FOTOS POR  VITOR MANDUCHI

“Meu nome é Ricardo Almeida, sou um jovem Português a caminho fora da juventude (risos), rapper em hiato e ex-estudante de Marketing. No momento trabalho em Barcelona com projetos de Branding e comunicação digital, sobretudo para músicos, festas e projetos ligados a música no geral. Gosto de sapatilhas [Tênis em Portugal] e roupas, não há muito mais a dizer (risos).”

Nos conte sua trajetória no mundo da música.

Comecei a fazer música muito cedo, quase na mesma época que comecei a escrever. Tive a primeira oportunidade de gravar alguma coisa em 2007 quando juntei-me a outros dois rappers e um grande amigo meu que é DJ, fundamos o AVC e o nome que eu usava naquela altura era Sarcasmo.

Em paralelo, enquanto estudava Marketing, eu tinha um objetivo – queria criar uma alavanca para mim e outros artistas que gostava, e sobretudo, não contar com outras pessoas para ajudar a me fazer subir, eu queria criar os mecanismos para chegar onde eu queria chegar. Por isso que fui estudar Marketing, para criar uma editora e desenvolver trabalhos de música. O fruto disso foi a No Karma, que oficialmente entrou na ativa em 2011 e durante 3 ou 4 anos as coisas saíram bem, lançamos bastantes discos – na minha opinião discos bons que hoje em dia muitos deles são discos cult em Portugal. 

É preciso ver que eu era um rapaz de 20 anos, não tinha experiência, nem os contatos, nem a rede – não tinha os mecanismos para fazer a coisa funcionar. Por falta de experiência, maturidade e falta de conhecimento, as coisas não tiveram a repercussão que poderia ter tido, hoje em dia seria bem diferente. Além de que o próprio movimento em Portugal não estava desenvolvido o suficiente, eles estavam com o pensamento “Ninguém vai viver da música, somos um país de 10 milhões de pessoas, é impossível viver da música aqui, é impossível fazer dinheiro com o Rap” – ao contrário do que acontecia no Brasil ou na Espanha, que já se vivia do Rap desde os anos 90.

Mas eu acreditava, eu achava que era possível. No Brasil por exemplo, geralmente o Rap tem que ser uma representação da rua, daquela luta social, mas aqui na Europa no geral, o rap é muito heterogêneo, tem raps de diversas classes sociais, tem discos sobre videojogos, futebol, tem sobre tudo! É altamente improvável que alguém não vai gostar de todo o rap, vai sempre ter algum rap que vai ligar contigo e eu acreditava mesmo que existia essa possibilidade de viver do rap. Mas isto é coisa do passado, não resultou como eu esperava, mas felizmente hoje em dia já existe esses mecanismos para ele funcionar em Portugal.

Lancei meu primeiro disco em 2011, Sarcasmo – Noites Calmas, Dias Felizes, um disco solo e que tive muito trabalho. Mesmo hoje, consciente das falhas que tinha enquanto artistas ou as imaturidades e os pequenos erros que eu cometia, acho que ainda acho ele é um bom disco, um que poderia funcionar hoje em dia. Ele é dentro de um nicho do rap mais alternativo e intimista e se virou muito bem, teve boas críticas, várias publicações em blogs e sites, eles destacaram o disco como uma das referências do gênero. Tudo muito bonito, mas foi na mesma altura que eu saí de Portugal e acabei por não apresentar muito o disco ao vivo – tive somente 3 concertos, só fiz concerto em Lisboa depois de 3 anos do lançamento. É curioso porque eu tive mais concertos do meu disco fora de Portugal, tive mais convites pra tocar na Galícia do que em Portugal! Vejo que eu devia ter feito mais, puxado mais pela coisa, devia ter lutado mais pelo disco, mas a verdade é que eu me desanimei um bocado.

Em 2013, lancei o disco do grupo, AVC – Bagaço, Ovos-Moles & Diplexil. Que veio a calhar também, eu devia ter lutado mais por isso, a coisa acabou a estagnar e estou desde 2013 fora da ativa. Agora estou de fato a trabalhar com planos de voltar ainda esse ano com uma sonoridade totalmente diferente, será com a mesma temática mas com uma abordagem nova. E vou usar toda a experiência que adquiri nos anos com a No Karma.

Na Espanha trabalhei como freelancer para artistas e também para uma agência que é referência do setor, ela foi respo nsável pelo investimento e boom do rap por aqui. Me orgulho bastante de ter feito parte também dessa história, assim posso dizer que faço parte da história do rap de Portugal e da Espanha. Poderia dizer que meu papel está comprido, mas não está, ainda não (risos).

Como você relaciona se vestir bem e estar dentro das tendências com o mundo da música?

Mesmo que o movimento streetwear possa ter vindo do skate e do basquete, quem popularizou, desenvolveu, lutou e louvou para isso foram os rappers. Nesse aspecto acho que é impossível desassociar música e moda. Uma t-shirt por si só é só uma t-shirt – é preciso de alguma coisa para lhe dar contexto, significado e simbolismo – sem saber nada sobre a marca, sobre o designer, tudo fica vazio. Acho que os rappers criaram esse contexto para as roupas e sapatilhas de basquete saírem do ambiente e ir para as ruas.

Na França por exemplo, durante os anos 2000 as grandes marcas eram todas de rappers! O poder de compra de rapper francês era muito diferente dos rappers portugueses e isso influencia muito e acabou limitando o crescimento do street fashion e sapatilhas em Portugal, porque não tinha esse tipo de compra, mesmo se você quisesse, tu não podias replicar o que um rapper francês fazia. Até os meados dos anos 2000 ninguém tinha dinheiro para fazer um videoclipe. 

Uma coisa que me influenciou e me ajudou muito na moda foi que, como não via nada em Portugal, eu tinha que procurar referências nos Estados Unidos e sobretudo na França – Nos anos 2000 os rappers eram as caras das marcas, tinham um trabalho muito forte por trás. Isso era uma época que comprávamos as roupas por catálogos e que dava sempre descontos bons nas roupas que ninguém queria; era o que tinha, se não fosse isso eram lojas de skate. Lembro que antes das temporada dos descontos eu falava “Mãe, quero comprar roupas” e ela “Não Ricardo, espera a temporada dos descontos dos 40%” (risos). Foi assim que eu comprei basicamente todas as minhas roupas de rap, minhas primeiras Timberlands e outras marcas.

Conta pra gente também sobre o seu portal Contracoutura.

É um projeto que eu tinha pensado em criar há alguns anos atrás – o objetivo é criar um ponto de divulgação da moda em Portugal, ou algo que fizesse essa ponte entre a música e moda lá. Criei esse Instagram, mas tenho a real pretensão de virar algo maior que só isso, é um projeto pessoal que no momento faz um pouco mais do que divulgar notícias. Com curadoria, ele mostra os principais destaques do que está acontecendo e todos os domingos fazemos um feature por um sistema de votação em que as pessoas votam na melhor foto em 3 categorias diferentes, com o objetivo de envolver a comunidade. Tenho até o objetivo de me aproximar mais do Brasil. 

Qual sua relação com tênis em geral?

É aquela mesma história que vocês já devem ter ouvido mil vezes: Gostaria de comprar sapatilhas mas não tinha dinheiro e agora que tenho, uau! As mais baratas eram as And1, mas sempre tinha aquela raiva quando tu vias alguém de sua equipe com umas diferentes e pensava “Filho da puta, onde que ele arranjou isso? Quanto terá custado? Também quero uma” (risos). Assim surge o meu primeiro grande amor, que foram as And1 Tai Chi, as famosas vermelhas e brancas do Vince Carter, o meu jogador favorito! Eu não via NBA porque não tinha TV a cabo e o jogo passava em Portugal as 3 da manhã, com 12 anos não podia estar acordado as 3 da manhã, mas eu via as fotos do Vince Carter e achava brutal! 

Depois das And1 vieram os Air Forces como grande ícone de minha vida, nesse momento o rap já teve um papel mais preponderante com 300 milhões referências deles nos raps. E era a mesma coisa, não chegava Air Force 1 na minha cidade, eu tinha que ir ao Porto. Quando ia, eu visitava a Foot Locker só pra ver as sapatilhas porque eu não podia comprar. Curioso porque as minhas primeiras Air Force 1s não fui eu que comprei, elas foram dadas pela minha namorada daquela altura! Eram um Air Force mid triple black, eu queria as todas brancas mas naquele momento já fez a minha vida.

Depois teve a fase em que íamos bastante em outlet, um outlet na Vila do Conde e depois no Porto. Íamos lá em finais de temporada e eu tinha sorte de calçar 44.5/45 [Tamanho Europeu], que em Portugal é um pé grande. Chegava uns Air Forces grandes incríveis que não se vendiam e eu não sei de onde eles vinham, mas lá você encontrava. Não sei de onde aquilo vinha, porque eu não via aquilo vindo da Portugal, sabe?! Tinham modelos que eu não sabia quais eram, comprei um que eu usei até destruir – um Air Force high, sem o strap, verde militar com palha que até hoje eu não sei que sapatilha é aquela, mas era lindíssima! 

Uma curiosidade, fui para Paris fazer intercâmbio e usei metade do dinheiro da minha bolsa do Erasmus em um par de sapatilhas (risos). Se fosse hoje seria completamente diferente, porque eu usei essas sapatilhas até acabarem, até não ter mais sola, hoje eu teria mais cuidado. Era um Dunk, que dura a vida toda, mas eu ia com ele pra todo lado.

Hoje em dia eu dou outro valor porque eu tenho que lutar por elas. Ter que dormir na rua pra comprar sapatilhas deu logo outro peso, gasto imenso dinheiro em um par e ainda me custa saúde, cansaço, tempo. Tem um amigo meu que faz o que quer com elas, comprou uma Saucony por 150 euros, uma sapatilha que era grail pra muita gente e destruiu na mesma noite, logo depois de comprar! Eu perguntei “Mas porque tu faz isso com as sapatilhas?” e ele “Ah, sapatilhas são para usar”, e sim sapatilhas são pra usar mas, sabe, não precisa fazer isso. Você não fica dormindo na rua pra comprar uma sapatilha e destruir logo na primeira noite. 

Você se considera um sneakerhead?

Acho que é uma pergunta estranha, tá sabendo? (risos). O que é um sneakerhead? É alguém que gosta de sapatilhas? Alguém que coleciona? Alguém que acomula? Alguém que conhece muito? Pra começar a responder era preciso definir o que é um sneakerhead. Eu não vou dizer que coleciono muitos pares, eu tenho 50, tem gente com 300, tem gente com 1.000! Eu não sou ninguém perto deles.

A questão do colecionismo para mim surge aqui em Barcelona, porque pela primeira vez eu encontro gente com o mesmo interesse e gosto, ou até se calhar com mais interesse e com outro tipo de conhecimento. Eles me ensinaram e mostraram coisas, a partir daí eu comecei a encarar as coisas de um modo diferente. Comecei a conhecer e apreciar, a conhecer outros tipos de modelo – eu venho do basquete e o Gel-Lyte III é uma sapatilha completamente atípica para um cara como eu ter. Antes eu achava que a Asics eram só sapatilhas fuleiras pra running e feias, por ignorância eu não conhecia a Asics pelo que ela realmente era. Quando comecei a conhecer mais e aprendi sobre os conceitos por trás das colaborações, trabalham muito bem os conceitos, os colorways atípicos, jogos de materiais interessantes e realmente edições limitadas – só há 2.000 pares dessas sapatilhas em todo o mundo! Eles fazem tiragens de 300, 500 pares em todo o mundo, isso sim são sapatilhas limitadas. 

Descobri aqui em Barcelona também que reseller é essencial na cultura porque gera movimentação de sapatilhas exclusivas e pra mim, permitiu comprar sapatilhas que eu não conseguiria de outra maneira, a não ser com eles. Isso de certa forma ajudou a financiar a minha coleção, eu não teria conseguido comprar a maior parte do que tenho se não tivesse vendido outras, ou ter feito esse tipo de negociação. É um tema um bocado tabu que até um tempo atrás tinha gente com medo de admitir que fazia. Eu não concordo quando é venda de Yeezy por exemplo e tem um chinês na porta da loja oferecer notas ao pessoal que sai, ou algo do tipo, é um bocado duvidoso, até para as lojas. Eu falo do movimento de troca de sapatilha entre as pessoas. 

Porque você escolheu esse Asics Gel-Lyte III x Afew “Koi” para fazer o ensaio?

Essa sapatilha por um ponto de vista emocional, representou uma fase em que minha vida basicamente mudou. Antes dela eu estava em uma pior fase da minha vida, com problemas financeiros e as coisas não estavam ocorrendo como queria. Mas na altura que consegui essa sapatilha as coisas mudaram, subitamente a minha vida deu uma volta.

Asics Gel-Lyte III x Afew “Koi”
Dono: @rickgotkicks
Comprado: 2015
📸   @vmanduchi