FOTOS POR JULIO NERY

“Eu me considero um diretor criativo, que é basicamente criar coisas a partir de imagens – independentes de serem videos, fotos, backstage, até de não serem minhas imagens, enfim, o meu negócio hoje é criar, por isso que me considero um diretor criativo.”

Como foi sua trajetória de mudança do Rio de Janeiro até São Paulo?

Eu só vim. Eu trabalhava no jornal, peguei o meu seguro desemprego, três parcelas do FGTS, uma mochila, cinco camisas, três bermudas, minha câmera, muita força de vontade e vim. Eu não tinha o propósito de morar, trabalhar,viver e morrer aqui, mas eu pensei “mano, eu tenho que ir pra São Paulo, as coisas acontecem lá e aqui eu to ficando pra trás”.

Você começou a trampar com fotografia lá?

Na verdade eu nunca trampei com fotografia – isso sempre foi o meu hobbie, virou alguns trabalhos mas nunca foi algo que todo mês pagou o meu aluguel. Eu via como uma renda extra. A fotografia me deu muitos acessos do o que dinheiro, e pra mim acesso é mais valioso que dinheiro. Eu trabalho com vídeo-arte, edição de vídeo e foto, mas fotografia mesmo é o meu hobbie e sempre foi.

Porque você escolheu a cidade de São Paulo?

Porque São Paulo movimentava o dinheiro, tudo aqui é em movimento e as pessoas só falam de progresso. Se você trocar ideia com qualquer pessoa ela tem um projeto pra apresentar, tem algo pra te mostrar. Mas no Rio tá todo mundo médio, nos seus trabalhos, satisfeitos…mano, eu não estava satisfeito com as minhas coisas, nem aqui em São Paulo eu to, eu quero mais, ta ligado? No Brasil, São Paulo é o ponto que se conecta com o mundo.

Quais são suas referências na moda, estilo, fotografia, até de vida?

Ta tudo resumido no Japão – o país é referência de tudo. Vou dar um exemplo simples, no Dragon Ball Z o nº17 pra mim é uma referência de moda porque o maluco usa cropped, ta ligado? Ali eu já pego uma referência de alguma coisa. E também, as pessoas que mais me inspiram são os meus amigos – como o Julio Nery, o Chiquinho, eu tatuo na cara as coisas que meus amigos fazem. As pessoas que estão próximas de mim são as que me inspiram e o resto é o Japão. Eu mal consumo as coisas que vem dos Estados Unidos porque eu acho meio bosta, é tudo uma massa condicionada. No Japão é mais histórico.

Um dia eu vou morar no Japão – vou excluir as minhas coisas na Internet, fazer muito dinheiro lá e virar lenda. O pessoal vai ta “lembra daquele mano X que fazia isso e tals” e respondem “sei lá, esse moleque morreu, sumiu, sei lá” e eu vou estar lá no Japão, vivendo as coisas que eu amo.

Qual a sua relação com o tênis no geral?

As vezes você vai fazer sua roupa de acordo com o tênis que você ta usando, acho que tênis é tipo a base pra isso. Além disso, ele é uma extensão de quem você é, você usar o tênis de um estilista X que quem conhece sabe que você entende o conceito. Se você usar o tênis que todo mundo usa, que não tem uma história pra contar, as pessoas vão saber que você não tem nada pra falar. É isso, pra mim o tênis é uma extensão de tudo.

Agora de tênis que eu quero ter é esse Jeremy Scott no branco e o Bapesta – que é outro tênis que tem uma história, um conceito atrás dele. Ele foi lançado em um momento de guerra e os caras não podiam usar Nike porque era ligado com o capitalismo – aí os caras fizeram um Air Force só que da Bape.

E porque você esse Adidas Jeremy Scott para o ensaio?

O Jeremy Scott foi o primeiro tênis de marca que eu tive, os outros que tive era um Nike Cortez, que eu ganhei e fiquei usando por 5 anos. Mas de marca, marca, que eu digo que tinha um conceito, que eu vi em um desfile, eu vi o A$AP Rocky, Young Thug, Lil Wayne usando.

Eu sempre quis ter esse, então quando tive acesso foi bem foda. A base da Adidas me deu a oportunidade de pegar umas coisas lá e eles me perguntaram “O que você precisa?”, logo de cara eu falei “Queria esse tênis de 8 anos atrás” e eles tinham esse exatamente do meu size! No primeiro dia que usei ele, tava tão feliz que fui num show de Rap, entrei em um bate cabeça, já zuei o tênis todos – botei pra moer desde o início. Viajei de avião pela primeira vez com esse tênis…eu vejo vários bagulhos que aconteceu com esse tênis, foi uma conquista muito sabe. Esse Jeremy Scott é bem raro, você não encontra por aí hoje um, por mais que na época saiu em um preço acessível e tals.

Eu sou muito fã dele, ele representa muito, ele é bem foda, ele comia o pão que o diabo amassou e agora ele dita moda no mundo inteiro.

Porque você tirou as letras do tênis?

Teve um dia que eu queria um tênis básico todo preto…aí foi isso, meti a gilete. Eu estava saturado das letronas e o molde desse tênis é muito foda, ele lembra um Air Force. A galera pensa que é um Superstar de cano alto, mas a Adidas não faz tênis assim, eles só fizeram pra essa parceria com o Jeremy Scott.

Você tem alguma história vivida com ele?

Eu já bati nos outros com ele, tá ligado? (risos). Na verdade eu defendi um amigo e acho que se eu não tivesse com esse tênis eu ia me machucar. Eu chutei o cotovelo do maluco lá e aí o tênis segurou a barra. De história foi só isso, o resto foi normal mesmo.

Adidas Originals Jeremy Scott Letters
Dono: @1993agosto
Ganhado: 2017
? @julioneryy