“Meu nome é Marcelo (Mad) e tenho 36 anos. Sou gerente da Your ID na Benedito Calixto e gosto um pouco de tênis (risos).”

Mad, qual a sua relação com tênis no seu dia-a-dia, o que ele representa pra você?

O tênis representa muito pra quem gosta de verdade sem ter nenhum status. Você tem tipo um amor pelo tênis, ele te faz bem. Comprar, pesquisar, ver, é tudo muito foda. Todo dia estou lá pesquisando e olhando, é normal. Faço isso só porque gosto.

Você sabe dizer quando surgiu isso, quando você começou a gostar mesmo?

Eu compro tênis a muito tempo, comecei a comprar não pra ser um Sneakerhead como os caras falam, mas sim porque gosto. Aí você compra um tênis pra andar de skate e percebe que ele tem uma história e que um cara teve todo um carinho pra fazer ele. Você percebe que tem um bolso escondido, tem um cadarço extra, que tem um couro melhor, cara tudo isso encanta. Já pegou um tênis e passou a mão no suede pra ver ele mudando de cor? (risos). Isso é foda.

De 2000 pra cá teve o boom dos Nike SB, as marcas começaram a ver que esse mercado dava pra expandir muito mais, era muito mais do que um tênis só pra andar de skate, muito mais que um Air Jordan, muito mais que tudo isso – eles viraram produtos históricos.

Você tem alguma relação com o modelo Nike Cortez?

O Cortez é um dos tênis mais clássicos da Nike, acho que a maioria do pessoal faz um link desse tênis com o filme Forrest Gump. Ele usa o colorway original e até ficou conhecida como a cor do ‘Forrest Gump’. Esse tênis é muito cultuado pelos chicanos, é o uniforme dos caras, e tendo isso a Nike começou a fazer diversas cores – tem umas edições comemorativas fudidas do Cortez.

Esse é um tênis que remete muito a cultura latino-americana, bandas tipo Cypress Hill ou Psycho Realm, no clipe dos caras eles estavam sempre com o “uniforme”: calça jeans e Cortez, todo mundo usa! Legal porque era um tênis de performance, depois virou um tênis de linha só que com umas edições bem bacanas.

Eu queria ter mais modelos porque é um tênis bem casual. Falando de Nike, ela tem alguns modelos casuais mas não é tão tradicional como as outras marcas. E pra mim o Cortez é o modelo que mais se encaixa nesse visual que poderia chegar mais perto a outras marcas européias.

Você tem alguma história específica com eles, ou o corre que você fez pra pegar? Até porque eles são modelos bem exclusivos né.

Esses são os modelos do Mister Cartoon, as duas cores que eu consegui comprar quando o Twothousand e o Murinho trabalhavam lá na The Lab à alguns anos atrás. O Murinho fazia direto uns bate e volta nos Estados Unidos, porque até então não tinha tanto tênis no Brasil.

Eu dou muito valor, porque em 2006 ou 2007 um cara trazer um tênis desse pra revender no Brasil tinha que ter muito culhão pra fazer esse corre. Até porque não era todo mundo que conhecia ou comprava, era um mercado muito mais restrito e que você não tinha acesso. Por exemplo, as pessoas não iam na galeria do Rock, era impensável elas dormirem na rua pra comprar um tênis como fizeram recentemente. Quando foi o lançamento do Air Yeezy 1, ele ficou sobrando na Galeria porque ninguém tinha a moral de passar a noite lá, dormindo no centro da cidade pra comprar. Se pegar de 2010 pra trás era bem sinistro, ninguém tinha a moral de ficar no centro da cidade porque era tudo bem dividido: em baixo era o pessoal do Rap, em cima tinha o pessoal do Punk, tinha o bar dos Skins, e saía altas tretas na galeria. Hoje em dia qualquer um compra tênis lá, acho legal as pessoas terem mais acesso. Mas mesmo assim tem gente que reclama, que fala “porra mas não vem tanto tênis pro Brasil”. Esse cara não sabe o que era comprar tênis em 2005! (risos).

Nos últimos Pumas do Jeff Staple, ele teve a idéia de lançar cada cor de tênis em um continente para as pessoas retomarem o corre que era antes, por exemplo: você conhece alguém que está no Japão e você pede pra ele trazer o tênis com a cor que só tem lá.

Na última SneakersBR eles publicaram uma entrevista com o Koji, fundador da Atmos, e ele fala exatamente isso. Eue ele quis lançar um tênis só no Japão para que o pessoal viesse até lá pra conseguir. Porque na década de 90 o Koji ia até os Estados Unidos só para pegar o colorway.

É então, era isso mesmo. Só que para os caras era suave ir para os Estados Unidos, era fácil pra eles conseguirem visto, passaporte, mas e pra gente? Aqui é underground mano (risos). Era tudo pior porque brasileiro é taxado de muambeiro, de filho da puta, já tem todo esse estigma né.

Nike Cortez Mister Cartoon & Aztec
Dono: @marceloibaptista
Comprados: 2005
Tamanho: BR39/US8.5