FOTOS POR PEROLA DUTRA

“Me chamo Felipe, tenho 26 anos, estudei moda por 2 anos e meio e agora estou para me formar em administração. Sempre fui apaixonado por tênis, moda no geral, mas tênis é o que me chamava mais a atenção. O primeiro Nike que notei foi no prézinho, um todo preto com o swoosh branco que tava no pé de uma menina. Cheguei em casa louco falando para minha mãe sobre o tênis que tinha visto e ela me deu uma chuteirinha da Topper – ela tinha entendido errado… não era isso que eu queria, mas tudo bem né (risos). Desde o pré o gosto só foi evoluindo, até que quando eu tinha 13 anos comecei a usar um Air Max. Quando você depende totalmente dos seus pais você não consegue ficar comprando tênis que nem louco, então era um a cada 6 ou 7 meses.

Em 2014 fiz uma viagem que voltei com uns tênis diferentes, mais casuais tipo da Common Project e comecei a usar por aqui, fui para vários lugares e sempre tinha gente perguntando de onde era. Até teve um dia que estava no mictório e o cara do meu lado veio me perguntar “não pude deixar de perceber…” e fiquei meio em choque (risos). Isso me chamou muita atenção porque o cara nem esperou eu fazer o que tinha que fazer né. A partir desse momento eu coloquei na minha cabeça “vou fazer tênis” sendo que eu não sabia absolutamente nada sobre o assunto.

Desse momento pra cá foi muita pesquisa, já que não sabia como executar, não tinha ninguém que me apresentou alguém que sabia de alguma coisa. Peguei folhas de sulfite, coloquei várias fábricas e fiquei ligando pra Franca sem parar. Lembro que fiz três folhas daquilo e nenhuma aceitou, nenhuma; só tinha um cara que importava que queria me conhecer, mas no final das contas ele nem me ajudou em nada. Fiquei meio desestimulado, achei que não era pra ser. Até que achei um telefone na internet, liguei pro cara que era um representante de venda de umas marcas bem populares e ele falou que conhecia uns caras que poderiam me ajudar – a história começou aí, foi o primeiro contato real com forma, sola, couro, desenho e a partir disso nós desenvolvemos três tênis.

Era na época da Bang ainda, não rolou porque eles pegaram os desenhos e colocaram pra vender em outras lojas – aliás isso é o que mais tem em Franca. Saí de lá e com o pouquinho que aprendi comecei a procurar fábricas aqui em São Paulo, porque em Franca eu não tinha controle de produção, que é um processo que você tem que estar muito em cima. Achamos um local aqui em São Paulo e a gente dividia a produção, metade era aqui e a outra era lá na fábrica, cortava o couro, fazia o molde, nós desenvolvemos as nossas formas, o solado ainda é do mercado mas essa é uma questão que demora um pouco mais. Esse foi o momento que mais aprendi, que eu soube de modelagem, sola, como montar um tênis, cola, costura – falo que foi tipo um estágio pra mim.

Depois do segundo lançamento da Bang eu não estava mais usando os meus tênis, estava meio desestimulado, fiz uma auto reflexão pensando no porque queria ter uma marca de tênis, literalmente voltei ao início. E esse foi o momento de procurar um lugar, com mais qualidade, investir um pouco mais e ai me surgiu a oportunidade de fazer em uma fábrica com uma qualidade bem melhor lá em Franca. Mas foi um outro processo, pois fiz um contrato com ele de exclusividade do modelo, fiquei lá no período de produção.

Aquele período da Bang, como um estágio, foi muito bom porque consegui chegar na fábrica e falar de igual para igual com o dono – a respeito de forma, costura e etc. Foi difícil mas ao mesmo tempo eles ficaram abertos e viram que não era apenas uma aventura.

Então meu mundo de fazer tênis surgiu dentro dessas duas experiências: antes da PACE e depois. Foi muito, muito, difícil, foi um processo de três anos. O site da PACE só foi lançado em dezembro mas o projeto tá rolando desde maio de 2017.

PACE tem algum significado?

PACE foi da época que eu fiquei meio desestimulado da Bang, aliás eu não gostava desse nome, não sei porque colocamos (risos). Mas eu era muito apressado, queria fazer as coisas, queria fazer os modelos aqui em São Paulo sendo que não rola fazer uma sola de EVA montada a mão – aqui não tem essas coisas e quando tem sai uma porcaria.

Queria tudo pra ontem e não é assim, principalmente tratando de tênis – a pior coisa pra produzir é o tênis, é muito difícil e demorado, envolve muitos processos até ficar pronto. E a PACE surgiu disso: além de eu ter aprendido as técnicas com a Bang, aprendi a ter mais calma e paciência. Coisas boas levam tempo, então tive que estudar pra caramba pra fazer uma sola dessas, procurar um bom couro, um cadarço diferente.

PACE significa ritmo – é o ritmo que tem que levar pra coisa ficar boa.

O nome é fácil de recordar por ter quatro letras e a gente colocou esse “E” ao contrário justamente por isso, porque falando das outras marcas como a Nike, Adidas e Puma, eles estão lançando tênis atrás de tênis e o nosso é bem mais artesanal, então o “E” vai de contra essa indústria que faz de monte e sem parar. Contra o rítimo do mercado. Os produtos tem mais qualidade, feito por pessoas locais.

Qual a melhor parte de viver do que você ama?

É bem difícil, a gente só vê o dinheiro saindo e pouca grana entrando; se bem que no lançamento da PACE foi surpreendente, conseguimos segurar bem as pontas, até que achamos que ninguém ia comprar os produtos mas foi super bem. A festa era pra celebrar a coleção, não foi evento para promover venda, foi pra gente ouvir um som, tomar uma cerveja e celebrar a marca. Só que vendeu muito bem no dia e no site também.

Mas voltando a pergunta, é só pedrera, é mais notícia ruim do que boa, só que as boas compensam as ruins. A gente acorda já planejando as coisas – tem o Sergio que trabalha 3 vezes por semana aqui, o Anderson, a Ju que cuida do financeiro, se não fosse por todo mundo a gente só iria lançar lá pra frente. Muita gente já ajudou muito e fez toda diferença. Querendo ou não, é uma luta constante pra poder se situar no mercado super agressivo de tênis, sempre enfatizo isso porque quando comecei a pensar na idéia, era o momento em que os tênis casuais como Del Toro, Common Project, até a Gourmet, todos esses tênis que tem aquela sola caixa e uma pegada high-end mas também com uma pegada muito streetwear. Isso tava muito em alta por volta de 2011, 2012, 2013 até 2014 – que foi quando tive essa ideia, que era quando eu estava usando esses tênis. No final de 2013 para 2014 a Adidas lançou os NMDs – foi quando percebi que tinha perdido o timing. A Adidas e a Nike souberam aproveitar muito bem esse gap do casual, porque tinha um monte de marca pequena que estava comendo o mercado deles, mas eles souberam aproveitar muito bem – pegaram esse lance do casual e colocaram toda a tecnologia monstruosa que eles tem e ainda por cima, fica muito bonito e com muita qualidade.

Vivemos num mundo super globalizado, com marcas gigantes que dominam o mercado – o quão difícil é criar o seu espaço dentro disso tudo?

Você tentar isso para os amantes dos tênis é passar um pouco de história, de qualidade, como é feita uma sola artesanal – que é a junção de uma placa de EVA e uma de borracha que sai isso, uma sola. Essa sola a gente desenvolveu o desenho e estética da sola, sendo que esse foi um processo comigo, com a fábrica e o pessoal que só faz sola. Eles fazem as da Öus, da Osklen e por aí vai – é um pessoal muito bom lá de Franca. Pra gente se situar nesse mercado, é pro cara que entende de tênis querer um negócio de qualidade, um produto mais elegante e não tão esportivo.

Não tem como você bater de frente com as outras marcas. Antigamente a Nike e Adidas pegavam as tendências das marcas mais high-fashion como DiorBalenciaga – mas agora tá ao contrário, a Balenciaga fez um NMD, inverteu os papéis… pra você ver a força que cultura sneaker tem. Na minha opinião isso só vai aumentar: filas sem parar, collabs rolando toda hora com artistas, marcas, designer – essas são coisas que sempre existiram mas hoje tem muito mais força.

Quais são suas marcas e designers preferidos?

O que gosto muito é um cara chamado Mark Gainor, ele não está no livro, não saiu em muitas matérias mas acho que ele deveria ter mais holofotes. Tem uma marca que os sneakerheads nem curtem muito, mas eu amo os designers, que chama Native Shoes, a marca bomba demais, todos os tênis são veganos. E ele fez a marca ser o que é hoje, ele era o designer por trás de todos os desenhos, ajudou o Jon Buscemi na Gourmet, o Mark era o cara atrás do design. Gosto do Ronnie Fieg da Kith, o rei das collabs, tem uma mente muito boa e criativa para negócios. Sou fã também do Tinker Hatfield, uma verdadeira lenda, se tem alguém que todo mundo pode aprender, é com ele.

Quais são os planos da PACE para o momento? E para o futuro?

Para esse ano a gente quer fortalecer mais o nosso nome, que mais pessoas conheçam os nossos produtos. Vamos dar uma reduzida nas quantidades para a coleção porque fizemos uma muito vasta – começa com os tênis com as silhuetas clássicas dos anos 70; depois vem os trainers que não foram feitos pra corrida mas tem essa pegada mais esportiva; tem bota e tem um tênis mais retrô dos anos 90 inspirado no basquete e Air Jordan 1. Nós vamos deixando esses produtos para galera ir absorvendo, para galera ver, quem sabe a gente não muda uma cor ou outra. Agora falando de uma PACE mais devagar, queremos focar numa parte dos acessórios bem legais e queremos fazer umas collabs esse ano.

Agora o plano pra daqui 5 anos é virar uma marca reconhecida mundialmente, para isso temos que investir em uma sola minha, totalmente própria. Isso é muito caro mas tudo é possível.