Chegando na terceira entrevista em Parceria com a Puma, falamos com o Lucas, sneakerhead e fotógrafo. Lucas fala como foi do skate que surgiu o seu primeiro interesse por tênis e também sua paixão pela fotografia. Além disso, Lucas nos contou em como ele mostra sua individualidade – que é usando sua linguagem bem característica para cada imagem que produz. 

Essa entrevista é parte da campanha #NoFilter, onde o novo PUMA Rider mostra a vida como ela é e as cores como elas são.
FOTOS POR VITÓRIA LEONA

“Eu sou o Lucas Marco, tenho 28 anos, sou do interior de São Paulo, São José dos Campos, e trabalho com fotografia e filmagem.”


Você lembra quando começou seu interesse pela fotografia? 

Eu ando de skate desde os meus 12 anos e quando eu era mais novo, tinha aquela coisa de tênis de skate é tênis de skate, e tênis de sair é tênis de sair, porque tênis de skate obviamente arregaçava por inteiro. Nos anos 2000, na minha cidade não chegava muito tênis de marca gringa, até que um dia chegou o Puma Suede. E aí os B-Boys que andava com a gente, que também andavam de skate, faziam uma troca com a gente: os B-Boys arregaçavam o tênis embaixo e o skatista arregaçava o tênis do lado. E aí a gente trocava. Eu pegava o tênis dele que tava arregaçada a parte de baixo, e a parte do lado não tava arregaçada e eu andava de skate. E vice-versa. E essa troca gerava uma puta comunidade.

E aí eu comecei a me envolver muito com esse negócio de break, rap, fotografia MC, fotografei show, e baladas por muito tempo. Então meio que “linkava” tudo isso. E o interesse da fotografia começou quando eu ia fazer os rolês de skate e não tinha ninguém pra fotografar. Eu adorava ver revista, ver vídeo e não tinha ninguém fazendo onde eu andava. E aí uma época eu peguei uma camerazinha de um primo emprestada, uma Sony Cybershot bem velha, e comecei a fazer uns cliques. Eu adorava aquele efeito de fish eye, só que eu sabia que para isso precisava de uma lente, que na época era muito cara. Aí o que eu fiz – peguei o olho mágico de porta, de porta mesmo, cortei, serrilhei e encaixou certinho na Sony. E aí dava um puta efeito de fish eye, era tosco, bizarro, mas era o que a gente tinha. Isso em 2004, 2003. Isso foi um bagulho que pra mim mudou minha vida. Eu fazia muita foto dos meninos andando de skate com isso, foi ficando, fui levando, e hoje em dia é a minha profissão. Todas as pessoas que eu conheço basicamente são fotógrafos ou vivem de fotografia.

Outra coisa que amo fotografar é arquitetura. Eu gosto muito de linha, eu sempre fui fissurado simetrias e coisas alinhadas, muito retas, padrões, coisas muito certinhas. Uma das primeiras coisas que eu aprendi na fotografia é a questão de linha de horizonte. Então eu sempre mantinha tudo muito reto, e isso me levou a fotografar arquitetura e coisas similares a isso. E aí eu fui nesse ramo e lá na minha cidade eu me dou super bem, conheço bastante arquiteto e projetos.

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Para esse projeto com a PUMA, selecionamos quatro pessoas que são muito autênticas no que fazem e em seus trabalhos. Como você mostra a sua individualidade através do seu trabalho com a fotografia? 

Primeiro ponto é o que eu falei na parte de arquitetura, eu gosto muito de coisas retas e de linhas. Então eu trago muito isso pra mim – se você vê uma foto torta, não é minha, eu não gosto de nada torto. Eu sou muito simétrico, alinhado, eu gosto de tudo retinho, eu vou no Lightroom e ajeito tudo. Até quando eu com fotografo com a fish eye eu gosto das coisas retinhas. É isso que eu trago pra mim e é a minha cara na parte da fotografia.

MINHA ÚNICA INTENÇÃO COM A FOTOGRAFIA É COM QUE OUTRAS PESSOAS MAIS CARENTES FOTOGRAFASSEM. PRINCIPALMENTE LÁ ONDE EU MORO, TEM UM OU DOIS QUE FAZ, MAS TIPO A MOLECADA MAIS NOVA NÃO TEM DINHEIRO PRA COMPRAR UMA CÂMERA, NÃO TEM REFERÊNCIA, NÃO TEM EM QUEM CHEGAR E PERGUNTAR E MEXER. E, QUANDO EU COMECEI, EU NÃO TINHA NADA. E EU SEMPRE QUIS SER ESSA REFERÊNCIA LÁ ONDE EU MORO PRA ESSES MOLEQUE. OS CARAS CHEGAM “LUCAS, EU QUERO TAL LENTE, VOCÊ TEM?”. “TENHO, VEM AQUI TESTAR, VEM NO MEU ESTÚDIO”.

Onde você gostaria de chegar ou que lugar você quer estar com a fotografia?

Minha única intenção com a fotografia é com que outras pessoas mais carentes fotografassem. Principalmente lá onde eu moro, tem um ou dois que faz, mas tipo a molecada mais nova não tem dinheiro pra comprar uma câmera, não tem referência, não tem em quem chegar e perguntar e mexer. E, quando eu comecei, eu não tinha nada. E eu sempre quis ser essa referência lá onde eu moro pra esses moleque. Os caras chegam “Lucas, eu quero tal lente, você tem?”. “Tenho, vem aqui testar, vem no meu estúdio”.

Eu já fiz exposição, livro eu já tenho, essa caralhada tudo eu já fiz e pra mim não mudou nada na vida. Mas o dia que chegou um maninho, isso aí eu até choro pra falar. Tem um mano que trabalhou comigo, que chegou um dia lá no estúdio e falou “tá ligado que você me contratando, você vai perder vários trampos, né?”. Falei “mano, por que?”. E ele “porque eu sou negro, lugar que você vai, eu não posso ir”. Eu falei que porra é essa que você tá falando, isso não vai acontecer. E o mano trabalha comigo até hoje. E todos os lugares que eu vou, que eu posso, levo uns 2 ou 3 caras.

Às vezes eles chegam tipo “eu quero aprender a fazer tal coisa”. Vamo aí, vamo junto, eu ensino. Então assim, meio que minha vibe foi sempre trazer alguém comigo, eu nunca gostei de ser sozinho. Se for para fotografar em Nova Iorque, eu quero ir, mas eu não quero ir sozinho. Se for pra fotografar tipo um casamento na minha cidade, eu quero ir também, mas eu não vou sozinho. O meu rolê sempre foi de estar com alguém comigo que eu possa ajudar e que possa me ajudar também. Tem uns moleques muito carentes que as referências é tipo o irmão que vende droga e tá preso, ou o pai que nunca conheceu, ou não sei quem que também tá preso, ou o carinha da viela que morreu. Essa é a referência dos caras. Não tem muita perspectiva. Aí quando os moleques vê que dá pra ganhar dinheiro e viver fazendo foto, que dá pra você ir para outros lugares e conhecer uma galera da foto, os caras gostam. Eu quero chegar nesse amigo meu e falar “você pode em qualquer lugar, você pode fotografar em qualquer lugar, é só você querer ter disposição”.

Qual a sua relação com tênis num geral? 

Eu sempre gostei de tênis de skate minha vida toda, aqueles mais gordão e cheião. Aí fui ficando mais velho e vi que andar só com tênis assim ia acabar dando problema na coluna, no joelho, e eu comecei a buscar umas coisas mais confortáveis. Hoje em dia eu prezo muito pelo conforto e pelo fato de eu poder usar o tênis em qualquer ambiente, eu uso meus tênis pra tudo, eu não gosto de ter tênis na caixa. Eu não tenho tênis DS, porque eu fico com dó de usar e acabo vendendo.

Gosto muito de tênis de pessoas que eu admiro, como por exemplo o do Flavio Samelo, que é uma puta referência fotográfica pra mim – eu tenho o Dunk eu consegui o autógrafo do cara, isso pra mim não tem preço. Eu chorei quando eu fui levar o tênis pra ele. Não chegava os tênis foda lá na cidade. Aí quando chegou esse, eu fiquei “mano, que isso, é um tênis de um cara que faz foto”. Tudo que eu quero é fazer foto e ter tênis. Mas enfim, o tempo foi passando, fui comprando tênis, e você vê que tipo “meu, eu to com 12 pares”. Aí eu “putz to com 20 pares”. “Caralho, eu tô com 30 pares”. E assim foi indo. Eu to com muito par de tênis e eu uso todos.

Então meio que minha relação é isso. Eu tenho tênis pra usar e pra viver umas experiências, então eu sempre lembro de cada tênis quando eu olho na caixa, de quem eu comprei, com quem eu troquei, onde eu usei, que foi um rolê foda. Eu não lembro quanto eu paguei. Eu só lembro de quem, onde e quando eu usei. 

ENTÃO MEIO QUE MINHA RELAÇÃO É ISSO. EU TENHO TÊNIS PRA USAR E PRA VIVER UMAS EXPERIÊNCIAS, ENTÃO EU SEMPRE LEMBRO DE CADA TÊNIS QUANDO EU OLHO NA CAIXA, DE QUEM EU COMPREI, COM QUEM EU TROQUEI, ONDE EU USEI, QUE FOI UM ROLÊ FODA. EU NÃO LEMBRO QUANTO EU PAGUEI. EU SÓ LEMBRO DE QUEM, ONDE E QUANDO EU USEI.

Você fez customização de tênis por bastante tempo. Como isso começou? 

Aí já é outra coisa bizarra que volta novamente ao lance do skate e da parte mais certinha das coisas. Eu andava de skate e os tênis arregaçavam. E aí eu pegava o tênis destruído e arrumava ele. Colocava silvertape, ou borracha na lateral dele e aí eu pintava ela da cor do tênis pra ficar certinho. E assim comecei a restaurar as coisas. Um dia, um amigo falou “eu tenho um Yeezy Solar Red, que a minha empregada doméstica colocou na máquina e o tênis desbotou inteiro. Você não quer arrumar?”. Eu falei “puta mano, nunca mexi com o tênis dos outros, mas dá aí”. Aí peguei e o bagulho ficou perfeito. Ele vendeu depois por R$9.000, mas beleza (risos).

Depois começou a surgir amigo “eu tenho um Jordan IV aqui que a mid sole tá descascando, você consegue dar um jeito?”. Aí eu falei “consigo, manda pra casa”, e restaurava o tênis por inteiro. Aí vinha outro “Lucas, meu tênis de camurça sujou e eu não consigo limpar”. Aí eu já sabia que camurça limpa na borracha, depois você passa uma buchinha mais dura, sai os pelinhos e aí você consegue lavar. “Lucas, o meu Air Max craquelou a sola”. Aí eu tirava toda a tinta e passava uma nova. Eu tinha um arsenal de tinta enorme, me sentia um puta artista com os bagulhos.

Depois veio a ideia de pegar uns tênis brancos e customizar de acordo com o que eu achava dahora. Exemplo, eu pegava um Ultraboost branco e pintava com a cor do Asics Koi. Pegava um Yeezy e pintava na cor do Tiffany. E assim eu comecei a customizar. Só que é um trabalho muito difícil, com pouco retorno e com um puta gasto tempo. Eu trabalhava com fotografia durante o dia no estúdio, voltava pra casa e tinha tênis pra arrumar a noite inteira – essa foi uma época que fiquei sem dormir. Aí eu falei não, tem que botar as prioridades, o que tá me dando mais retorno agora? É a fotografia? Então deixa esses bagulhos de tênis pro lado. Mas eu gostava pra caralho de fazer isso.

O que você acha da cultura sneakerhead de hoje em dia? 

Eu acho que é muito um grupinho, sabe? Para mim, o cara que gosta de tênis é diferente do cara que consome tênis. O cara que consome tênis quer participar do grupinho. Ele pensa “ah, eu gosto de tênis, vou começar a comprar e eu vou andar com uns amigos que gostam, vou fazer parte”. O cara chega com um tênis exclusivão numa festinha onde só tá a galera de sapatênis e ele se sente o rei, ele acha que ele é o ídolo da galera. Mas o cara que realmente gosta de tênis, ele não tá nem aí. Depois de um tempo que você começa a realmente a gostar, gostar na verdade, você olha pro pé do seu amiguinho e fala “seu tênis é muito foda”. Ou então se o cara tá com um tênis merda, você fala “caralho, esse tênis é bem merda, como você comprou isso?” (risos). Depois de um tempo, quando você realmente gosta, você nem olha nos pés dos caras. Você não tá nem aí se o cara tá usando um tênis legal.

Eu diria que depois de um tempo – lógico, o tênis uniu essa galera – mas ele não é mais o motivo principal pra reunir eles. Você vai num rolê com os caras dos tênis, mas você tem um médico ali, um designer, empresário, um cara que trabalha em banco. Então vocês vão conversar de mil outras coisas, tênis não faz mais parte daquele rolê. Uma hora ou outra você menciona “ah, você viu o tal Puma que lançou”, mas não é mais o papo principal. Vocês se reúnem, falam de cerveja, moda, de como é difícil ter planta dentro de casa. O tênis não é mais o assunto principal quando você realmente passa a gostar de tênis e das pessoas que rodeiam tudo isso.

Puma Style Rider Ride On
Ganhado: 2020
Dono: Lucas Marco
Fotos: Vitória Leona