“João, 33 anos, neste momento faço estratégia e planejamento para eventos. Tive uma relação com o Judô durante 20 anos e hoje jogo Rugby; minha vida é basicamente passada entre trabalho, esporte e os amigos.”

Porque você escolheu esse local para o ensaio?

Aqui é o Bairro Alto de Lisboa, uma zona histórica da cidade, uma zona que a maior parte das pessoas só conhecem pelos bares que tem, mas que na verdade é muito mais importante para a cidade do que isso. Esse bairro sobreviveu ao terremoto em 1755 – sempre foi uma zona da vida boêmia, antigamente eram as meninas e os marinheiros, mas hoje em dia está a passar por uma reformulação – e esse local é essa transformação. Aqui é um bar com um estacionamento bem moderno, em uma zona com prédios de 500 anos.

Mas é interessante ver que mesmo com todas essas mudanças em cidades como Lisboa, Paris, Barcelona, os bairros históricos continuam tendo esses bares e a vida boêmia – não se transformando só em um bairro residencial de gente rica.

Eu moro e trabalho aqui, minha relação é bem forte, faço a minha vida nesses metros quadrados (risos).

O quanto o esporte representa na sua vida?

Tudo. Tudo porque é o esporte que me dá os amigos, como o Pedro e o Tomás. Para mim é uma forma de estar, é uma forma de encarar a vida – conheci minha namorada e futura mulher por meio dele. Acho que o esporte, quando bem dado e quando você faz bem é a melhor escola de valores que se pode ter na vida.

Você pode ter uma família com pais separados e irmãos que não se dão bem, mas se você tiver um grupo que é ligado por um objetivo no esporte – por ganhar, ou só por praticar – que te passa bons valores, você vai transmitir esses bons valores.

O rugby tem coisas que o Judô não tem, além de ser praticado ao ar livre, é um esporte efetivamente de equipe, que necessita de cada elemento da equipe para atingirmos um objetivo conjunto. Então na minha vida foram dois esportes em momentos diferentes, que me deram muito e continuam a me dar muito, é o que me dá amigos e que faz parte da minha vida, mesmo quando eu deixar de fazer eu não quero perder o contato.

Para você, existe alguma ligação entre design, esporte e sneakers?

Existe alguma coisa em comum a partir do momento que não haveria tênis se não existisse o esporte. Então no princípio de todas as marcas, qualquer que elas sejam, tá lá o esporte, sempre. E também o design acabou por estar também, já que ninguém faz tênis só pra ter um par, você faz tênis para vender – só vende se for bom, só vende se for bonito e quando não tem que ser bonito, tem que ser bom. Assim você junta uma série de coisas: O esporte, design de produto e design de moda.

Então acho que tudo isso se junta na minha vida, mesmo com essas coisas vindo em momentos diferentes. O gosto dos sneakers veio pelo Michael Jordan obviamente, lembro de ver ele jogar, de ter cartas dele e começar a aprofundar o do porquê os Airs Jordans serem o que são. Você começa a falar sobre isso, ler sobre isso e hoje em dia a informação se espalha rápido. No início e no final, design e esporte vão sempre ter uma ligação com sneakers.

Como é cultura sneaker aqui em Lisboa? E em Portugal?

Conheço a cultura mas não sou ativo, a galera é muito mais ativa que eu. Antes de tudo, não sei como é no Brasil, mas aqui em Lisboa é uma cultura super americana, e que vai ter as mesmas ligações que se tem no resto do mundo. É muito ligada à música, ao mundo das tatuagens, das artes e das bicicletas fixas. Temos um problema grande em Portugal, porque o mercado é muito pequeno – que foi um pouco arrematado com vendas onlines, já que há 10 anos era muito difícil encontrar tênis que se via nos EUA, eles não chegavam aqui. O que se passou agora com os Yeezys, que conseguiram chegar alguns aqui em Portugal, há 10 anos isso seria impossível.

Mas agora está diferente, os preços dos tênis estão mais acessíveis como quase tudo e acho que o tem muita gente com coleções excelentes, sobretudo fazendo questão de manter e de disseminar a cultura. Vi uma frase outro dia: “I like shoes, whatever I’m superficial”, cada um gosta do que gosta e não temos que julgar. Temos uma boa cultura, homens e mulheres que estão construindo boas coisas com isso, e dá para sentir que está crescendo, tendo o Bairro Alto como impulsionador dela. A questão não é só ter tênis, e sim do porque dos tênis e o que isso te traz. Para mim é assim: se eu gosto de um tênis eu vou comprar 3 iguais, porque eu não preciso de outros – é uma adoração.

Qual sua relação com sneakers em geral?

Conforto. E mais do que conforto, é a única coisa que você veste. Hoje em dia está na moda da galera arregaçando as calças para mostrar os tênis, sendo que antigamente você cobria e só mostrava uma parte. É um objeto que um: Ele tem que ser confortável; e dois: Marca a personalidade, seu estado de espírito.

Eu já comprei tênis horríveis, usava aqueles bem esportivos tipo o Adidas X350 amarelo e azul. Ele custava 15 dólares, então valia a pena. Quando eu os usava, tinha um amigo que falava “só tu pode usar isso”. É uma questão de atitude, o que você calça nos pés é a atitude que você tem na cabeça.

Você se considera um sneakerhead?

Ah não… não, não. É como eu falo, não é porque você tem 100 discos que isso te faz um colecionador, mas se você tiver 100 discos bons, isso te faz um colecionador. Não me considero, compro porque gosto da estética e sei que são confortáveis. Nesse sentido eu não me considero um sneakerhead e acho que cada vez vai ser mais difícil eu ser.

Qual sua relação específica com esse Reebok Sole Trainer?

A história é: Nunca saí de noite com ele, o que é difícil porque o cara tem que escolher os sapatos mais de boa porque eles ficam todos cagados. Tenho esse tênis desde 2009, foi comprado em uma loja aqui no Bairro Alto que já fechou. Ela só vendia tênis e tinha os modelos mais diferentes das marcas e que não eram fáceis de achar. Vi esse Reebok, tinha nesse tom de azul e em tom de roxo, curti e comprei.

Esse tênis tem uma particularidade – eles são impermeáveis – então são quentes pra caralho (risos). Não dá pra usar no verão, mas eles ficam muito bem com shorts, mas enfim, por causa disso eu usava pouco. Para você ver, tenho esse tênis a quase 10 anos e ainda está bom, a sola está nova até. A história é essa, um tênis que gosto muito mas acabo por não usar por ser muito quente.

Aparte disso, acho que a Reebok é uma marca clássica e importante, que perdeu muita força, mas tem uma grande proteção felizmente no Reino Unido, onde as pessoas tem muito carinho pela marca. Agora está ganhando força de volta no mercado americano porque entrou na NFL. Mas é uma marca que comprova que a moda é cíclica porque eles não se reinventaram, eles mantiveram os mesmo modelos, passaram pelos seus momentos de baixa e agora subiram outra vez com modelos que há 20 anos faziam furor.

Os tênis marcam essas tendências – quem que pensava usar Adidas Gazelles três anos atrás? Estava completamente fora de moda e agora está de volta de novo. Se você prestar atenção, nas histórias dos tênis, nas edições e tudo que sai, você consegue ver a história da moda. Não sei se você se lembra mas a Puma teve um boom quando conseguiu patrocinar a equipe da Jamaica – até lá ela nem existia, eles tiveram um boom de vendas com os tênis mais feios de sempre – misturando duas coisas, os tênis mais feios e os mais desconfortáveis. Eles conseguiram, a galera usava aquilo para ir jantar!

A história das marcas que começaram a ser esportivas e com o tempo ganharam muita força nos tênis é muito interessante. Se você pesquisar a história da Nike, da Adidas – que está muito ligada com a da Puma – da Asics, da Onitsuka Tiger, de todas elas. Todas essas histórias são muito ligadas com a história do design, da arte e da moda. O que seria de nós se não tivesse aqueles sneakers estranhos da década de 90 da Adidas?

Reebok Sole Trainer
Dono: @doutortaveira
Ano: 2009