“Rafael da Cunha Narciso, curitibano, brasileiro, 37 anos, pai de família, designer empírico, empresário meia boca e sapateiro – abençoado pelo São Crispim”

Rafael, qual a sua relação com tênis no geral?

Tirando capitalismo não tem nada, porque tênis é capitalismo puro. Querendo ou não o tênis é uma demonstração do seu momento social, tá ligado? Da sua posição social. Você quer um tênis novo, você quer ficar legal. Qual tênis você tem, quantos você tem, ele demonstra a sua posição social. É capitalismo puro. E não é de hoje, sempre foi assim.

O tênis como um item básico para você não machucar o seu pé é uma coisa bem simples, mas como parte da sua roupa ele é muito importante. E isso mostra a sua posição cultural também, porque se você está preocupado com certas coisas, você não usa qualquer tênis. Só pode falar que ele é superficial quando você só analisa isso brevemente, porque ele é muito mais do que só um item para você cobrir o seu pé pra você não pisar em uma pedra, tá ligado? E na real, se fosse só por isso ele não serviria, porque por exemplo – eu gosto muito de correr e eu corro descalço cara, eu faço barefoot running. Então essa função básica do tênis às vezes não se aplica pra mim porque eu sei correr e andar na rua descalço.

Então pra mim o tênis tem dois estágios: no primeiro momento, capitalismo puro. No segundo momento quando já é o seu tênis, ele faz parte de você e da sua vida. Ele desenvolve uma parada muito pessoal nas pessoas, porque ele fica um período o suficiente na vida delas onde as coisas acontecem e mudam – seja 6 meses, um ano, dois anos. Então a parada de “não pisa no meu tênis” ou “você não tá no meu tênis” (traduzindo literal do inglês), a real parada disso é no sentido de você não tá sentido o que eu estou sentindo, você não tá pisando como eu to pisando. O tênis te leva para os lugares.

Agora falando no aspecto de design, quando começamos a falar nesse mundo, a gente coloca muita cultura dentro dele, tem um designer trabalhando para a construção dele, tem os sapateiros que estão fazendo eles, tem quem participa – um tatuador, um DJ e etc. Então quando você pega um tênis pelo aspecto cultural, acaba sendo um objeto que pode te representar, pode representar um grupo de pessoas. E quando a gente faz uma colaboração ou qualquer tipo de parceria, a gente tá representando coisas nada a ver com o conceito básico do tênis, e sim com o que aquilo tá representando na vida delas.

Tirando todo essa questão de capitalismo e consumismo, porque tênis faz sentido na sua vida?

Ele parte do princípio básico capitalista, mas depois ele se integra na sua vida como uma parada maior. E essa transformação de um tênis novo para um tênis usado, cada marca e amassado que tem é uma experiência vivida de verdade pelo seu corpo. Diferente de qualquer item do vestuário, esse é o que mais sofre influência do seu corpo. Você fica em pé em cima dele, a jaqueta não entorta ou fica larga, mas o tênis sim. 

E qual a sua relação em específico com esse Phibo?

Existem diversos tipos de tênis e esse é uma construção que nunca tínhamos feito na Öus, sai do tipo que costumávamos fazer. Ele é um modelo de lifestyle, não é para a corrida profissional e sim para o profissional da correria, essa é a idéia.

A história desse tênis é que, o tipo da construção dele, desde as partes internas até como monta-lo, material da sola, não tem nada a ver de como já fazíamos. Então a gente teve que desenhar um projeto do zero, e arrumar o material também. Por exemplo, o cabedal é o mesmo tipo de knit, até com a mesma máquina, que os caras fazem o knit deles. A gente descobriu a máquina, fomos atrás da história e descobrimos quem que desenvolveu isso, a história do knit em sí e etc. Já o solado do tênis é um esquema de EVA que nunca tínhamos trabalhado, tivemos que pesquisar como o material se comporta e como ele funciona.

Pra mim esse Phibo é muito importante porque depois de 8 anos fazendo tênis, a gente fez um de outra categoria de calçado, e tivemos que estudar o processo desde o começo como se estivéssemos começando de novo. Esse foi um processo muito complexo, todos os nossos fornecedores são novos, caixa nova, temos fornecedores que são empresas multinacionais que não faziam produtos aqui no Brasil. Foi um ano e meio de desenvolvimento do produto – desde janeiro de 2016 até julho de 2017. O prazo na verdade era de entregar ele em fevereiro de 2017 mas só conseguimos lançar ele agora.

Pra nós da Öus foi legal esse projeto também porque temos que pensar na marca como uma marca de calçados, e a gente abriu o leque para mais um tipo diferente. Foi um projeto bem desafiador. E assim, eu to usando o tênis desde outubro de 2016, porque quando está em fase de desenvolvimento não dá pra usar ele porque ou tem a sola e não tem o cabedal, ou tem o cabedal e não tem a sola. Então desde que esse aqui ficou mais completo, eu uso ele regularmente – como amostra mesmo. Cada um que eu uso, eu vejo quais são os defeitos pra gente arrumar depois. Como estamos desenvolvendo ele há um ano e meio, eu quero muito que ele funcione pois é bem importante pra marca ter produtos na linha lifestyle, e além de tudo a gente curte muito esse estilo também.

Öus Phibo Resiliente
Dono:@rafaelnarciso
Feito: 2017