Gabi Cajado é estilista, diretora de arte e produtora – mas isso não limita ela a nenhuma atividade. Gabi também é criadora da marca Cajá – roupas pensadas para as mulheres, não na maneira que a sociedade a enxerga, mas sim de como ela a enxerga e sente. O ensaio foi com dois modelos de Air Force criados e customizados por ela. Na entrevista ela nos contou mais sobre sua marca, sobre suas inspirações e como foi o processo de criação desses AF1s.
FOTOS POR PÉROLA DUTRA
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“Meu nome é Gabriela Cajado, recem formada em moda mas penso além. Sou estilista e diretora de arte, costumo abranger bastante o meu trabalho, acho que meu foco não é só moda, nem design, estilismo no geral, gosto de pensar no panorama maior. Moro em São Paulo, vivo em Salvador – faço bastante essa ponte, tem muito a ver comigo.

Eu tenho uma marca, chamada Cajá. Criei logo quando me formei na faculdade e ela basicamente traz toda a minha essência, o que eu acredito e o que sinto que falta principalmente no mercado brasileiro – que é uma roupa pensada para uma mulher, mas não na maneira que a sociedade enxerga a mulher, mas sim como eu enxergo e sinto. Principalmente no mundo do street style, sportwear, aquela roupa bem urbana.”

TER ESSA BRASILIDADE, É UMA COISA QUE QUERO TRAZER BASTANTE PRO MEU TRABALHO E PARA MINHA MARCA. SINTO MUITA FALTA DE REFERÊNCIAS BEM LOCAIS, ACHO QUE AS MARCAS EM GERAL PROCURAM MUITAS REFERÊNCIAS QUE SÃO TENDÊNCIAS LÁ DE FORA, SENDO QUE TEMOS MUITO O QUE EXPLORAR AQUI DENTRO.

De onde vem o nome Cajá?

Cajá vem de Cajado e também é o nome de uma fruta típica no Nordeste – então tem esse link com o meu sobrenome e o fato de ter essa brasilidade, é uma coisa que quero trazer bastante pro meu trabalho e para minha marca. Sinto muita falta de referências bem locais, acho que as marcas em geral procuram muitas referências que são tendências lá de fora, sendo que temos muito o que explorar aqui dentro.

Eu busco essa tropicalidade no meu trabalho, é uma essência que está muito em mim, gosto muito desse clima de praia mas ao mesmo tempo sou muito urbana – e isso é uma coisa que sinto muita falta principalmente no mercado sportswear, streetwear e feminino.

Como foi o processo de customização dos Air Forces?

O Air Force 1 foi o meu primeiro tênis entrando com essa consciência do universo sneaker – foi o primeiro tênis que comprei sabendo que aquilo fazia parte desse universo. Em 2017, durante o meu TCC, estava tendo o mês do Air Force e foi uma coincidência porque eu queria fazer uma customização em tênis – fazer uma intervenção em um produto que já existisse e não criar do zero. Então surgiu essa oportunidade, a Nike me apoiou dando os pares.

Foi bem bacana, porque em paralelo com o meu TCC aconteceu o evento para celebrar o modelo – 35 artistas de São Paulo foram convidados, eu fui uma delas, pra customizar o AF1 e foi perfeito, foi um link na hora certa. Fiz um modelo no dia da customização e pro trabalho da minha marca eu fiz mais dois, então no total foram 3 criações. Fez muito sentido para mim porque foi o meu primeiro tênis, eu tive essa memória de resgate da minha origem, porque eu comecei a fazer isso, toda a minha ligação com o universo do sportwear e streetwear.

E o legal foi que o Air Force foi o meu primeiro tênis, mas eu não usava ele, acabou ficando no meu guarda-roupa porque eu gosto muito de Air Max, piro nos 95s, 97s, TNs, e acabei deixando o Air Force de lado. Só que quando chegou a semana do Air Force, teve todo esse movimento, fiquei pensando em qual tênis eu deveria customizar e vi que o AF1 fazia total sentido, aí chegou o evento e rolou. As coisas não acontecem por coincidência e sim porque elas tem que acontecer.

Quais foram suas ideias por trás dessas customizações?

O de dois andares surgiu a partir de dois insights: primeiro pensei no momento quando vamos guardar os tênis, que são novos ainda e você coloca em cima dos outros, uma pilha de tênis. Eu tinha muito essa memória, de vários tênis, um em cima do outro jogados. Então quis trazer essa sensação, de um tênis em cima do outro. Em paralelo a isso, estava rolando também o custom da Off-White do The Ten, o Virgil mudou o cabedal de um tênis para com o solado de outro – então pensei, porque eu não faço um Air Force com um Air Force? Como se tivesse mudado, só que não, só coloquei um em cima do outro. Então juntou tudo isso e rolou super. Todo o processo foi bem manual, fiz tudo a mão.

Já o segundo modelo, eu já tinha uma vontade de cortar um tênis mas nunca tive coragem – ninguém tem né (risos) – peguei um no dia do custom e pensei “Já pintei, já coloquei um em cima do outro, vou aproveitar esse rolê pra fazer uma coisa bem diferente”, cheguei já atacando com a tesoura e cortando. Ele é bem simples, virou um mule, fiz o cadarço manual e foi isso.

Qual sua relação com tênis em geral?

Sou total Nike, desde o meu primeiro tênis. Já tive de outras marcas mas a minha relação com o design da Nike é muito forte, gosto muito dos resgates que eles fazem aos tênis antigos sobre uma visão atual; todo o universo da bolha do Air Max. Pra mim a sacada mais genial foi o VaporMax, que basicamente é a mesma coisa – a bolha – só que totalmente externa, além de mudarem o nome de Air Max para Vapor. É muito uma questão contemporânea, de você só adaptar ao mundo que a gente está com a ideia que é a mesma – é a mesma essência, a bolha. A Nike tem essas sacadas que eu acho muito foda.

Quando e como sua relação com os tênis começou?

Bom, acho que morando em São Paulo, conforto é a palavra chave, mobilidade também. Como mulher, já usei todos os tipos de sapatos possíveis, mas descobri que era possível usar tênis, que as pessoas usavam pra fazer esportes ou dar um rolê de boas, que eu podia usar aquilo como uma ferramenta de estilo e ao mesmo tempo estar confortável, me sentir parte do ambiente urbano. Isso é muito uma coisa de pessoas que moram em grandes cidades. A época que comprei o Air Force – o meu primeiro foi o high, ele não estava sendo tão usado, mas a silhueta dele é muito incrível, é um tênis muito perfeito no pé. Depois estudando a história dele e tudo mais, descobri que veio do basquete, que na época que lançou nem foi um tênis de sucesso, só depois que ele estourou.

Além desses Air Forces, quais são os seus tênis preferidos? Qual você quer muito ter?

Eu quero muito o VaporMax Plus e o Air Max 93 – fiquei muito feliz que ele voltou, era o primeiro da minha lista, ninguém tinha o 93, era aquele modelo que você mal via. Outro que eu quero muito também é o Nike Zoom Spiridon, que eles fizeram em collab com o metrô de Londres. Um amigo meu me mostrou e eu tinha achado muito feio, mas hoje eu quero muito. (risos)

Nike Air Force 1
Customização: Gabriela Cajado
Ano: 2017
📸 Perola Dutra