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@dosceworks é originalmente da Galícia, mas vive em Barcelona já a 10 anos. Ex estudante de química, grafiteiro, designer e amante dos tênis (não sneakerhead, em suas palavras), Paco é um autodidata que se interessa por processos e que se envolveu e marcou seu nome nos mundos da música, da arte, da moda e dos tênis. Conversamos sobre estar no game a bastante tempo, sobre todas as facetas de seus trabalhos e até sobre estar próximo da criação do Diadora que tinha no pé. 
FOTOS POR VITOR MANDUCHI

“Eu sou um criativo vivendo em Barcelona; sou da Galícia mas estou morando por aqui faz uns 10 anos. Sou autodidata – estudei química mas também eu fazia Graffiti. Existem apenas algumas coisas que realmente fazem sentido pra mim: Química, Graffiti e Design Gráfico. E o que esses temas têm em comum? Falando de Graffiti e Design Gráfico, se o Graffiti é conquistar o espaço urbano usando o seu nome, então porque não usar outras mídias para espalhar seu nome pela cidade toda? Que nem era feito nos metros e etc, porque não espalhar seu nome usando posters e camisetas? No final, a minha relação com Graffiti e Design é a mesma. Eu estudei Química porque eu vim do Graffiti e queria saber como as coisas funcionavam, eu acho que para ter bons resultados, você precisa saber como as coisas funcionam. Se você quer mandar bem no graffiti, você precisa saber como a tinta é feita.

A minha história é essa, eu vim pra Barcelona com uma bolsa de estudos em Química – na qual eu tive que fingir precisar para conseguir – e com essa grana, mais a grana que eu consegui com Design Gráfico, eu fiz as coisas acontecerem. Eu acabei arranjando mais trabalho, e eventualmente acabei me mudando pra cá. Aqui as coisas tem ido muito bem e praticamente tudo que eu queria desenvolver, eu consegui. Fiz algo relevante com tudo que eu gostava, com Graffiti, tênis, música e moda. Eu consegui fazer algo em cada uma dessas áreas de um jeito bem notável”. 

NO MEU CASO AS REFERÊNCIAS NÃO VINHAM APENAS DO GRAFITE. EU AMO A CULTURA DOS ANOS 80 E 90, ESPECIALMENTE POSTERS DE FILMES E CAPA DE ÁLBUNS.

Você estava tentando desenvolver uma nova tinta, um spray ou algo parecido?

Na Galícia, a gente pintava com bicos feito a mão e com marcadores que na real eram para sapatos – a gente se contentava com isso porque não tinha mais nada. Eu lia artigos na internet sobre como fazer tintas, e misturando esmalte de unha e fluido de freio eu consegui uma tinta interessante. Foi incrível, no que diz respeito a secagem e cobertura, foi uma loucura, acho que se eu tivesse patenteado, eu seria rico.

Quando você grafitava, quais eram as suas referências?
No meu caso as referências não vinham apenas do grafite. Eu amo a cultura dos anos 80 e 90, especialmente posters de filmes e capa de álbuns. Minhas referências variavam de Futura 2000 até Joan Brossa, ou de Pollock a 123klan. Também todo o movimento em Toulouse.

Aqui teve um movimento muito grande de grafitar ícones, em vez de tags a galera usava um único símbolo – o sucker, o peixe, o telefone, a mão, o pássaro, tinham varios. Eu tinha um que era um porco, pintei ele em todos os continentes, menos a Oceania. O meu porco está do Egito a Síria, do México e até em Nova York, mas eu meio que parei com isso agora.

De fato Dosce Works (DoisCs works)  vem exatamente de dois Cs, que vem de Coren Crew. Coren era o nome de um açougue da minha cidade. Eu trabalhava em uma quadra de basquete que era patrocinada pela Coren e eu escrevia “crew” debaixo do nome. 

Você começou a fazer Design por causa do Grafite?

Eu fui pro Design porque percebi que eu podia espalhar o meu trabalho, ou meu nome, para as outras pessoas sem sair de casa. Eu já fiz um monte de poster de turnês, eventos e festas em baladas. Quando eu vinha da Galícia pra cá de avião, eu via as Las Ramblas e Plaça Catalunya cheias dos meus cartazes. Você tem ideia de como é tá andando pela rua e falar pra alguém que não faz idéia “eu desenhei esses cartazes”? É muito louco. No fim é que nem o grafite, é exatamente a mesma idéia. 

Você trabalhou bastante com música, moda etc. E também teve já alguns projetos seus com a 24 Kilates. Como isso aconteceu?

Eu trabalhei um verão lá na 24 Kilates e estive por lá durante vários lançamentos. Eu fiz o visual merchandising e o display do New Balance Epic TR; teve também displays paras as lojas de Barcelona e de Bangkok. Eu fiz a mesma coisa para o La Bestia, onde a Brooks lançou aquele par que tinha as chamas e o bode bordado na língua.

Antes de trabalhar na 24 Kilates, eu e uns amigos tínhamos um projeto chamado Barna Kicks, onde a gente se encontrava pra falar de tênis e no final acabamos fazendo uma marca. Na real nem era bem uma marca, a gente só se juntava na minha casa, dava risada e fazia umas camisetas. A gente também tinha um Instagram onde faziamos umas rifas falsas falando que a gente ia dar os tênis do Alien da Reebok, no esquema “compartilhe essa foto” e foi imenso, todo mundo enlouqueceu. No final, a Barna Kicks era só a gente fazendo memes e coisas idiotas relacionadas à tênis. 

O que tênis representa para você?

Para mim, tênis obviamente significa bom gosto. É muito fácil colocar uma camiseta e calças, mas escolher um bom par de tênis é bem complicado, ele diz bastante sobre a pessoa e os riscos que ela toma.

Eu realmente gosto de tênis de basquete, mas agora estou usando mais os de running e de cano baixo já que tenho tornozelos grandes. Mas enfim, alguns modelos se tornam ícones e viram parte da cultura popular. Cada tênis tem uma história e eles são lançados em um momento específico da nossa história, e por isso que eu acho que eles são tão importantes. 

PARA MIM, TÊNIS OBVIAMENTE SIGNIFICA BOM GOSTO. É MUITO FÁCIL COLOCAR UMA CAMISETA E CALÇAS, MAS ESCOLHER UM BOM PAR DE TÊNIS É BEM COMPLICADO, ELE DIZ BASTANTE SOBRE A PESSOA E OS RISCOS QUE ELA TOMA.

Teve algum momento da sua vida que você percebeu “eu gosto de tênis”? Isso foi por causa de um tênis ou momento específico?

Definitivamente foi quando eu comecei a gostar de basquete. NBA era muito foda, os jogadores eram muito insanos. Era impossível você jogar como eles mas você podia se vestir como eles. E quando você jogava em algum time, não tinha problema de você ser ruim se você tinha um bom par de tênis, saca? Então era isso, uma imensa obsessão de jogar com os mesmo tênis que os jogadores da NBA. Nos anos 90 os jogadores tinham muito carisma, eles eram personagens dentro e fora das quadras; os de hoje em dia não são assim.

O primeiro Jordan que eu tive era um vinho. Eles nem eram tão legais assim mas como o Michael Jordan tinha eles, isso que importava. Obviamente, eu tinha os tênis para jogar basquete e aquele para usar casualmente, como o Airwalk, o Reef, Air Force e silhuetas similares. Depois disso, veio o Hip-Hop com vários tênis fodas também; no final das contas, você olhava tanto para os jogadores quanto para os artistas que curtia – como o Run DMC e todo o resto. 

Você se considera um sneakerhead?

Eu não me considero sneakerhead, pra mim eles são o illuminati. Eu gosto de tênis e é isso. Não preciso de nenhum título, eu sou quem eu sou, e no final – quem é um sneakerhead? É aquele que tem vários tênis, ou aquele que sabe tudo sobre tênis? Se você tem vários é por causa da sua situação sócio-econômica, que na maioria das vezes, é a boa situação de seus pais. Ou, você faz seu corre e se dedica em comprar e vender tênis, o que agora é quase impossível. Então não, eu não me considero um sneakerhead, eu só gosto de tênis e é isso.


E para finalizar, porque você escolheu esse Diadora IC4000 Gold Medal Crew para o ensaio?

Eu escolhi o Gold Medal Crew porque, de um modo, marcou uma fase da minha vida em que eu estava mais envolvido com tênis, eu estava trabalhando na 24 Kilates que é uma puta referência nesse mundo.Mas esse Diadora é um tênis que eu realmente gosto por causa do conceito dele, porque eu sempre gostei da ideia de “truques e e ganhar” custe o que custar. Pete Sampras disse algo parecido com isso, que o importante é ganhar e se for feio, é feio. Eu gosto da idéia de tentar enganar as pessoas e quebrar normas, porque no final é tipo uma guerra passiva, enganando todo mundo e ganhando.

O pessoal da 24 Kilates decidiu fazer um tênis inspirado no corredor Ben Johnson, porque ele teve sua medalha retirada por ser pego no doping. Quando eu ainda estava trabalhando lá, além de ser feito inteiro de couro de canguru e feito a mão na Itália (de acordo com a Diadora) o tênis tinha um adesivo de vinil com o recorde Olímpico do Ben Johnson escrito nele. Acontece que o adesivo não era de uma qualidade muito boa e ele acabava caindo, e é claro que sairia muito caro para refazer outro adesivo melhor. Então o que aconteceu? Duas pessoas vieram lá da Itália para esfregar o vinil de todos os tênis. Na parte de baixo da 24 kilates tem um armazém e um escritório, onde um cara e uma mina passaram dois dias com umas borrachas tirando os escritos da parte de trás do tênis. Eu acho que tinha uns 50 pares, algo por aí. 

@diadora IC4000 Gold Metal Crew
Comprado: 2016
Dono: @dosceworks
📸  @vmanduchi