FOTOS POR JULIO NERY

“Meu nome é Caroline Granström e tenho 28 anos. Nasci na Suécia, cheguei no Brasil com 7 anos de idade e morei uma parte da minha vida no interior. Vim para São Paulo para fazer faculdade, fiz até o 4º semestre de Design Industrial, só que no meio me descobri apaixonada por moda, então sou formada em estilismo, tenho curso de personal stylist e consultoria de moda.

Atualmente estou trabalhando com mil e uma coisas. Trabalho com o Instagram, algo que acho bacana já que você pode levar a moda de um jeito mais acessível para todo mundo, além de produção de moda – mais voltada para revistas e shootings para as marcas. Trabalho também como personal stylist, ajudando as pessoas a se encontrarem dentro dos mil e um estilos que tem por aí – às vezes a gente fica perdido, sem falar de tendências, que faz você achar que tudo que está na tendência tem que ser usado, mas não é bem assim. E o que mais? Trabalho também com marketing de mídias digitais.”

Como surgiu seu interesse por moda?

Foi engraçado, porque quando comecei a fazer Design Industrial, 90% da minha sala era formada por homens, era a mesma coisa que uma mulher em uma sala de engenharia. E todos os meninos sempre falavam “Pô, você é mó estilosa, porque não faz moda?” e eu falava “Moda? Você tá tirando com a minha cara? Tenho cara de patricinha?”. Eu tinha esse preconceito, todas as amigas ou meninas que eu conhecia que faziam moda eram muito fúteis, que só estavam fazendo o curso por fazer e não realmente gostavam, elas gostavam de consumir moda, mas não de realmente estudar sobre o assunto.

Mas um dia, uma dessas minhas amigas me convidou para ir em uma aula de história da moda com ela. Aceitei e me apaixonei. Eu tinha uma visão totalmente distorcida do que realmente era o assunto, eu tinha uma visão superficial das pessoas superficiais, que usavam a moda como uma desculpa para fazer faculdade. Então depois que me aprofundei, comecei a pesquisar e me interessar mais pelo assunto, larguei Design Industrial.

O que te inspira diariamente? Quando você vai fazer produção ou até vestir alguém? Depende muito, cada pessoa tem uma pegada e estilo diferente, uma maneira de viver a vida diferente, então eu procuro encaixar isso na realidade da pessoa. Não adianta nada eu me inspirar e pensar “Acho que essa menina ia ficar foda com estilo da Kate Middleton”, só que ela não consegue viver esse lifestyle, ou ela não tem dinheiro para poder chegar nesse nível de acessibilidade, ou ela realmente não tem interesse por isso. Procuro sempre entender quem é a pessoa que estou vestindo, então sempre antes de começar o trabalho eu chamo a pessoa para tomar um café, tento entender quem ela é por dentro, o que ela gosta de usar por fora, para depois eu conseguir montar um complô do que ela gosta, com coisas que realmente podem a valorizar.

Estilo pra mim é o reflexo do seu interior – tem dias que você não está nem um pouco afim de se vestir bem. Você sabe quando a pessoa não está bem, você vê de longe que a pessoa está totalmente largada, de moletom com um jeans e um tênis básico. Isso mostra um sinal, as pessoas emitem sinais com as roupas que elas usam, quando você tá num puta bom humor você não se maqueia e se veste toda? Então, é isso.

Moda nada mais é que o nosso reflexo de dentro, tanto é que criação de roupas é a mesma coisa, tem toda uma emoção, história e contexto atrás da cada peça. Se você for estudar o porquê esse tênis foi feito desse jeito, você vai ver que ele pesquisou sobre alguma coisa que remetia, sei lá, sobre a avó dele. Quando você vai ver a história por trás, você entende tudo que aconteceu.

No momento, quais são suas inspirações na hora de se vestir?

Me identifico mais com o streetwear pela praticidade. Qualquer camiseta que eu colocar está ótimo, só que eu gosto de estilizar colocando um cinto, um tênis diferente – é aí que entram os tênis. Eu prefiro estar básico aqui em cima mas com um puta tênis foda no pé, do que ao contrário. Muitas amigas minhas preferem estar usando Osklen dos pés à cabeça, sendo que eu prefiro gastar tudo em tênis. O dinheiro que você gasta em um vestido que vai rasgar daqui uma semana, eu gasto em um tênis que vai durar anos e anos.

O que é o streetwear pra você?

Streetwear é nada mais que a moda das ruas, o próprio nome já fala isso. Tem toda uma história sobre como começou essa cultura lá nos Estados Unidos, criando um movimento. Eu vejo streetwear mais como um movimento – de valorizar marcas que estão começando agora, os materiais das peças, é difícil de explicar o que é.

Mas acho que o conceito é de ser casual e conseguir usar em todas as ocasiões, desde manhã até a noite. Você troca uma peça ou outra que já reverteu todo o look, ou às vezes você nem precisa trocar nada. É uma cultura que representa várias vertentes, como a música, a arte, a representatividade e às vezes até a sustentabilidade. É um movimento que está conectado com todo mundo, já que todo mundo tem acesso ao streetwear, só que algumas pessoas aderem e outras não, é um movimento acessível que consegue abraçar todo mundo de uma forma muito mais prática.

E qual sua relação com tênis em geral?

Tênis é conforto, praticidade, versatilidade, atitude – uso tênis até pra ir na balada. Hoje é mais aceito, mas há 4 anos atrás eu ia de tênis pra balada e as pessoas me olhavam de cima a baixo, com aquela cara de “Nossa você tá de tênis?”, e eu tô sim! Qual o problema? Não sou obrigada a andar com vestido a vácuo num salto de 15cm, você gasta R$3.000 no seu Louboutin e eu gasto no meu tênis.

Tênis representa uma união de coisas, você consegue usar em qualquer ocasião do dia até a noite. Eu prefiro muito mais usar um tênis descolado ou um tênis básico até do que me enfiar no salto, machucar meu pé, ficando cansada, criando bolha…não, não. Ninguém merece, pelo amor de Deus.

Quando e como sua relação com os tênis começou?

Pra ser bem sincera, desde pequena eu sempre fui muito do tênis. Na verdade, eu sempre fui muito da turma que andava de skate, eu andava com os meninos. Nunca fui aquela menina patricinha que andava juntas no colégio, eu ficava com os moleques bebendo na rua, dando rolê, sempre de tênis. Até hoje eu lembro que naquela época eu usava um Vans quadriculado e o pessoal me enchia o saco me chamando de emo. Agora tá lá, todo mundo usando.

Eu já tive Vans, Trasher, Freedom Fog, Plasma – eu fui da época da Plasma!  Sempre gostei de tênis, foi evoluindo para outras marcas, outros estilos e fui só apurando isso ao longo do tempo.

Qual sua relação com esse Adidas Yeezy 500 Blush?

De todos os tênis que tenho, esse foi o que calou a minha boca em relação a marca – paguei com a língua. Eu sempre falava que nunca ia comprar um Yeezy, porque achava o 350 muito sem graça, é bonito, ok, mas qual é o grande negócio em cima dele? Por ele ser inteiro de knit? Beleza, a Nike já fazia isso dois anos antes. Eles lançaram um Presto bem lindo, todo de knit de cano alto, com solado ultra e ninguém deu bola, ai chega o Kanye, fez o Yeezy e só porque as Kardashians usaram todo mundo queria?

Também teve um desfile que eles fez, que as modelos passaram mal por causa do calor, porque ele decidiu fazer o desfile no puta sol do meio dia e que as modelos desmaiaram! Então isso foi gerando uma distância minha com ele e com a marca. 

Com o passar do tempo, ele fez outros modelos de tênis e eu comecei a entender mais sobre o hype por trás da marca e os conceitos dos produtos. Quando foi lançado esse 500, exatamente nessa cor que eu amo, olhei e quis dar uma tentativa. Me inscrevi no sorteio na Guadalupe, pra ver o que ia dar – aliás esse foi o meu primeiro sorteio e foi por isso que ganhei, por causa do size. Achei bem foda a sensação de chegar na fila e saber que você vai comprar um tênis que não é todo mundo que vai ter. Tudo isso agregou valor, e quando o coloquei no pé, vi o quão bonitinho que ele fica, o quão confortável ele é, todas as mistura de tecidos, o design dele, deixei esse preconceito de lado e assumi – beleza, o cara manda bem.

Adidas Yeezy 500 Blush
Dona: @carolgranstrom
Ano: 2018
📸 @julioneryy