FOTOS POR VINICIUS MARTIN

“Rafael, carioca e redator publicitário atuando na área de criação. Eu gosto de gente, de conversar com maluco na rua, gosto de assunto, de história – de ouvir, contar, guardar – qualquer coisa que vá me levar a conhecer pessoas novas com histórias, assuntos e lugares legais eu topo. Às vezes eu me pego assistindo umas coisas no Youtube e depois penso “como é que eu fui parar aqui mano?” (risos). No final, meu trabalho é contar história, eu fico o dia inteiro fazendo isso, então vejo isso como um acervo, é uma coisa que vai acomulando e de repente você tem que pensar em alguma idéia e acaba puxando de algum lugar que você não imaginava.

E pra mim, tênis, moda e música são sempre universos muito ricos com pessoas muito interessantes – você pode ver que quem é envolvido com música, ou até a galera sneakerhead geralmente são pessoas que têm repertórios, não são pessoas superficiais. Eles sempre tem algum assunto ou história, sou bem atraído a esse tipo de interações.” 

Porque você escolheu trabalhar na área criativa?

Eu acho que escolhi a minha profissão muito cedo, sempre fui muito comunicativo. Uma vez, em uma escola em que estudava, todo mês vinha alguma pessoa de alguma profissão para dar uma palestra pra gente, tinha o médico, o advogado, o arquiteto. E teve o dia que veio o publicitário, o cara era todo bagunçado, chegou atrasado, sentou na mesa, falou palavrão (risos) e explicou o que era a publicidade. Depois fui me informar e vi que ele fazia umas propagandas que apareciam na televisão, decidi que queria fazer aquilo sem saber direito o que era, mas fui crescendo e a vida foi me empurrando pra fazer isso mesmo.

Eu fiz design por uma época achando que eu queria uma coisa mais ligada para arte visual, mas no final das contas eu gostava mesmo era de escrever. Foi aí que eu decidi ir para a parte de redação e deu super certo, me encaixei bem na profissão – acho que o legal da publicidade é que ela permite pessoas de estilos diferentes acharem os seus lugares. Outra coisa que gosto da minha profissão também é que estamos expostos o tempo inteiro a coisas novas, a gente tem que estar sempre muito atualizados do que está acontecendo, tem que estar pra frente das tendências pra você saber se posicionar e fazer uma coisa que é relevante. É tanto estímulo que temos, que às vezes eu só quero chegar em casa e ficar olhando para uma parede, de tão cansado que fico (risos).

Você atuou como publicitário em outros países?

Eu me formei em Londres mas atuei bem pouco lá, logo depois eu fui convidado para trampar na China. Foi uma oportunidade ótima porque era em uma agência muito legal, com contas muito legais. Lembro que na minha primeira semana eu estava escrevendo roteiro de filme, sendo que eu nunca tinha feito isso, sabe?

A publicidade é muito a cultura do lugar, você tem que falar com as pessoas, então fazer propaganda na Inglaterra é totalmente diferente do que na China. O que me ajudou muito quando cheguei lá é que chinês e brasileiro têm muitas semelhanças – somos países de 3º mundo, temos a cultura de querer mostrar o que temos – tudo isso ajudou bastante e foi uma experiência muito legal. 

Qual a sua relação com tênis em geral?

Cara, como a maioria do pessoal que coleciona, eu começo a me vestir pelo tênis. Às vezes eu acordo, na cama ainda, e penso “hoje estou com vontade de usar aquele Air Force 1 camuflado”. Aí você vai tomar banho pensando na roupa que combina com ele e às vezes dá vontade de usar o mesmo tênis duas vezes, é louco. Eu presto muita atenção no que a galera tá usando, a primeira coisa que eu bato o olho é o que tá no pé – o que a gente veste é uma expressão de quem somos – e o tênis principalmente é muito específico. Às vezes você olha para a pessoa e o tênis que ela tá usando e pensa “isso aqui não combina com ela”, você consegue perceber que ela não está confortável usando aquele tênis.

Eu sempre gostei disso, desde quando eu era mais novo, mas quando eu realmente comecei a curtir foi o dia que eu pedi pra minha mãe um Air Max (risos). Hoje a minha relação com comprar tênis é muito diferente, eu já passei da época de comprar tudo porque eu simplesmente queria comprar tudo. Mas as vezes eu olho um tênis, vejo que ele é muito foda, abro a página do site, vejo que tem do meu tamanho, boto no carrinho e não compro – se eu quisesse eu poderia ter comprado, mas hoje eu estou mais maduro (risos). 

Qual foi a primeira vez que você olhou um tênis e se apaixonou logo em seguida?

Me lembro de pedir um Air Max para os meus pais, eu era bem moleque, era muito caro mas alguém foi viajar para fora e acabou trazendo para mim. Lembro que às vezes de noite eu acendia a luz, ficava olhando e admirando ele, pensando “esse tênis é muito foda”. Depois de um tempo, eu queria muito um Nike Vandal de cano alto do pack Grunge – ele era muito caro e depois que comprei fiquei pensando “será que eu estou ‘ok’ de gastar essa grana com ele?” (risos). Mas aí quando eu usava, me sentia muito bem, então fiquei ok.

E qual sua relação específica com esse Puma Clyde x YO! MTV Raps 2006?

Esse tênis apareceu em 2006 e eu já estava começando a curtir tênis, tinha uns amigos da faculdade que eram sneakerhead e aprendi com eles um pouco do game, mas eu não tinha entendido que tinha uma cultura toda em volta disso. Pra mim era, tem uma galera que curte muito tênis e é isso. Nessa época eu morava em Londres e tinham muitas lojas legais.

Um dia que eu estava na night voltando pra casa e um desses meus amigos sneakerheads me mandou uma mensagem pedindo pra eu levar um kebab pra ele, eu achei que estava bêbado em algum lugar. Mas quando cheguei, ele na verdade estava sentado em uma cadeirinha, em uma fila na frente de uma loja de tênis. Falei “velho, o que você ta fazendo aqui?” e ele me disse “esperando pra comprar um tênis amanhã”, eu fiquei “você tá na fila pra comprar um tênis? Você é louco?” (risos). Tinham umas 20 pessoas na fila e ele me explicou que chegou cedo porque tinham poucos pares e que era um Puma especial com a MTV. No final eu tentei comprar um também mas não consegui – mas esse foi o tênis que me fez entender que existe um negócio muito gigante por trás do tênis. Depois fui descobrir que só tinham 50 pares desse no mundo inteiro, é muito pouco! 

E como você conseguiu comprar esse?

Ano passado eu procurei ele no Ebay e achei no meu tamanho, dead stock, na cor verde e surtei muito quando vi. Lembro que quando ele chegou em casa foi igual ao meu primeiro tênis, eu ficava admirando e pensando “caralho velho, eu consegui, não to acreditando”. O tênis tava bem conservado, veio perfeito. A única coisa que eu fiz foi trocar o cadarço porque ele veio com aquele fat lace que eu não curto tanto.

O que eu gosto também é que ele é da MTV e isso é muito icônico, a minha adolescência era assistir o canal todos os dias, essa era a minha internet. Eu passava o dia assistindo, vendo como os caras se vestiam, o que eles usavam, era muito diferente da gente. 

Você se considera um sneakerhead?

Pela definição do dicionário talvez sim, mas eu não me considero colecionador porque pra mim é um ármario de coisas que eu tenho pra usar, sabe? De certa forma eu acabo sendo colecionador porque tênis é uma coisa que eu gosto de ter e não jogar fora por mais que eu use. No final cara, eu conheço pessoas que realmente são colecionadoras, que não tiram da caixa, que o tênis fica guardadinho, que se vai guardar um, compra um outro para usar. 

Você começou a se envolver na cultura do tênis em 2002. O que você vê de mudança entre aquela época com os dias de hoje?

Mudou muito, mas eu sou uma pessoa otimista, sempre gosto de olhar os pontos bons e os ruins. De ponto positivo, hoje em dia a gente tem acesso a coisas muito mais fodas em relação a quantidade, collabs, coisas diferentes, de tudo. Melhorou o nosso acesso por um lado, mas por lado dificultou para os que a gente mais quer. Para mim, o lado ruim é que tá rolando uma idiotização da cultura, que começou com o Yeezy, bem como uma massa de manobra mesmo. Pessoal acha legal você usar esse porque ele é o Yeezy – e pra mim o Yeezy acabou virando a Abercrombie do sneakerhead.

O pessoal que eu conheço e que realmente entende da parada estão ficando cada vez menos interessados na cultura, porque “idiotizou” de um jeito muito grande. Quando lança um negócio legal você já sabe que não vai conseguir, você sabe que vai ter que dormir na frente de uma loja e velho, eu não tenho mais idade pra fazer isso, saca? Eu estou trabalhando, não vou sair do meu trabalho pra dormir na frente de uma loja (risos).

Acho que as pessoas estão loucas para encontrar alguma coisa que vai unir elas com outras pessoas. Na minha época era música, a gente vivia aqui na Teodoro tocando em uns estúdios, aí depois foi o skate, depois foi o tênis, isso sempre vai ter, a galera vai sempre achar pessoas que gostam das mesmas coisas que elas. 

Puma Clyde x YO! MTV Raps 2006 
Dono: @insomnico
Comprado: 2017
📸 @viniciuspontomartin