FOTOS POR BRUNA HISSAE

“Meu nome é Renata Prado e tenho 27 anos. Sou estudante de Pedagogia da Universidade Federal de São Paulo e pesquisadora da Lei 10.639 – que estabelece a obrigatoriedade do ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira. Sou também produtora da festa Batekoo, dançarina e diretora da Frente Nacional de Mulheres no Funk.”

Por que você dança?

A dança é a única linguagem da arte que conversa comigo desde sempre. Antes eu não entendia que a dança era arte – ela faz expressar quem eu sou, ela consegue mostrar a minha personalidade, e foi a dança que me salvou de uma depressão. Foi a única arte que conectou com a minha alma, conseguiu entender a necessidade do meu corpo. Então eu diria que danço pra mostrar quem sou e me colocar no mundo através do meu corpo, da expressão. Escolhi a dança como uma arte, e a dança me escolheu.

Danço desde criança, desde da época do É o Tchan (risos). Tive grupo de dança de Axé e depois veio a onda de Funk na periferia – fiz muito showcase dentro do Funk quando eu era adolescente. Depois larguei porque precisava estudar e quando entrei na faculdade era tudo um novo universo, acabei deixando a dança de lado. Passei por vários problemas, inclusive a depressão, e foi a dança que me tirou do fundo do poço. 

O que é a Batekoo?

A Batekoo era pra ser somente uma festa, mas se tornou um movimento. É um movimento que representa uma juventude negra, periférica, LGBT e mulheres negras. Se tornou um movimento de identidade, de raça, classe e gênero. É um espaço onde as pessoas se encontram para elas serem quem elas são, e fazer disso um ser político dentro desse mundo. A Batekoo é um movimento muito novo, mas eu garanto que ele é transformador.

A festa começou com dois produtores, O Wesley e o Maurício. Um deles veio morar em São Paulo e aí quiseram fazer uma festa aqui. Os dois me conheceram em uma outra festa, que era um concurso de bate cabelo, no qual eu ganhei (risos). Eles gostaram de mim e aí me convidaram pra eu fazer parte do Batekoo, eles acharam que eu tinha tudo a ver. Me convidaram para gravar uns teasers mas aí eu percebi que o Wesley estava meio deslocado, ele era produtor mas como ele não conhecia a cena de São Paulo, ele não sabia por onde começar, e eu já era produtora de Rap, então quando eu vi que ele estava perdido, eu me ofereci para trabalhar com ele, rolou de eu ajudar, e agora somos sócios.

As festas acontecem mais na região Central porque como a cidade é muito grande, porque se a gente só fizer na Zona Leste, o pessoal da Zona Norte ou da Sul não vão, e etc. Então fazer no centro é estratégico, pra gente conectar todas as periferias.

Como o Batekoo afeta sua vida e das pessoas ao redor?

Ela transformou muito a minha vida porque ela veio em um momento muito importante, eu tava me recuperando de uma depressão, e aí apareceu essa oportunidade de eu trabalhar e mostrar a minha capacidade. Deu certo porque era tudo o que eu precisava, a Batekoo é um movimento de corpo, dança, é uma festa para as pessoas dançarem mesmo, somos muito conhecidos por isso. Embora a dança não seja exatamente com isso que eu ganho dinheiro hoje, mas a dança é fundamental na minha vida porque ela permite eu ser quem eu sou, e eu consigo transparecer isso na Batekoo, e outras pessoas também. Tem o pensamento de “se ela pode eu posso”, “se o amigo tá vestido desse jeito eu quero também”, “se a menina do meu lado tá dançando assim, eu também posso”, então é um lugar de reflexo, você se sente pertencente, e isso transforma a vida das pessoas, de forma direta ou indireta.

Quais projetos você está envolvida como pedagoga e educadora social?

O projeto que eu to bem focada agora é a Frente Nacional de Mulheres no Funk, surgiu agora com a junção de quatro amigas minhas, que já trabalham dentro da área do Funk. A Juliana trabalha na segurança pública em questão de juventude, cidadania e direitos humanos, ela é uma jurista que trabalha nessas questões políticas; Tem a Rubia que é assessora do Funk, pioneira nesse assunto; Tem a Leila Tupinambá que é uma produtora foda do Rio de Janeiro, fez parte da equipe Eu Amo Baile Funk durante um bom tempo, esse é um dos bailes mais importantes do Rio; e tem eu que sou dançarina desde novinha, eu tenho a vivência do Funk.

Eu fui pra faculdade, entendi como o sistema é cruel e a única forma de voltar toda aquela informação que eu adquiri na faculdade pra comunidade, foi fazendo uma frente política na qual me representasse – que é a Frente Nacional das Mulheres no Funk. Essas três malucas acreditaram na minha idéia (risos), e é um projeto que ta dando muito certo, temos a proposta de fazer formações nas periferias de São Paulo e nas favelas do Rio de Janeiro. São formações desde palestras, sexualidade, mulher, e o seu corpo dentro da massa funkeira, workshops de dança, palestra com as mulheres mais velhas do Funk – queremos fazer o resgate histórico delas. A princípio esse é o projeto, mas a gente sabe que não vai ficar só nisso, mas por enquanto, é o que vamos fazer no próximo ano.

Você comentou que era produtora de Rap, como foi isso?

Eu tive um companheiro que era MC de Rap e eu era a produtora dele, fazendo toda a produção de CD, venda, fotografia, organizar show, fechar agenda, todas essas coisas. E quando eu fui ser produtora na Batekoo foi muito mais fácil porque eu já tinha a vivência no Rap e eu já conhecia o universo LGBT por conta da minha vivência, pelo fato de eu morar na periferia e a maioria dos meus amigos serem mulheres e gays.

Como as duas áreas que você atua, dança e pedagogia, se relacionam?

A gente vive em uma sociedade em que o nosso corpo é reprimido e as crianças na escola são educadas a isso também. Então eu venho fazendo essa contrapartida. A dança faz parte da cultura das crianças, se você for na periferia de São Paulo, você vai ver um monte de molecada dançando o Passinho do Romano; se você for na periferia do Rio você vai ver a molecada dançando o Passinho Foda. Isso faz parte da cultura deles e a escola exclui uma ferramenta cultural que está presente no cotidiano daquelas crianças. Eu como pedagoga faço o contrário, eu levo a dança pra dentro das escolas.

Tem um cara que se chama Hugo Oliveira que é um pesquisador do Rio de Janeiro, dançarino, que tem uma tese de Mestrado que fala exatamente sobre isso, sobre a dança dentro da cultura da criança e a sua relação na escola, então ele tem o desafio de levar workshops de danças dentro das escolas. É um projeto que eu me espelho bastante e é o que eu pretendo fazer também, e de uma forma indireta eu já faço também, do meu jeito. Eu acredito fielmente que a dança é uma ferramenta de educação política e social.

Qual sua relação com a cidade?

Eu exploro São Paulo desde muito nova, e ainda não conheço tudo, essa é a minha relação com a cidade. Eu sempre vou pra algum lugar que eu não sei aonde eu to. Tem uns lugares que eu vou sempre porque me identifico, por exemplo eu nasci e fui criada no extremo da Zona Leste, no Itaim Paulista, e hoje eu moro na Santa Cecília, então eu faço uma conexão muito grande dentro da cidade. E meu trabalho me permite explorar a cidade em outros sentidos. Eu gosto muito da Zona Sul, tem lugares que eu me sinto em casa como o Sarau da Cooperifa, é um lugar que eu me sinto na Zona Leste; Tem uns lugares na Zona Norte que eu me sinto bem, que me lembra a juventude; Na Zona Oeste eu já trabalhei em algumas bibliotecas. E moro no Centro porque facilita a minha vida, é onde eu produzo as festas; Zona Leste porque é meu lugar.

Eu tenho uma conexão muito doida com São Paulo e sei que vou morrer e não vou conhecer a cidade inteira (risos).

Quais lugares da cidade você levaria alguém pra dar um rolê? Tem algum “canto” dela que você se identifica mais?

Tem vários lugares que eu levaria…a minha quebrada por exemplo seria o primeiro lugar, que é o lugar onde eu mais conheço as pessoas, onde sei que tem as coisas mais legais. Aqui no Centro também, tem uns bares legais que eu gosto como o Aparelha Luzia, tem a Praça Roosevelt e Minhocão. Eu aprendi a me adaptar aos lugares, pra falar a real, em todos os lugares de São Paulo.

Gosto muito também de observar São Paulo e ver o pixo que tem nela. Quando eu morava no Centro, eu tinha uma briza que era sempre voltar à noite no Centro, muito chapada, pegando o ônibus na Radial Leste pra ficar observando o pixo na cidade, observando tag, eu faço isso desde sempre, e é o tipo de arte que eu sou mais apaixonada. Eu não entendo do pixo, mas ele é feito exatamente disso – de você não entender e se desse pra entender, não teria graça. Pra mim, pixo é a cara de São Paulo, simboliza São Paulo, e é uma arte muito nossa.

Descreve pra gente o seu dia a dia.

Ah, é muito doido, não tem como explicar (risos). Tem dias que eu trabalho muito, tem dia que eu não faço nada. Por exemplo, hoje eu to aqui com vocês fazendo o ensaio, depois vou lá na Cidade Tiradentes pra gravar com uma amiga minha pois estamos participando de um reality show de empreendedoras. Depois eu volto pro Centro, vou pra Aclimação fazer um curso que veio do Rio de Janeiro chamado “Universidade da Correria”, que tem como proposta fomentar empreendedores periféricos. Depois eu vou pro Rio de Janeiro pois tenho uma reunião lá. Tudo hoje.

Eu gosto muito de viajar, mas eu não tenho muito tempo também. Esse bagulho de você fazer o seu próprio corre e ser independente não te dá férias. Você não tem férias. Quando você é CLT pelo menos você sabe se organizar pra tirar as férias 1 mês do ano. Nós não, às vezes você tem muito dinheiro mas não tem tempo; ou às vezes você tem muito tempo e não tem dinheiro. Agora queria me organizar pra fazer uma viagem, fazer algo dahora, ou conseguir viajar com a minha mãe que é uma coisa que to tentando fazer à algum tempo e não consigo.

Qual é o papel do tênis no seu corre diário?

Pra fazer esse corre diário, eu  tenho que estar com alguma coisa confortável no pé. Ainda mais eu que sou dançarina, tenho problema na coluna e etc. Então pra fazer o corre, pra aguentar o tranco, usar o tênis é imprescindível. É tipo a minha roupa de guerrilha: saio com a mochila, uma garrafinha de água, com a marmita, bilhete único, um cartão de crédito, e o tênis.

Você tem algum modelo preferido?

Olha, o Air Max da Nike é o que me deixa mais confortável, principalmente pela questão da postura de coluna. É um dos tênis que mais se adaptou ao meu corpo e à minha dança. Ele é tão forte quanto eu (risos).

Nike Air Max 97
Dona: 
@renattaprado
Ganhado: 2017
📸  @bruna_hissae