na época que comprei eu tinha perdido a minha mãe e eu estava na fase de usar muito preto, eu queria ficar discreto, na minha. Foi um tempo que eu fiquei muito em casa, que eu não saia, foi bem difícil. Mas foi também a época que eu andei e foquei muito mais no skate, eu andava todos os dias e ficava vidrado nisso. E o skate me fez esquecer muito dos meus problemas e me fez reinventar para seguir a minha vida, então pra mim, esse Busenitz me ajudou muito nessa fase de me reinventar e reerguer…resiliência, sabe?

Pelo fato dele ser todo preto, de me ajudar no crescimento, ver o meu lado mais escuro e sombrio, para depois eu chegar em uma luz e direcionamento, e poder depois crescer pessoalmente, profissionalmente e socialmente. Eu escolhi ele por isso. Ele estava comigo na minha época mais difícil, ele estava ali mesmo sem querer estar porque eu que escolhi ele (risos), mas foi na hora certa. Acredito que as coisas acontecem na hora certa então toda vez que eu olho pra ele eu lembro disso, de luta e de força. Esse é o meu segundo aliás, o primeiro que eu tive ta inteiro destruído. 

Adidas Busenitz Samba Vulc
Dono: @rl_reallion
Comprado: 2017
📸 @danielsigaki