Seis anos antes dos solados com a famosa bolha de ar, a recém fundada Nike, fazia sua estreia nas quadras de basquete com o Nike Blazer Mid. Lançado em 72 o Blazer foi um dos primeiros tênis de basquete da Nike, e recebeu o seu nome em homenagem ao time de Portland – cidade onde fica localizada a sede da Nike – Portland Trail Blazers.
O tênis foi primeiro usado pelo lendário George “The Iceman” Gervin, que colocou todos os holofotes no tênis com o enorme Swoosh e que para sua época trazia o auge da tecnologia. Porém em poucos anos, com a velocidade dos avanços tecnológicos dos tênis de basquete, o Blazer começou a sumir das quadras e foi logo acolhido pelo mundo do skate, onde também virou um ícone e mais tarde entrou para a família Nike SB graças a Lance Mountain. 

Desde de quando surgiu em 72, o Blazer passou por algumas mudanças no decorrer dos anos e já recebeu inúmeras versões. Um tênis que não só resistiu ao teste do tempo, mas por seu visual simples mas impactante, virou uma silhueta icônica, que ja foi acolhida por diferentes estilos e culturas no decorrer dos anos.  Ele volta agora na sua versão de 1977, um ano marcante, pois foi o ano que o Portland Trail Blazer de Bill Walton ganhou as finais da NBA, com um time usando majoritariamente o Nike Blazer.
FOTOS POR PÉROLA DUTRA

Depois de vários meses de pausa, por conta da COVID, voltamos com uma entrevista muito especial para nós. Vitória Leona é fotógrafa, como vocês já viram por aqui, que tem buscado explorar formas de se expressar através da arte. Vindo de Belém do Pará para São Paulo, Vitória acabou se vendo na necessidade de se redescobrir na sua cultura local para formar sua identidade com a qual explora os caminhos e oportunidades que a fotografia a proporciona.

Morando em São Paulo, ela percebeu como a cidade e a cultura aqui quase que te “obriga” a usar, e consequentemente a se interessar, quase que indiretamente, por tênis. Com isso, montamos um pequeno cenário, onde com o Blazer no pé, ela fez seus auto retratos, técnica que ela tem usado para se descobrir e explorar novas formas de olhar a fotografia. Queríamos agradecer a Pérola que nos recebeu em sua casa e permitiu que fizéssemos essa entrevista com segurança e tranquilidade, e também por clicar essas fotos incríveis.

“Meu nome é Vitória Leona, tenho 21 ano, sou de Belém do Pará mas eu moro em São Paulo desde novembro de 2018. Eu trabalho com fotografia desde os meus 12 anos. Sim, eu vou fazer 10 anos de fotografia, tipo como assim sabe? (risos). Mas eu digo que comecei com 12 anos porque foi quando eu comecei a procurar a me informar mais sobre fotografia. Meu tio fotografava, e até hoje fotografa, as famílias e eventos de famílias, e eu pegava a câmera dele emprestada e tal. Mas eu só fui procurar de fato quando eu fiz um workshop de fotografia Pinhole – que é método que você monta uma câmera com caixa de fósforo. Nossa é incrível. E eu achei até interessante isso, porque de fato o meu primeiro contato com a fotografia foi com a fotografia analógica, mesmo que hoje em dia eu trabalhe mais com a digital, sabe? 

Eu comecei bem naturalmente, as pessoas que me procuraram pra me contratar, e comecei a pensar “pô, acho que eu posso ganhar dinheiro com isso”. E foi assim que comecei a investir nisso de fato. E bom, acho que depois de me mudar pra São Paulo, o que mais mudou no meu trabalho foi que eu foquei muito mais em fotografia de moda porque o mercado daqui é diferente do de Belém – de fazer editoriais e marcas, ou até mesmo de fazer ensaios meus de uma maneira mais pensada, pensar em ter uma equipe e tudo mais. E também, eu gosto muito de câmera analógica para fotografar a minha vida, o meu dia a dia, festas – aquelas fotografias que são mais memórias do que necessariamente trabalho.

PODERIA ATÉ SER, COM CERTEZA, MAS PELO MENOS NA MINHA VIDA ATÉ HOJE EU NÃO SOU OUTRA COISA ALÉM DE FOTÓGRAFA.

Observando o seu trabalho, o seu instagram, seu dia a dia, vejo que você é uma artista que trabalha principalmente com fotografia, mas navega em outras plataformas para se expressar. Como começou e como é a sua trajetória em seus processos de criação?

Eu sempre disse que tudo que eu tentei fazer na minha vida, eu não consegui “ir até o fim”, só a fotografia que eu mantive. Eu já tentei fazer aula de violão, de aikidô, natação, já fiz aula de pintura mais de uma vez na vida, mas tudo isso eu larguei. Até hoje eu só consegui de fato a me interessar por fotografia e fazer cursos disso. Então acho que isso é bem significativo, eu penso que se eu não fosse fotógrafa, eu não seria outra coisa. Poderia até ser, com certeza, mas pelo menos na minha vida até hoje eu não sou outra coisa além de fotógrafa. 

E até mesmo a questão da pintura foi muito um teste, uma brincadeira, um resgate de uma coisa que eu fiz há muitos anos atrás. Eu comecei a ter esse contato com a pintura das minhas fotografias agora na quarentena, tentando resgatar uma referência que eu vi há muito tempo. Além disso, eu gosto de fazer vídeos pessoais – juntando vídeos de viagens, da vida, enfim, e aí eu também já vou para essa parte do vídeo mas eu não trabalho com vídeo. E acho que é isso – eu meio que tentando interagir com outras formas de arte, mas ainda assim eu acho que onde eu me encontro de fato é na fotografia. Mas acho ótimo, porque aí eu posso pintar sem a pretensão de que eu vou fazer alguma coisa super hiper mega incrível, não é algo sério, porque eu acho que tudo que a gente faz é meio sério. Hoje em dia eu não consigo fazer uma foto sem ser algo sério, mesmo que seja só uma foto da rua.

Fotografar com uma câmera analógica e uma digital, tem processos e resultados muito diferentes. Em quais momentos você decide usar uma ou a outra?

Pra mim muda tudo quando eu mudo a câmera, porque, até mesmo quando eu to com uma digital diferente da minha, eu já me sinto diferente. Como se a câmera fizesse… não que ela não faça, ela faz diferença, mas como se ela fizesse diferença até na forma como eu fotografo. Eu gosto muito de fazer analógica para fotografar festa, fazer rolê, praticar. A minha câmera analógica, que não é uma câmera profissional, não é pesada como a minha digital – que eu não vou querer tirar no meio da rua, seja por segurança ou seja pelo peso mesmo. Mas eu sinto que, os ângulos que eu faço com uma analógica, não são os ângulos que eu faço com uma digital. Eu acho que eu faço muito mais de maneira experimental quando eu fotografo a analógica, do que com a digital que parece carregar uma coisa mais séria – até porque eu trabalho com isso, eu trabalho com a digital. Teve vezes de eu viajar e passar o dia inteiro com a câmera digital profissional na bolsa e não fazer absolutamente nada com ela. Foi só no celular mesmo, porque eu não tive vontade de sair tirando foto com a minha digital.

Então assim, até mesmo quando eu vou fazer um trabalho com a analógica, eu acho que eu faço isso de forma diferente, muda mesmo a maneira de como eu me sinto em relação a câmera, que muda como eu vou me comportar em relação às pessoas ou ao que eu estiver fotografando. É bem diferente. Parece que eu sou outra pessoa.

AGORA, É DESSA MANEIRA MUITO ESPONTÂNEA E NÃO TÃO PLANEJADA QUE EU VOU PENSANDO NOS MEUS ENSAIOS E SEMPRE SAEM COISAS MUITO BOAS. E ÀS VEZES, A FOTO MAIS INCRÍVEL NÃO FOI ALGO QUE A GENTE PENSOU ANTES.

De onde vem a vontade e inspiração para produzir seus editoriais autorais e autorretratos?

Sabe aquelas frases da internet que te conforta de alguma maneira? Eu vi uma que era algo como “não é que você não consiga produzir ou que você seja ruim – você só quer fazer uma coisa muito boa, e você não vai fazer algo menos do que muito bom, e aí você não consegue fazer nada”. E lendo essa frase eu consegui dar um significado para o que eu sinto – que eu sempre quero fazer coisas muito boas. Eu quero chegar contigo e te dar todas as referências possíveis, da roupa, do cabelo, da maquiagem, de tudo e chegar com a ideia fechada, linda só pra gente ir lá e fazer. Só que muitas vezes é só uma ideia na minha cabeça e eu não consigo achar referências que mostram o que eu tô imaginando. Enfim, acontece que às vezes eu sou exigente demais com o que eu quero e acabo não produzindo.

Eu marquei um monte de ensaio para fazer aqui em São Paulo, teve um dia que eu saí falando com todo mundo. E agora o que estou tentando colocar na minha mente é de ser menos exigente com o que eu quero fazer. Por exemplo, eu tenho uma ideia para fazer uma foto contigo – eu vou chegar e falar uma ideia, e a gente pensa em mais ideias juntas. É melhor isso do que perder a oportunidade de te fotografar.

Hoje em dia quando eu penso em fotografar, eu tento ir com o máximo de ideias possíveis, mas eu tento fazer de uma maneira muito menos exigente comigo mesma e também muito aberta a pessoa que vai estar fazendo as fotos comigo, que são com certeza pessoas que de alguma maneira eu admiro para eu querer fotografá-la.

Agora, é dessa maneira muito espontânea e não tão planejada que eu vou pensando nos meus ensaios e sempre saem coisas muito boas. E às vezes, a foto mais incrível não foi algo que a gente pensou antes. Só tenho feito isso, vou levar o que eu acho bom e você vê o que tu acha de bom na tua casa e depois a gente vê. E a gente monta na hora. Esse está sendo um jeito de “escapar” da minha perfeição e produzir. 

os autorretratos eu tinha uma ideia prévia, como se fosse um tema e eu fazia. Mas eu não necessariamente parava só pra me fotografar porque eu me acho bonita, ou quero ficar bonita na foto, sabe? Uma vez eu tava falando com uma amiga sobre fazer fotos de lingerie ou nuas, fotos artísticas mesmo e pensei: por que eu não tenho interesse de fazer fotos minhas assim, mas eu tenho interesse de fotografar outras pessoas dessa maneira? Não é fotografar pra postar, é a questão de o por que eu não tenho interesse de ter fotos assim para mim mesma? Então até mesmo essa reflexão o autorretrato me trouxe, e hoje eu com certeza vou tentar fazer mais vezes. Porque não ter fotos minhas por mim mesma? Eu estou passando, eu tô mudando e não tem ninguém me fotografando, e nem eu (risos).

Faz dois anos que você saiu de Belém do Pará, e veio morar em São Paulo. Como foi essa transição entre cidades tão contrastantes?

Eu sempre tive um espírito muito sonhador de sair de Belém. Digamos que antes os meus motivos eram mais errados, porque eu queria sair de Belém pois eu achava uma cidade chata que não tinha nada pra fazer. E porque se eu comparar São Paulo, que tem muitos bares, peças, shows, eventos de marcas, e tudo isso que São Paulo tem – de fato Belém é chato. Mas eu acho que, não só eu mas todo o povo paraense, passou por um processo de valorização da sua cultura. Assim como houve o processo de valorização da cultura negra, sabe? E todo mundo se voltando para cada um, para sua própria cultura, sua própria coisa que lhe forma. Então eu passei a valorizar muito mais o Pará e ver que lá não tem o que São Paulo tem, mas tem o que só o Pará tem, e isso é muito bom. 

Eu pude viajar para diversos países porque anteriormente, minha mãe tinha muito mais condições de prover isso pra gente, então ela acreditava nessa minha vontade de querer sair e ver o mundo e investiu nisso enquanto ela pode. Acho que minha primeira viagem foi pro Rio, mas eu logo comecei a vir pra São Paulo porque minha mãe tinha trabalho por aqui. Então eu sempre via que existia outras coisas para mim fora do Pará. Eu ia fazer um intercâmbio antes de vir pra cá em 2018, não rolou por questões financeiras, e eu fiquei “ah tudo bem, vou ficar aqui no Pará, vou economizar dinheiro e para ir mais pra frente”. E uns dias depois eu fiquei “véi, eu não posso ficar no Pará, eu quero sair daqui” (risos). Foi assim que eu decidi vir pra São Paulo. O meu irmão já morava aqui, então eu teria o apoio de alguém e também eu não precisaria sei lá, pagar aluguel por exemplo, eu viria só com os meus gastos diários. Então me mudar para cá foi muito fácil, porque foi só entrar no avião e seguir meus sonhos, sabe? (risos).

MAS DE QUALQUER MANEIRA, MORAR EM SÃO PAULO FOI E É MUITO IMPORTANTE PRA MIM PORQUE ME MOSTROU UM OUTRO MUNDO. E ACHO QUE PRINCIPALMENTE ESSE OUTRO MUNDO ME FEZ OLHAR MAIS PARA O MEU MUNDO, A MINHA CULTURA. 

 

Mas parando para pensar agora, eu passei por muitas coisas nessa mudança. Eu diria que minha parte emocional de vida sempre foi muito complicada. Eu fui muito privilegiada, não tive coisas na vida que me fizessem falar “poxa, minha vida foi difícil”, mas minha parte emocional, dentro dos meus padrões, sempre foi muito difícil pra mim. Então eu percebo que eu tive muitos altos e baixos emocionais.

Mas de qualquer maneira, morar em São Paulo foi e é muito importante pra mim porque me mostrou um outro mundo. E acho que principalmente esse outro mundo me fez olhar mais para o meu mundo, a minha cultura. Porque obviamente eu tento fazer a minha vida aqui, estar nos espaços criar laços e criar amizades, mas agora eu entendo mais ainda o quão importante é o que eu tenho em Belém. E eu digo assim de cultura mesmo, em vez de eu tentar me tornar uma paulista completa, porque não olhar de volta para a minha cultura? Porque eu acho isso muito mais importante do que imergir totalmente na cultura daqui. E essa busca acontece justamente porque eu tenho que ter uma identidade de alguma forma estando aqui, dentre tantas identidades e não identidades também. E se eu não tiver a minha eu vou ter a identidade de quem? A vinda pra São Paulo foi um processo de aprendizado.

E você diria que essa mudança de cidades, afetou o seu trabalho também?

Na real, quando eu penso na minha vida aqui em São Paulo, eu penso em trabalho, porque é meio que isso né. Eu só sou o que eu sou, porque sou fotógrafa, sabe? E eu entendo que por exemplo, eu só estou aqui hoje com vocês porque eu sou fotógrafa. E não é que vocês me escolheram porque eu sou fotógrafa, mas sim porque sem a fotografia eu não iria até vocês por outro motivo. Porque eu falei com vocês pela primeira vez, por e-mail, porque eu sou isso. Então aqui a minha vida aqui gira muito em torno dessa questão.

Eu tenho obviamente pessoas mais próximas, que vão além do trabalho, mas as minhas relações e os lugares que eu vou e o que eu faço de alguma forma tão relacionado ao meu trabalho. Até o fato de que eu vou para uma festa me divertir, mas eu levo uma câmera analógica para fazer umas fotos ali, eu to trabalhando me divertindo. Não é chato, mas eu to trabalhando, sabe? Então isso mudou muito a forma como eu trabalho e como eu vivo o meu trabalho.

Outra fator que mudou no meu trabalho diretamente foi a questão de que eu comecei de fato a pensar de uma forma mais fotografia de moda. Porque em Belém, os trabalhos que eu fazia eram – você quer um ensaio seu? Eu faço um ensaio seu. Vocês querem um ensaio de casal? Eu faço um ensaio de casal. Eu fazia pouca coisa de marca. Era muito mais sobre indivíduo. Aqui a fotografia virou muito mais uma coisa editorial pra mim e menos fotografias pessoais, individuais. Mais comercial. Eu comecei a fotografar para pagar as minhas contas aqui. E também por isso é importante o que eu faço de autoral, porque se eu só tiver o que eu faço de trabalho, eu só tenho o comercial e muitas vezes não é algo que eu pensei, é algo que falaram pra eu fazer. O comercial chama um público para o meu trabalho, mas é o autoral que conquista ou não as pessoas.

EU COMECEI A FOTOGRAFAR PARA PAGAR AS MINHAS CONTAS AQUI. E TAMBÉM POR ISSO É IMPORTANTE O QUE EU FAÇO DE AUTORAL, PORQUE SE EU SÓ TIVER O QUE EU FAÇO DE TRABALHO, EU SÓ TENHO O COMERCIAL E MUITAS VEZES NÃO É ALGO QUE EU PENSEI, É ALGO QUE FALARAM PRA EU FAZER. O COMERCIAL CHAMA UM PÚBLICO PARA O MEU TRABALHO, MAS É O AUTORAL QUE CONQUISTA OU NÃO AS PESSOAS.

Você tem alguma experiência maneira que a fotografia te proporcionou.

Ah, eu me mudei pra São Paulo e vivi dois anos muito loucos da minha vida (risos). Mas de fato, a fotografia me proporciona muita coisa, e é muito importante ter a fotografia como parte de mim. Em São Paulo, eu sei que a minha fotografia é algo que me introduz aos lugares e eu entendo que se eu não fosse fotógrafa, eu não ocuparia os lugares que eu ocupo. Tipo, eu não estou lá porque porque eu sou uma pessoa muito legal, mas sim porque eu sou fotógrafa. E eu entendo isso. E acho que se eu não tivesse ela eu não faria nada do que eu faço.

Em Belém, os artistas têm muito uma noção de que você se mudou pra São Paulo, fez um trabalho pra Nike, eles falam “nossa, você fez a vida, não precisa de mais nada”. Sendo que não é assim. A minha vida é uma vida normal, tenho que fazer corre, não tenho dinheiro, eu to voltando pra Belém porque não tenho dinheiro. Mas que sem dúvidas a fotografia me leva a muitos lugares e me dá muitas oportunidades incríveis, como essa daqui sem dúvidas. E de conhecer vocês e tudo mais.

Agora partindo para os tênis. Qual sua relação com tênis no geral? 

A minha relação com tênis nunca foi muito uma relação de “tênis como lifestyle” ou até mesmo como um ponto de interesse meu, era só tênis. Mas quando eu me mudei pra São Paulo eu só vim com dois tênis: o Nike Air Force e o Vans, que eram os que eu mais usava. E por um tempo eu fiquei só com o Air Force, porque a palmilha do meu Vans tava podre, eu fiquei um tempo sem palmilha, e aí fiquei usando só o Air Force. Então eu real considero ele um tênis especial para mim nesse sentido, sabe? E eu fui modificar minha relação com tênis morando em São Paulo e por trabalhar com o Kickstory (risos), por trabalhar com vocês, e por entender que de fato a cultura em São Paulo gira em torno, pelo menos do grupo social ao qual eu estou inserida, da cultura sneaker e do streetwear no geral. Não que seja importante para as pessoas, mas o quanto que isso é muito mais profundo do que somente um tênis. Tem história por trás, tem uma cultura, tem um significado, é algo muito mais profundo como um campo de conhecimento mesmo. E eu criei essa relação com tênis e a cultura streetwear porque querendo ou não, hoje elas estão inseridas na minha vida de várias formas. 

Eu fiz um comentário para a minha amiga sobre como aqui em São Paulo as pessoas andam muito mais de tênis do que em Belém. Em Belém, você sai de sandália normal, se eu sair de sandália na rua aqui parece que eu sou um alienígena. E é real, você não vê pessoas aqui com uma rasteirinha, ou, uma havaianas na rua. E ela até falou que parece que paulista sai muito de tênis também porque sei lá, se você passa por uma enchente do nada e aí e tu não quer que tua sandália vá embora. Eu acho que não é bem por aí, mas faz sentido com certeza (risos).

Tem toda uma questão que a cidade “obriga”, exige o uso do tênis, mas como isso é uma coisa muito daqui. E se vocês forem pro nordeste ou pro norte vocês não vão precisar usar tanto tênis, só se vocês quiserem. Então é uma coisa que, querendo ou não, só esse fato já muda muito como é que eu vou me relacionar com tênis. Eu percebo que lá em Belém só tem uma loja de streetwear atualmente que de fato é relevante. E eu percebo que as pessoas lá querem usar marca, mas elas querem usar tipo assim uma camisa da Nike, com o logo da Nike grandão, ou querem usar um F da Fila gigante. Eles querem mostrar que estão usando marca, não querem um moletom “simples” que mal dá pra ver que é Nike. Não é que não queiram, mas as lojas não vendem isso e as pessoas também não consomem. E eu diria que esse é um jeito de visualizar como uma cultura nossa de fato.

São Paulo é uma cidade global, aqui estão as marcas, os eventos de marcas. Dá pra gente ver que os paulistanos querem usar roupas da Nike como uma pessoa dos Estados Unidos – que ela usa um Nike simples, bem disfarçadinho, não uma coisa gigante, sabe? Hoje em dia andar com um símbolo gigante da marca, tá muito mais ligado a uma roupa mais popular. Acho que São Paulo tá muito mais próxima do resto do mundo, como o resto do mundo se veste; já no norte do Brasil, as coisas chegam de uma forma diferente.

Nike Blazer Mid 77 Vintage
Ano:
2020
Dono: Vitória Leona
Fotos: Pérola Dutra