Em janeiro, em um momento bem diferente do que estamos passando agora, tivemos o prazer de ir até o Carrito conversar com um dos grandes nomes do skate nacional, Roger Mancha. Roger sempre trabalhou e se envolveu com o skate de alguma forma, e agora faz ele parte do time olímpico de skate como conselheiro técnico da seleção brasileira. Além disso, hoje ele é dono do Carrito, junto com a sua mulher, um restaurante plant based de comida orgânica. Para essa entrevista, ele escolheu um tênis pelo qual tem muito carinho, o seu Air Jordan I Low SB ‘Desert Ore’ do Lance Mountain – skatista que foi uma grande referência para Roger.
FOTOS POR JULIO NERY

“Eu sou o Rogério Mancha e vou fazer 44 anos. Sempre fui envolvido com skate, comecei a andar com uns 10 anos de idade. E aí, o skate me levou para um novo ciclo de amizades e de lifestyle. Me profissionalizei com o skate, ele me levou para a música, arte, fashion e viajei um bom tempo para alguns países por causa do skate. Eu passei quase três décadas – anos 80, 90, 2000 – no skate.”

Eu fui morar nos Estados Unidos representando algumas marcas, que na época eram super importantes para o mercado streetwear. E depois voltei para o Brasil e decidi que mesmo andando, eu queria trabalhar com o mercado de skate. Trabalhei na Element, Etnies, LRG, Supra, Emerica e depois eu comecei a querer empreender. Em 2013 eu criei um curso de skate para mulheres, chamado Forfun, foi um super sucesso. Também criei o First Push, que conectava as pessoas com o intuito de mobilizar causas, e com isso fizemos alguns projetos para arrecadar fundos para projetos  sociais. Todos esses projetos eram embrionários. Mas aí minha esposa começou o Carrito enquanto eu trabalhava na LRG. E aí pintou uma chance para eu sair da LRG porque a empresa não ia mais atuar no Brasil. Eu falei: “Vamos investir, levar isso a sério”. 

Eu fiquei bem doente em 2013 por causa de uma doença autoimune que atacou meu rim e aí eu decidi mudar totalmente a minha alimentação, ela virou o foco da minha vida. Em 2016 eu fiz um transplante, minha esposa foi a minha doadora do rim e aí um mês depois do transplante, surgiu o Carrito. E aí nós tomamos esse caminho juntos. A gente abriu no shopping, fomos evoluindo e entendendo esse mercado do plant based.

Recentemente eu fui convidado para ser consultor técnico da seleção olímpica de skate. Então eu tô nessas duas situações. O skate voltou para mim com uma coisa inovadora agora, cuidar do esporte na primeira Olimpíada, o primeiro técnico, a primeira equipe Olímpica. E o Carrito é a minha vida porque eu, como tenho o foco muito grande para alimentação, tento inspirar as pessoas. Skate, música, arte… Sempre fui um cara curioso para tudo. Desde pequeno.”

POR ISSO QUE EU PENSO QUE VOCÊ TEM QUE MUDAR TUA VIDA ENQUANTO VOCÊ TÁ VIVO, EXPERIMENTAR E DESPERTAR UM NOVO JEITO DE VIVER E TAMBÉM CONSEGUIR DESPERTAR ISSO PARA OUTRAS PESSOAS.

Você já tinha essa conscientização e preocupação com a sua alimentação antes da sua cirurgia, ou isso foi algo que veio depois?

Não, cara. Foi quando eu peguei o resultado da biópsia e o médico falou: “Não tem tratamento, não tem cura e não tem como solucionar o seu problema. Pode dar certo tendo o transplante, pode demorar três meses, seis meses, anos. Ou pode chegar a acontecer uma coisa mais grave com você.” Aí eu falei: “Putz. E o que que eu posso comer, doutor?” E ele: “Ah, você pode comer tudo. Não tem situação que resolva.” Aí eu fui caçar na internet. Na época eu pensava: “Ah, não tenho tempo para virar vegano, não tenho tempo para comer ou para se alimentar natural.” Eu ia no fluxo da vida, vivendo a vida. Tava tudo muito legal, fui crescendo, ganhando um pouco mais de dinheiro, saia com os amigos, ia nas festas, nos happy hours que as marcas faziam, eu sempre tava naquele meio e as coisas iam acontecendo. Mas aí depois de tudo isso eu pensei: “Eu preciso mudar isso.”

Eu fui estudar onde tinha orgânicos, o que o orgânico causa no teu corpo, como é a alimentação sem carne, como complementar tudo isso, e comecei a criar sistemas. Fui procurar religiões que tenham segmentos, desde o hare krishna, budismo, kardecismo e eu fui estudando. Não tinha ninguém que poderia falar que sim ou não. Mas de final de 2012, eu só fui chegar no processo de transplante em 2016, eu nunca tive um efeito colateral e eu só fiquei quatro dias no hospital. No mês depois eu já tava trabalhando na LRG, fazendo evento e andando de skate. E hoje eu tenho o corpo super bem. 

Por isso que eu penso que você tem que mudar tua vida enquanto você tá vivo, experimentar e despertar um novo jeito de viver e também conseguir despertar isso para outras pessoas. Acho que a gente tá vivendo um momento que é preciso evoluir com o pensamento. Temos as todas ferramentas do mundo, mas a gente vive de uma maneira um pouco arcaica ainda, sabe? A gente gasta sem saber porque tá gastando. E levar essa forma de inspirar através da alimentação, um novo estilo de vida, tem muito a ver com o skate. O skate sempre teve um pouco de ativismo, as pessoas nunca levaram a sério o cara que andava de skate. Sempre foi uma coisa querendo se impor no mundo. E hoje em dia é muito mais como as pessoas entenderam o skate, a moda, a música. Então a comida tá evoluindo. O efeito estufa, as queimadas na Austrália, estão muito relacionadas com todo esse processo de alimentação. Então as pessoas estão evoluindo, é normal. Não preciso falar: “Vamos parar o consumo disso.” Mas todo mundo tá evoluindo para ter um planeta melhor. Você quer viver mais, todo mundo quer viver mais, ninguém tá preparado para morrer, entendeu? Então acho que a alimentação foi fundamental para mim.

Como é você trabalhar com o skate e ser dono de um restaurante?

Eu sempre relacionei o skate com negócio. Você sempre tenta novas manobras e erra. Ou você acerta. Você sempre tenta um meio diferente. Se o cara falou assim: “Você não pode andar aqui”, você vai falar: “Por que eu não posso?”. Você não deixa para trás. As pessoas escutam muito “não” e vão para trás. Os caras do skate sempre escutam “não” e vão lá tentar de qualquer maneira.

Então eu estudei muito. Eu fui procurar “o que era negócio”, “na ideia de negócios”, e eu uso muito do lifestyle do skate, do que eu aprendi do dia a dia na rua. Isso é normal, acho que em todas as culturas. Tipo as marcas streetwear comandadas por pessoas que cresceram na rua, conhecendo a rua, sneakerheads… Foi sempre assim. Esse é o conceito de business: “a gente faz diferente”. Então quando eu to aqui dentro, eu me sinto como se eu tivesse fazendo algo diferente baseado no que eu aprendi com o skate. Tipo, eu sempre trabalhei com skate para vender mais produto e dar as melhores possibilidades para os skatistas. Hoje eu trabalho num projeto olímpico, tudo é muito novo. Hoje eu tô com skatistas que têm a chance de ganhar medalha olímpica. Eu trabalho para o esporte. E acho isso incrível porque eu aprendi muito ao longo dos anos, nas três décadas com o skate. Eu me sinto muito honrado, porque eu acho que vai funcionar e a gente tá próximo aí. As previsões são muito boas de ganhar medalha. Tem gente que odeia, tem gente que ama, mas eu acho super importante o skate estar nas Olimpíadas.

E justamente, como você vê esse lance do skate nas Olimpíadas?

O skate sempre vai existir. A gente tá numa situação em que vários outros esportes que não eram esportes olímpicos há quarenta anos atrás entraram na Olimpíada. O skate tem um estilo muito diferente em relação a como é cada skatista. Não há uma torcida contra. Não é “guerra de torcidas”. Então acho que tão querendo e conseguiram colocar o skate no processo Olímpico, e isso vai movimentar e crescer o número de pessoas andando de skate.

 

Ir para o Japão, viver tudo isso… imagino que você deve estar bem empolgado, né?

Tô muito. Não imaginava quando eu comecei a andar de skate em 1986 que ia parar nas Olimpíadas. Nunca fui ao Japão. Isso é que me empolga muito também. O Carrito me empolga muito também, isso aqui é legal para caramba. Ultimamente têm acontecido coisas muito boas… A gente trabalha muito mesmo e é bom trabalhar assim. Hoje eu tenho saúde para poder fazer isso. Tudo que nós fazemos ultimamente, eu e minha mulher, é com muita paixão para aproveitar o momento, sabe? Eu não sei exatamente o que pode acontecer daqui há anos, meses. Então eu fico com o momento. 

E explica um pouco para a gente, qual é a sua função como consultor técnico da seleção? 

A minha função é saber o que tá acontecendo com os skatistas, se ele tá machucado, o que exatamente está acontecendo com cada um. E como a gente da Confederação Brasileira de Skate pode ajudar o skatista. Então eu sou um hub. Lógico que cada skatista tem o seu preparador físico, seu técnico e o seu agente. Então eu fico meio que como um maestro, coordenando, sabendo o que tá acontecendo com todo mundo. Alguns skatistas são mais próximos e eu ajudo em situações de estratégia, quem sou eu para ensinar tal manobra? Mas eu sou um “terceiro olho”, porque às vezes a pessoa entra numa rotina e não percebe o que tá acontecendo. Algumas vezes eu trabalho juntamente com os técnicos dos outros skatistas “Pô o que ele vai fazer? Você acha que ele vai fazer isso?”.

Eu sou também uma ferramenta burocrática para programar as viagens, várias outras situações. Além disso, eu do apoio psicológico ao atleta, vejo se a família atrapalha ele, se ele tá com muita pressão, se o skatista tá precisando de algo e se isso tá atrapalhando o desempenho dele. E a equipe é grande, no street são 10 skatistas. Na Olimpíada vão ser seis, três no masculino e três no feminino. São skatistas de alto nível.

E eles treinam todos juntos? Como funciona?

Não, cada um tem sua individualidade. Cada um tem uma pessoa que ajuda, um técnico ou um agente, o que for… É muito novo tudo. O skatista não nasceu em uma categoria de base, onde tinha o super técnico, o respeito ao técnico, como o basquete, a ginástica, a natação, o futebol. Sempre foi independente e autônomo. E aí depois que você aprendeu o caminho, você toma suas iniciativas, né? Você não fica, como em um esporte como a natação, observando o detalhe da repetição de um movimento, criando um treino. Como eu vou falar que o cara precisa treinar 200 kickflips por dia que ele vai melhorar? Porque na hora que ele for dar o décimo primeiro de 200, o próximo ele vai errar, entendeu? Então é tudo muito difícil ainda, tudo muito novo. Alguns países sim já vieram de uma disciplina tipo a China, o Japão, que estão trazendo método dos outros esportes para o skate. Eu acredito muito que isso vai fazer perder o lifestyle.

Eu fui um cara que passei por todos os lances do skate. Desde o cara core, ao hater; trabalhei nas empresas, fui um não-competidor, um competidor. Já me dei mal na vida, já tive problemas que eu poderia não estar aqui. Então acho que eu consigo ter um pouco de psicologia para entender cada caso e o que fazer para chegar lá. O skate é muito psicológico. Algumas vezes você tem que ser o amigo, outras vezes você tem que falar a verdade na cara. E é um processo de aprendizado, né? Ninguém gosta de ouvir verdades. E a gente no fundo tá lá para que o cara ganhe a medalha. Não para vender mais tênis, vender mais roupa. E sim ganhar uma medalha.

O skate sempre foi contraditório. Você quase não vê em outros esportes alguém torcendo a favor que aquela pessoa seja melhor que você. Talvez eu acho que o skate vá ensinar isso na Olimpíada, a gente vai mostrar “que vença o melhor”, mas que vença o melhor de verdade. Eu não to torcendo para que o cara que tá em primeiro erre para o outro ganhar, porque ele representa uma nação. Eu quero que o cara acerte e o meu acerte e ganhe de verdade. No skate você ainda vê isso. Eu não sei se no futuro vai ser diferente. Todo mundo junto, um monte de amigo viajando junto para uma competição, acho que vai ser bem louco. Tem que esperar para ver.

VOCÊ QUASE NÃO VÊ EM OUTROS ESPORTES ALGUÉM TORCENDO A FAVOR QUE AQUELA PESSOA SEJA MELHOR QUE VOCÊ. TALVEZ EU ACHO QUE O SKATE VÁ ENSINAR ISSO NA OLIMPÍADA, A GENTE VAI MOSTRAR “QUE VENÇA O MELHOR”, MAS QUE VENÇA O MELHOR DE VERDADE. EU NÃO TO TORCENDO PARA QUE O CARA QUE TÁ EM PRIMEIRO ERRE PARA O OUTRO GANHAR, PORQUE ELE REPRESENTA UMA NAÇÃO. EU QUERO QUE O CARA ACERTE E O MEU ACERTE E GANHE DE VERDADE.

Você se lembra como foi o seu primeiro contato com skate? 

Sim, cara, eu assisti no cinema “Loucademia de Polícia IV”, e teve uma sessão com o Bones Brigade. Foi incrível. Ele estava com roupa colorida, com uma camiseta rosa, lembro muito bem disso. E também eu era viciado em “CHiPs”, um seriado policial dos anos 80, e tem um capítulo que eles vão pegar uma gangue de ladrões que eram skatistas, e eles andavam numa pista. Eu olhei aquilo e falei “Uau! Legal isso. Gostei disso, skate é legal.” Isso em 85. Eu fui ganhar o meu primeiro skate, na verdade, em abril de 86 e o meu primeiro tênis foi um Chuck Taylor verde. Eu lembro disso. 

 

E qual foi o primeiro momento que você viu um tênis e pensou: “Isso é bacana, eu gosto disso”?

Eu não participava daquele lance “Ah eu vou querer um Nike Air Force ou Agassi, ou New Balance…”. Que eram os tênis da época. Eu queria um Airwalk Prototype, ou o Rainha de skate, que era uma cópia do Prototype; queria também o Vans, o Mad Rats – eu curtia os tênis de skate. Você via tipo os “Animal Chin” usando Jordan, mas você não tinha acesso a Jordan, e eu era pequeno também. Mas tinha os caras mais velhos da minha equipe, que usavam boné Raiders, uns Nike Dunks… Então eu lembro do Zé Gonzales, que era muito envolvido na rua e ele já tinha um lifestyle. Eu falava: “Pô que legal!”. Quando você é pequeno, você vai seguindo o rumo. Então você vai imitando alguns caras e fazendo uma coisa diferente, entende?

Os anos 80 foi uma época de seguir a tendência do skate, porque eu só tinha 11, 12 anos, e admirava os mais velhos com estilo. Depois, nos anos 90, veio muito forte a influência do hip hop no skate e aí você procura ter os tênis de basquete para andar de skate. Começou a surgir toda essa coisa de usar Adidas Superstar, camiseta de time, usar os sportswear para o skate, pólo, e enfim.

MAS CONTINUA SENDO SKATE. UMA MADEIRA, UMA RODINHA, UM EIXO. GRAÇAS A DEUS O SKATE VAI EVOLUIR E EU NÃO SEI COMO VAI SER NOS PRÓXIMOS ANOS, MAS SEMPRE VAI TER ALGUÉM NA RESISTÊNCIA. SEMPRE VAI TER ALGUÉM FAZENDO ARTE DE UMA MANEIRA ORIGINAL, FAZENDO MÚSICA DE UMA MANEIRA ORIGINAL, SEMPRE VAI TER ISSO. E COM O SKATE É A MESMA COISA.

E você consegue fazer uma comparação entre o skate dos anos 90 para os dias de hoje? 

A moda sempre esteve envolvida no skate, no skatista, no lifestyle, o jeito que ele se comporta na rua, nas manobras, no estilo. Ter caras que nem o Mark Gonzales, o Natas Kaupas, que tinham esse estilo a mais andando de skate, sabe? Era muito inovador toda essa parte de descobrir as manobras. É diferente sim hoje daquela época. Hoje tá muito mais acessível e popular, as pessoas respeitam o skatista – o skatista tá na mídia, o skatista músico… Hoje Você fala: “Eu sou skatista”. Isso é legal. Mas nos anos 80 era muito mais controverso. Nos anos 90 então? Nem se fala! Naquela época o skate deu uma morrida, começaram a surgir outros estilos.

O skate sempre foi inovador de uma certa maneira. Eu achava muito mais inovador nos anos 80, porque era difícil você ser. Você não tinha um Instagram para postar: “Olha o tênis que eu ganhei, olha a roupa que eu tô usando, olha as minhas manobras.” Você não mostrava o que você era – você conquistava respeito. Hoje em dia é muito mais tranquilo. Antigamente você criava uma fama sendo bom “Pô, conheci um cara lá no campeonato em Pinheiros. O cara anda muito!”. Aí o moleque vai para o interior e comenta “Eu conheci um skatista…”. Aí você vai parar lá no Nordeste. Então o cara que era bom naquela época crescia a fama dele no boca a boca. Hoje em dia, você posta uma manobra aqui em São Paulo e já vai para o mundo inteiro ver.

Mas continua sendo skate. Uma madeira, uma rodinha, um eixo. Graças a Deus o skate vai evoluir e eu não sei como vai ser nos próximos anos, mas sempre vai ter alguém na resistência. Sempre vai ter alguém fazendo arte de uma maneira original, fazendo música de uma maneira original, sempre vai ter isso. E com o skate é a mesma coisa.

Você coleciona tênis ou já chegou a colecionar?

Nos anos 90 eu comprava tênis. E também ganhava de skate, mas eu rodava de skate com tênis de skate. Mas era normal todo mundo levar o tênis de chilling na mochila, tipo um tênis de basquete e tal. E a gente vivia isso. Naquela época era muito difícil ter os tênis, você via os caras nos Estados Unidos, principalmente os Beastie Boys quando surgiram com os Gazelles, e eu falava: “Uau, como a gente consegue?”. Lembro que em 93 a gente foi para a Alemanha e compramos uns Puma suede inteiro rosa. O cara vendia a 20 euros! Compramos um monte porque a gente não tinha acesso aqui. Aqui não tinha tênis. Então a gente ia atrás. Queria tentar ter o kit, se mostrar legal para o skate, tá ligado? Eu adorava muito tênis. Sério. Eu sempre ganhei muito tênis porque eu tinha patrocínio, mas não eram os tênis que eu queria ter, então quando eu ia para os Estados Unidos eu ficava atrás dos tênis chilling – o para sair, o de basquete, tal. Lógico, eu nunca tive um Jordan, mas eu tive um Airwalk Prototype.

Quando chegou os anos 2000, eu fui da City Stars, que era a marca do hip hop, de atitude, a marca da rua – era como se fosse a Supreme dos anos 90. E o Kareem Campbell, era o dono da City Stars, ele era o cara do momento. Lembro a primeira vez que eu entrei no quarto dele e vi mais de 2.000 pares de tênis, fiquei impressionado! Eu morava com um cara em Melrose que colecionava também. Mas ainda não existia os sneakerheads. As pessoas iam comprando pelo esquema de ir em downtown e ter os caras vendendo os samples.

Ganhei bastante porque trabalhei em marcas de tênis também. Então um bom tempo eu trabalhei na Supra, eu podia ter os Supras que eu queria. Na Etnies eu fui pegar uns tênis que não eram tão assim com valor agregado de sneakerhead, mas tinham modelos antigos que eram muito legais. Eu tava sempre com amigos na adidas, amigos na Converse, e os caras sempre mandando os lançamentos.

Aí também vem uma história: eu não como carne, sabe? Então eu não apoio muito o uso de tênis de camurça ou couro, mesmo eles sendo bons para andar de skate. Ao mesmo tempo, quando as pessoas mandam tênis para mim, eu vou falar “não”? E a minha esposa fala “Você tem muito tênis.” Aí eu penso “Puts, tá errado eu ter tantos assim.” Tá ligado? Algumas vezes eu me desfaço de vários, outros eu ainda mantenho um pouco do ego, tentando melhorar isso. Porque alguns eu quero guardar, eu quero ter esse tênis daqui 15 anos. A maioria que eu tenho, eu sei a história. Eu adoro entender a história dos tênis. Eu não sou o cara que gosta do Yeezy, porque o Yeezy é hypado. Eu gosto desse Air Jordan 1 porque tem estampado nas palmilhas o chão e a parede da cena do vídeo “The Search For Animal Chin“.

Eu tenho dois tênis que são muito especiais. Vocês conhecem os Nikes Dirty Money? A história é essa: teve uma época do skate dos anos 90 que morreu tudo. E nós, muito pivetes, nos juntamos falando “A gente não concorda com isso, a gente quer ter a nossa marca, o nosso meio, as nossas revistas. Igual lá fora! De skate, hip hop…”, assim nasceu o vídeo Dirty Money, que foi o primeiro de skate brasileiro. Anos depois, em 2010, o Ale Vianna fez o documentário sobre o Dirty Money. Quando saiu, a Nike apoiou o lançamento do documentário e lançou dois tênis junto, um Dunk SB Mid e um Blazer High. E quem fez esses tênis foi o Fabrício da Costa, ele fazia parte do Dirty Money. Ele fez o Air Max lanceiro também. Mas enfim, eu apareci no documentário, e aí eles mandaram os dois Nike Dirty Money para quem participou do documentário. Foram poucos pares.

E por que de todos os seus tênis, você escolheu o Air Jordan I Low Lance Mountain ‘Desert Ore’ para o Kickstory?

Cara, eu devo ter contando todos os tênis de skate, todos… Uns 120 pares. E eu escolhi esse porque eu curto o Lance e a história desse tênis. É um tênis do sobre o vídeo “The Search For Animal Chin” e aí a palmilha é dividida em duas cores, que representam o Pico do Richman. Uma palmilha é da parede, e a outra do chão. No vídeo eleva usa um Jordan I branco com azul e um preto com azul escuro. Então esse tênis aqui tem esse detalhe de sobreposição que eu acho muito viagem. Ele não mostra muito quem você é. Ele é um Jordan Nike SB, mas ninguém precisa saber. Você decide cortar e mostrar a cor original dele por baixo, ou você usa desse jeito. E sei lá, eu me identifiquei com isso assim. Muita gente não precisa mostrar quem é. Algumas pessoas precisam mostrar. E isso é maneiro. Esse tênis aqui te mostra uma possibilidade quem você é e pode ser, entendeu? Ninguém nasce certinho. Então ele é uma evolução. Achei muito louco.

E quando teve o Maze fest, o Rafa da Nike ter me chamado para intermediar junto com o Pérsio, o talk com o Lance Mountain, um cara que eu admiro muito, foi muito especial. Depois do Maze ele veio aqui e ficou o dia inteiro aqui no Carrito, e só saiu para ir para o aeroporto. E as histórias que ele contava… Ele fala muito sobre skate. O Lance é um super colecionador de tudo, ele guarda coisas de 20 anos, coisas nada a ver, sabe? Primeiro dread do Steve Caballero? Ele guarda. Então ele tem muita história, muita. Então esse tênis para mim tem um motivo.

Em 88 teve o Sea Club Overall. Eu fui com meu pai assistir a apresentação do Tony Hawk e do Lance Mountain. E eu queria ver muito mais o Lance Mountain do que o Tony Hawk. E aí depois tinham as revistas “O Lance Mountain veio para o Brasil.” E eu: “Eu tava lá!”. Você vê de um outro jeito. E o Lance Mountain sempre teve uma conexão muito grande com os brasileiros, por causa do Bob.

E QUANDO TEVE O MAZE FEST, O RAFA DA NIKE TER ME CHAMADO PARA INTERMEDIAR JUNTO COM O PÉRSIO, O TALK COM O LANCE MOUNTAIN, UM CARA QUE EU ADMIRO MUITO, FOI MUITO ESPECIAL. DEPOIS DO MAZE ELE VEIO AQUI E FICOU O DIA INTEIRO AQUI NO CARRITO, E SÓ SAIU PARA IR PARA O AEROPORTO. E AS HISTÓRIAS QUE ELE CONTAVA… ELE FALA MUITO SOBRE SKATE.

Air Jordan I Low Lance Mountain ‘Desert Ore’
Dono: Roger Mancha
Fotos: Julio Nery