Na primeira entrevista do ano, conversamos com a marca PACE Company. A Juliana Matayoshi e o Felipe Matayoshi nos contaram sobre o novo tênis S.A.L. 18, uma produção artesanal de 50 pares com 74 peças em cada par. Também falamos sobre o funcionamento da empresa, os desafios de se criar um novo sneaker e o futuro da marca (vem collab aí).

FOTOS POR PÉROLA DUTRA

Essa é a segunda entrevista com a PACE, mas a primeira vez somente o Felipe participou. Então Juliana, você pode nos dar uma introdução sobre quem é você, o que você faz, o que você gosta?

JULIANA: Eu me formei em economia e trabalhei muito tempo em banco, na área de finanças mesmo, isso é uma coisa que me ajuda muito aqui. Eu consigo controlar bem o financeiro da empresa e isso é muito importante, né. O Fe fica mais para o lado do produto e eu fico mais na administração da empresa para gerenciar o financeiro. Além disso, eu faço todo o resto, para ele não se preocupar e pensar em e no produto.

FELIPE: Mas ela também tem um pé em produto, ela gosta disso e dá muitos pitacos e boas ideias.

Como é o dia-a-dia de vocês, como vocês dividem o trabalho? Ou não tem uma divisão exata?

JU:  Somos uma equipe de três pessoas, eu, o Fe e o Anderson, aí meio que não tem uma divisão, todo mundo faz o que tem que fazer. O Felipe fica total focado em produto mas mesmo assim ele se intromete nas minhas coisas e eu nas dele.

FE: A Ju faz toda a parte de orçamento, de custos, falar com fornecedores, formação de preço de produto e tal. Mas quando eu vou para as fábricas, ligo para os fornecedores, vou lá na estamparia, corro atrás de tudo, vejo o que precisa mudar e ligo pra Ju "olha, vou precisar disso, vou precisar daquilo"; e aí a Juliana fica na "base" fazendo tudo que dá e o que não dá.

Eu acho que todo começo de empresa você tem que fazer tudo. Para o lançamento do tênis a gente ficou praticamente dois dias sem dormir, foram dois dias colando os adesivos nas caixas, colocando as ponteiras em todos os cadarços, e todo o resto que precisava. E é bom também a gente estar fazendo tudo porque assim a gente aprende, consegue entender o que está fazendo errado; é bom para a nossa própria evolução. Mas esse ano a gente vai precisar de ajuda, queremos ter mais uma pessoa na nossa equipe.

JU: Somos muito detalhistas, gostamos de tudo bem perfeito, então a pessoa tem que entender isso. Perfeito obviamente não dá para ficar, mas tem que estar bom o suficiente para o nível que queremos para a PACE.

FAZEMOS TÊNIS E VAMOS CONTINUAR FAZENDO TÊNIS, MAS EXPANDIMOS COM ROUPAS E ACESSÓRIOS TAMBÉM. DEMOS UM TALENTO BEM ESPECIAL PARA OS ACESSÓRIOS, ELES SÃO BEM MAIS AUTORAIS. AGORA A META DESSE ANO É LANÇAR BEM MAIS PRODUTOS.

Desde a nossa última conversa, o que mudou na PACE do ano passado para a PACE deste ano?

JU: Eu tava trabalhando no banco e fazendo as coisas na Pace ao mesmo tempo, eu literalmente saia do trabalho e ia para casa fazer as coisas da empresa. E aí chegou um momento que foi uma loucura, eu não conseguia fazer direito nem um e nem o outro. E ai foi o momento que eu decidi sair do banco, porque para o negócio decolar mesmo eu precisava me dedicar inteiramente à Pace.

FE: Essa foi uma grande mudança, surtiu efeito logo na primeira semana. Deu pra gente se organizar, separar as tarefas e criar uma rotina. Se não fosse por isso a gente não teria lançado 3 drops em 1 ano. A gente estaria lançando o primeiro agora.

Agora falando da PACE, o que mudou principalmente é que agora temos uma linha de roupas, isso já mudou totalmente a forma da gente se comunicar com a galera. Fazemos tênis e vamos continuar fazendo tênis, mas expandimos com roupas e acessórios também. Demos um talento bem especial para os acessórios, eles são bem mais autorais. Agora a meta desse ano é lançar bem mais produtos.

JU: Esse ano estamos programando umas collabs, bem legais e importantes, com algumas marcas menores e outras maiores que a nossa. Ainda não temos nada definido do que vai ser o produto e tal, então a gente prefere não contar com quem vai ser ou que vai ser (risos).

Acho muito legal ver a evolução de vocês – na nossa última conversa vocês tinham acabado de lançar aqueles 11 tênis de modelos diferentes e já foi um bom tumulto.  Mas hoje em dia é muito mais, a gente vê toda hora pessoas usando PACE.

FE: É então, e isso é uma coisa que era muito difícil de ver com os tênis, porque o mercado do tênis é complicadíssimo, as marcas grandes sempre ganham mais relevância. Era muito difícil ver as pessoas usando os meus tênis, mas agora que a gente vê o pessoal usando as roupas e os acessórios, é muito legal. Os acessórios são os que mais saem, desde os primeiros que a gente fez até hoje, são os produtos de mais sucesso.

Quando a gente lançou as roupas, queríamos fazer uma pegada muito handmade voltada para o lifestyle. Já tínhamos umas modelagens prontas de camisetas, calças, e jaquetas que fazíamos para uso próprio, e os modelos eram 100% inspirados naquelas marcas que a gente já tinha conversado na outra entrevista. E assim né, fazer tênis é uma loucura, é um processo muito demorado, tem muitas etapas – então tivemos uma experiência com isso e ajudou a gente no processo de fazer roupas. Não que roupa seja algo fácil, é bem difícil também, mas o processo de fazer um tênis é bem mais longo e tem muito mais etapas.

A GENTE VOLTOU COM A TRADIÇÃO DO TÊNIS FEITO COM AS MÃOS, SÓ QUE COM A SILHUETA MAIS ATUAL. O S.A.L. CARREGA ESSE DNA MEIO ANOS 90, QUE NÃO CHEGA A SER "DADDY SHOES" OU CHUCKY, MAS TAMBÉM NÃO É UM MODELO ATLÉTICO. ELE É UM CLÁSSICO COM O COURO E CORES BACANAS, COM MATERIAIS BEM PREMIUMS E UM DESIGN BACANA, EU GOSTEI BASTANTE DO RESULTADO.

Agora falando sobre o S.A.L. 18, explica pra gente qual foi o seu processo de criação.

FE: Desde o começo a gente queria trabalhar com o solado da Vibram. Mas eles estavam começando as atividades aqui no Brasil, tinha somente solas para esportes outdoor, hiking. e botas militares; demorou para eles trazerem esse solado para cá. A Off-white, a Brandblack, várias outras marcas usam esse solado, acho até que foi uma das solas mais utilizadas em 2017.

Para começar, queríamos mudar totalmente o formato do tênis, todos eram com solas pré frisadas, que eram montadas a mão, mas para o S.A.L. a gente conseguiu essa da Vibram. Não foi nada fácil conseguir essas solas, por isso que os tênis são super limitados com somente 50 pares. Para conseguir a Vibram, ficamos conversando com o representante durante três meses. Depois que conseguimos a sola, a gente começou a pensar no cabedal.

A primeira ideia era fazer um tênis ou um pouco mais "tecnológico" utilizando a Cordura ou materiais mais diferentes, porque nos outros tênis a gente só usava couro e no máximo neoprene. Então fizemos três protótipos – que a gente realmente não curtiu, ficou parecendo que queríamos ser algo que não éramos. A ideia era boa mas a execução não acompanhou. Decidimos parar e ficamos mais um tempo pensando em outra ideia. Essa era a época dos lançamentos do Futurecraft da Adidas com solado 4D, que é ferrado de tão bonito, teve também um monte de lançamento da Nike com transparência no cabedal, um monte de outras coisas loucas. Daí pensamos "vamos fazer o contrário, vamos voltar para o tradicional, com um tênis de couro mesmo, bonitão e bem chique."

FE: A gente voltou com a tradição do tênis feito com as mãos, só que com a silhueta mais atual. O S.A.L. carrega esse DNA meio anos 90, que não chega a ser "daddy shoes" ou chucky, mas também não é um modelo atlético. Ele é um clássico com o couro e cores bacanas, com materiais bem premiums e um design bacana, eu gostei bastante do resultado. De todos que já fizemos esse é o que eu mais gosto. E também, foi o com maior desafio, foi muito complexo de produzir e chegar no resultado que a gente queria, eu fiquei bem emocionado quando eu peguei ele na mão, fiquei uns 5 minutos admirando (risos). Tá bem longe de ser exatamente o que a gente queria, mas estamos muito orgulhosos dele.

Outra coisa legal de acrescentar é que os nossos protótipos são inteiramente brancos,  a gente pegou o método que a Nike fazia e ainda faz, de fazer o tênis primeiro inteiramente branco para depois fazer o oficial com as cores.

O tênis tem várias referências de outras silhuetas de tênis, quais foram suas inspirações? Isso é uma das coisas que eu mais gosto, você faz um ótimo uso das referências, tem um pouco de tudo mas não parece com nada.

FE: A língua é inspirada na silhueta do Jordan XI, e várias outras coisas. Mas por ele ter várias referências, ele acaba virando um tênis extremamente autêntico. Eu pesquiso bastante formas e silhuetas e sinceramente ele está bem autoral e original. Isso que eu fiquei mais contente da gente ter conseguido fazer.

 

Qual é o significado do nome S.A.L. 18?

FE: Self Adaptive Lug 18. O 18 não é uma coisa técnica nem nada, foi literalmente para marcar o ano de 2018, que foi muito bom para marca. A gente conseguiu se firmar, claro que ainda não tá super bem mas foi um ano extremamente crucial para o crescimento da PACE. Participamos de muitos eventos, tivemos feedbacks muito mais positivos do que negativos, a galera gostou muito dos produtos, o pessoal voltou a comprar, foi um ano muito, muito especial para a gente.

E o termo "sole hunter"? Tem algum significado especial?

É uma identificação no tênis de brincadeira, mas "sole hunter", porque eu penso primeiro na sola e depois no cabedal. Eu fico primeiro só pesquisando solas disponíveis no mercado para depois pensar no cabedal, eu sempre faço isso. É isso que sole hunter significa. Esse aqui com certeza foi o tênis que mais deu trabalho, os outros foram muitos difíceis de fazer mas esse foi o mais complicado. Foram necessárias 74 partes para fazer um par do tênis.  

A palmilha é feita de viscoelástico, é até feio falar mas esse é aquele material de travesseiros da NASA, sabe, que não deforma? (risos). Esse foi um tênis realmente pensado do começo ao fim, durante todo o processo mesmo.  Deu muito trampo mas valeu a pena, no final sempre vale.

Para divulgação do tênis a gente fez 2 vídeos,  o primeiro termina com a frase "last comes first" –  a nossa mensagem era que antes da estética, antes de todos esses termos grail, dead stock, hype, tendência – o "last comes first". Primeiro vem a forma – last – que é um termo que os shoemakers do mundão lá fora usam, principalmente os cara já conhecidos que customizam. Então o que a gente quis dizer é que primeiro vamos dar uma atenção a forma e qual a silhueta que a gente quer. No processo de criação do S.A.L. 18, a forma foi a segunda coisa que a gente fez – primeiro pegamos a sola e depois, fizemos uma forma impecável, a forma é muito bonita.

ANTES DA ESTÉTICA, ANTES DE TODOS ESSES TERMOS GRAIL, DEAD STOCK, HYPE, TENDÊNCIA – O "LAST COMES FIRST". PRIMEIRO VEM A FORMA – LAST – QUE É UM TERMO QUE OS SHOEMAKERS DO MUNDÃO LÁ FORA USAM, PRINCIPALMENTE OS CARA JÁ CONHECIDOS QUE CUSTOMIZAM. ENTÃO O QUE A GENTE QUIS DIZER É QUE PRIMEIRO VAMOS DAR UMA ATENÇÃO A FORMA E QUAL A SILHUETA QUE A GENTE QUER.

E como foi o processo de produção dele?

FE: Quando a gente fechou o protótipo, a fábrica ficou produzindo ele por 30 dias, na rotina da fábrica. Eu praticamente abria a fábrica com os caras, e ficava lá na linha de produção.  Os tênis brancos vieram meio sujos então a gente teve todo esse trabalho também de limpar todos os 25 pares. Uma coisa eu posso dizer com certeza é que esse tênis passou na mão de todo mundo para a gente conseguir fazer, pelas mãos minhas, da Ju, do Anderson e de quem pudesse ajudar.

A gente teve que produzir eles em pequenas fábricas, com costureiras de família que tem um puxadinho na casa com 5 máquinas, o nosso tênis está sendo feito assim, não tem nada de Industrial ou gigante, são pessoas que sabem fazer sem tecnologia, mas que entendem e muito de montagem e modelagem do produto. E a gente vai se adaptando.

JU: Essa foi a terceira parte da coleção RESONANCE, e agora vamos para a próxima. Vamos para o próximo tênis também.

 

Nesse ano de  2019 vocês vão focar mais em roupas ou tênis?

FE: A gente vai equilibrar mais, claro que vamos fazer mais roupas porque tem uma saída e aceitação muito grande; já o tênis a gente vai lançar sempre um modelo com duas variantes de cores por semestre. Não é viável economicamente a gente lançar um monte de tênis como da outra vez, hoje em dia eu reconheço isso; mas foi necessário. Não tem como a gente bater de frente com esses lançamentos quase diários dessas marcas grandes. Vamos fazer tênis para os que realmente gostam, é para bem poucos, é para aquele cara que já tem uma coleção de tênis e quer em sua coleção algo mais diferenciado. Ou também para a galera que tá entrando no universo de tênis, porque tem muita gente agora que tá começando a gostar e que aprecia também um tênis de uma marca que não é tão conhecida mas que faz um trabalho bacana. É isso que a gente quer.

JU: Vai ter muita novidade, muita coisa boa, vamos mudar várias coisas.

A GENTE TEVE QUE PRODUZIR ELES EM PEQUENAS FÁBRICAS, COM COSTUREIRAS DE FAMÍLIA QUE TEM UM PUXADINHO NA CASA COM 5 MÁQUINAS, O NOSSO TÊNIS ESTÁ SENDO FEITO ASSIM, NÃO TEM NADA DE INDUSTRIAL OU GIGANTE, SÃO PESSOAS QUE SABEM FAZER SEM TECNOLOGIA, MAS QUE ENTENDEM E MUITO DE MONTAGEM E MODELAGEM DO PRODUTO. E A GENTE VAI SE ADAPTANDO.

PACE COMPANY S.A.L. 18
Criado: 2018
Por: PACE Company
📸 @peroladutra