“Meu nome é Felipe Savone, tenho 31 anos e sou de São Paulo. Sou formado em Publicidade, trabalhei por muito tempo em agência e há 4 anos trabalho na Adidas. Entrei como Gerente de Marketing de Originals e desde o fim de 2016 assumi a gerência de todas as categorias da marca: futebol, running, skate e também Originals. Agora tenho uma equipe com mais pessoas, cada um cuidando de uma categoria e tenho uma visão de estratégia geral da marca.”

Felipe, qual a sua relação com tênis no geral?

Nunca fui muito ligado em comprar roupa ou tênis. Até que com meus 15 ou 16 anos, lembro do meu primeiro Adidas comprado conscientemente, já que eu queria um tênis da marca. Uma prima minha tinha um tênis que ela não gostava muito e eu achei incrível porque era um tênis preto com três listras. Foi na mesma época que eu estava começando a andar de skate, era um Gazelle básico e ele tinha essa característica de ser neutro, eu adorei isso. Adotei o tênis pra mim, usei por muito tempo e ele foi um dos meus primeiros incentivos para eu gostar de sneakers. Até hoje não me intitulo como uma pessoa aficionada por tênis, mas com esse meu contato com a Adidas eu comecei a gostar muito da marca, me interessar e viver a história dela.

O tênis pra mim sempre foi mais um elemento para compor a minha identidade. Como me formei em publicidade, trabalhei com marketing de marcas a vida toda, fiz pós-graduação em Ciência do Consumo – gosto de saber o porque as pessoas compram, porque elas se interessam por alguma coisa, como elas consomem – e o tênis, assim como outros artigos de vestuário, ajudam a compor uma identidade, ajudam a deixar uma marca no mundo. Costumo dizer que até quando você diz que não se importa com marca e que não quer comprar nada extravagante, só preto e branco, você tá deixando uma assinatura no mundo. E o tênis é mais um complemento dessa identidade que você monta.

As pessoas costumam se expressar de forma errada, por exemplo, quando a galera compra um certo tipo de modelo de tênis o pessoal vem falar que é hype. Cara, a pessoa quer se enquadrar dentro daquele estilo, ela quer fazer parte daquele momento e mesmo que seja hype, o produto tem toda uma história por trás. Isso é o que eu mais gosto em produto e no consumo em geral, que são os significados, o que aquilo transmite de alguma forma. Um tênis branco sem nada pode ter muito mais significado do que um tênis cheio de tecnologia e estrutura.

Vice fez uma matéria falando sobre o hype da Supreme, é muito interessante toda essa história de o porque as pessoas pagam 300 reais em uma camisa branca da marca, por exemplo.

Existe uma história muito boa dentro da Adidas: Stan Smith é um tênis, que não foi feito pelo tenista, era um tênis que já existia e foi batizado com o nome dele depois. O Stan Smith era o good guy, o bonzinho do tênis competindo contra um cara chamado Ilie Năstase, que era o bad guy, porque ele era cabeludo, grossão. Aí tem uma cena clássica do Năstase em que ele perde um ponto da partida e mostra o dedo do meio pro juiz ou pra torcida, não lembro e tudo isso na época dos anos 70. Tem uma foto icônica deste momento no esporte que se tornou uma camiseta da Adidas com essa foto e a frase “every icon has a history“.

Tudo que marca um momento, uma época e transcende esse tempo, tem uma história. Provavelmente, todas as marcas tentam trabalhar isso e buscam seus ícones e suas histórias para se posicionar em relação aos seus produtos. Pra mim isso sempre foi uma verdade muito forte dentro da Adidas e essa foi uma coisa que me atraiu quando eu era moleque para a marca. Sabia que tudo por trás dos produtos tinham uma história, tinham um porque, poucas coisas ou talvez nenhuma, foram criadas sem um real propósito.

Uns tempos atrás, comecei a pensar que se eu fosse colecionar qualquer tênis da Adidas, colecionaria aqueles que tem o rosto de alguém na língua. Isso é muito marcante pra mim, da marca colocar o rosto de alguém nessa parte do tênis. Assinar e desenhar um tênis, escolher as cores dele, isso é tudo muito legal, mas uma marca botar a sua cara alí na linguinha é muito foda. Eu gosto muito das histórias, é o que mais me atrai.

E em relação a esse negócio da Supreme, acontece com várias outras marcas. Tem momentos e momentos que pessoas começam a usar um produto, isso faz com que outras pessoas queiram participar desse universo, desse momento, desse comportamento. Acho legal e válido da Supreme que eles não criaram a marca com esse intuito, é uma marca true e que obviamente chega nesse momento querendo aproveitar uma oportunidade de mercado, pra continuar alimentando essa história. No final do dia ela é uma marca, é uma empresa que tem funcionários e que tem que gerar dividendos para os acionistas. Mas é uma marca true com muito significado, não é atoa que o Mark Gonzales tá lá um bilhão de anos, o skatista mais true que existe.

As pessoas podem dizer que o tênis do Kanye West não tem história, beleza. Obviamente não porque o tênis foi criado há um ano, mas o cara tem. Ele criou alguma coisa, ele tem um impacto inegável na cultura como um todo – de tênis, na música, moda, de comportamento. Ele é produto de vivência, idéia, experiência, pensamento, vejo como sendo a mesma coisa da Supreme – não desmereço quem gosta e quem fica doido pra comprar porque admiro a marca e toda sua história.

E qual a sua relação específica com esse New York SPZL?

Lembro que antes de eu entrar na Adidas, já sabia da existência da Spezial mesmo antes de ela virar uma linha. Spezial é um modelo de tênis da Adidas que ficou muito clássico como um modelo de handebol, com várias versões no fim dos anos 90 e começo dos anos 00. Ele era um puta tênis grandão, seguindo aquela moda de tênis mais estruturado, de tecnologia mais visível. Esse nome batizava um tênis e uma coleção de um cara chamado Gary Aspden, um inglês que trabalhou na Adidas nos anos 90 e depois virou um consultor. Ele era um mega conhecedor da marca, tinha uma puta coleção e juntava outros colecionadores, ele era um ponto de contato do universo da Adidas como um todo. Uma história legal dele é que foi provavelmente o cara que descobriu a Bape e trouxe para o ocidente, isso em 2003. Ele viu o que estava acontecendo no Japão e foi o cara que fez a ponte Adidas x Bape para lançar a primeira collab, que é uma série de Superstars que hoje são tênis muito valiosos.

Conhecia essa história e achava muito legal. Quando entrei na Adidas em 2013 já sabia que Spezial viraria uma coleção. Achei muito legal o conceito dele de pegar tênis do passado e recriá-los da forma mais fiel possível – de pegar roupas, olhar para designs, gráficos e desenhos do passado e reinterpretar isso para uma moda atual com um lance mais contemporâneo.

Em fevereiro de 2015 eu estava indo pro Rio de Janeiro para um evento e quando pousei me mandam uma mensagem “Cara, você tem que ver isso”. A Adidas tinha acabado de lançar um vídeo que contava a história do Gary e um grupo de pessoas indo até a  Argentina, para conhecer uma loja aparentemente intocada de coisas antigas da marca. É a primeira parte da série Sole Searching in South America, que conta a história da loja do Carlos, deles indo até lá e etc. No começo desse vídeo eles mostram um cara da Adidas abrindo um e-mail com o título “Only in Argentina”, que depois descobri que quem enviou o email era um cara que trabalha com a gente lá, um alemão que faz parte centro de criação do Brasil. Ele estava fazendo uma viagem pela Argentina e um cara de lá falou “Tenho que te levar em um lugar” – ele conheceu a loja e logo em seguida mandou o e-mail para os caras falando “Vocês têm que vir aqui urgentemente”.

A loja do Carlos já estava no mapa dos colecionadores, muitos Japoneses conheciam, tinham uns fóruns muito específicos de Adidas que já tinham esse conhecimento. Aliás, a gente acha que no Brasil tem um potencial de achar um lugar que tenha algo parecido. Tinha fabricação de Adidas aqui décadas atrás, muito mais de vestuário, mas fabricavam uns tênis também. Assim como na Argentina tinha uma produção muito grande e a gente acha que no Brasil é possível achar um galpão ou estoque de coisas perdido por aí.

Enfim, vi esse vídeo e aquilo me mexeu de uma forma super legal. No semestre seguinte, estava pra sair um vídeo novo também, sabia também que eles estavam criando um tênis com o Carlos. Por acaso marquei uma viagem pra Argentina com a minha mulher decidimos tentar ir na loja. Fiz um contato com uma pessoa que trabalha na Adidas da Argentina e ela me levou até lá. Entramos juntos, peguei duas cadeiras e sentei junto com o Carlos para conhecer a história dele. Foi muito legal ver grande parte da história da Adidas lá na loja e ver inspirações de diversos modelos que depois viriam a ser coisas atuais; ver as roupas e os tracksuits que vinham todos dentro de caixas, tudo fica empilhadinho lá.

O vídeo novo ia sair na semana seguinte, mas eu já tinha foto do tênis, o Carlos comentou que eles já tinham chegado e vi  em uma das prateleiras. Peguei o tênis, achei incrível e falei pro Carlos que queria comprar, mas ele já me disse “Não posso vender, o lançamento é dia tal, não posso vender”, ao mesmo tempo dele me perguntando o quanto que achava que ele deveria vender os tênis (risos). Durante a conversa, que durou 1h30, duas ou três pessoas bateram na loja pra entrar e perguntar o preço das coisas, mas ele não demonstrou o menor interesse em vender. O cara perguntava e ele chutava uns preços absurdos pra qualquer coisa (risos). Vi também que ele não estava muito preocupado em me vender esse tênis novos, mas eu queria muito esse NY Spezial.

Acabei não comprando o tênis, voltei pro Brasil, mas mantive contato com o Cristian – que é um moleque que ajuda ele a organizar, limpar, coisas gerais da loja. É um cara que sempre gostou de Adidas, tem uma coleção legal. Entrei em contato com ele perguntando se conseguia me arranjar o tênis, ele falou que ia ver com o Carlos e ficou nisso. Um ano depois ele me mandou um e-mail “Conversei com o Carlos, ele lembra de você e está interessado em vender o tênis pra você”, topei na hora. Por sorte eu estava indo para uma reunião no Panamá e essa minha amiga da Argentina também ia para lá, pedi pra ele deixar o tênis com ela e peguei pra mim logo no primeiro dia que a gente se viu. Quando fui ver, a caixa era numerada e estava autografada pelo Gary Aspden, Robert Brooks, Mike Chetcuti e pelo Ian Brown que é vocalista do The Stone Roses, que são os caras do Spezial.

O tênis é super bonito. É realmente uma versão do de antigamente, a palmilha é igual à original, tem o rosto do Carlos na língua, o tênis é com as cores da bandeira da Argentina. É um puta tênis legal, tem muita história e isso eu aprecio bastante. O Carlos tinha uns 30 pares para vender, pelo que eu sei, a loja dele era o único lugar da América Latina que tinha o tênis, na Europa teve uma distribuição super pequena também, acho que não foi para os EUA. Ele era um tênis especial em homenagem ao Carlos.

Adidas New York SPZL ‘Carlos’
Dono: @savone
Comprado: 2016