“Me chamo Andrea, tenho 30 anos e coleciono tênis desde os 14. Trabalho com tênis desde os meus 16 e não pretendo fazer outra coisa da minha vida, gosto de tênis, gosto das histórias, gosto de ver a pessoa saindo com um tênis da hora no pé que eu vendi.

Eu gostava de tênis quando mal tinha aqui, comprei o meu primeiro Force em 2008 quando ainda custava 100 reais. Hoje eles são bem mais caros por conta da demanda e porque vulgarizou, virou uma coisa que todo mundo tem e parou de ser por amor, agora é mais uma coisa de ter do que de ser. O tênis é um status e a coleção é o que você é, é a sua história.

Eu não me considero sneakerhead porque eu acho que é um rótulo, não vou comprar um Vans do Metallica sendo que eu gosto de Rap, tem sneakerhead que compra por comprar. Pego os que gosto, o que eu sou, o que eu lutei pra ter. Sneakerhead é aquele que pode ter quatro pares de tênis que significam muito pra eles, ao invés de 200 pares que não significam nada. O pessoal chega e fala “eu quero todos os Jordans”, eles querem ter por ter, você não é aquilo, você nem gosta de basquete, sabe? Hoje sneaker está vulgarizado, é legal pra quem vende, acho ótimo quando o cara entra na loja e compra um Chris Paul sem saber o que é, ele vai pagar 700 reais e eu vou pagar a minha meta.

Tive que trabalhar isso dentro de mim, porque tênis pra mim é um amor, é uma história. Por exemplo, não sou fã de tênis de corrida, pra comprar um desse eu tenho que falar com alguém que entende ou estuda sobre o assunto. O tênis é uma informação, quem não usa nunca vai entender. Já pra gente que gosta de tênis, é uma identidade. O rótulo de sneakerhead te limita, eu sou apenas uma amante de tênis. Hoje em dia é foda falar de tênis porque é muito mais status do que identidade.

Hoje nos grupos de tênis e nos lugares que frequenta, você é o que você está usando, se você não tiver um Jordan 3 White Cement de mil reais, você não é nada. Agora se tiver um Öus que ganhou deles quando visitou a fábrica, eles não te respeitam. Às vezes o meu chefe traz pra mim uns Jordan 4 que ele pegou no outlet por $20, isso não custa nada pra eles, mas pra mim tem um puta significado.

Diz um pouco mais pra gente quando você começou a gostar de tênis.

Tinha 11 anos e via as minas só usando vestido com sandália, vestido com sapato e eu nunca usava isso, me perguntava “será que não fica bom com tênis?”. Já quando eu era mais adolescente veio a Lily Allen

fazendo vários looks legais de vestido com tênis e isso me inspirou. Quando uso sapato, parece que to me fantasiando para alguma festa. Sapato pra mim era sempre um assunto difícil, porque todas as meninas estavam usavam isso e eu de tênis, sendo que naquela época a gente não tinha a facilidade de comprar como hoje. Vou confessar que hoje tenho um pouco de vergonha da minha coleção, porque mudei meu conceito de ser e ter, no sentido de que tenho muito tênis e eu deixei de fazer várias coisas por causa disso. Depois que fiquei mais velha e comecei a fazer terapia, aprendi que ser é melhor que ter e hoje a minha coleção tem mais qualidade. Hoje só compro os que têm um real significado pra mim, vou juntar uma grana e vou comprar. Agora você comprar só pra ter e mostrar sua coleção para os coleguinhas quando eles forem pra sua casa, eu não penso mais assim.

 Cheguei a ter 200 pares na minha coleção, hoje tenho 50 de muita qualidade. Quando você começa a ver o tênis só como tênis, você vê como as pessoas são fúteis, eu tinha 200 pares e era horrível, porque eu comprava 3 pares por semana, às vezes mais de 10 pares por mês. Depois percebi que você vai crescendo e tendo a noção do que é dinheiro, como gastar ele e etc. Chega uns meninos novinhos falando “meu maior sonho é ter um Yeezy Cream White“,mas cara, porque você quer? Qual é o sentido desse tênis na sua vida?

E qual a sua relação específica com esse Air Penny?

Primeiro que é um Penny Hardaway de 2014, um puta jogador. Segundo que foi um tênis muito difícil, sofri, chorei, chorei lágrimas de sangue e achei que tinha perdido na alfândega do aeroporto. Meu chefe estava trazendo ele pra mim e por eu ter sofrido tanto, ele resolveu me dar. Depois disso tudo que passei, vi o quanto sou viciada, nóia de tênis – tenho 5 aplicativos disso no meu celular, eu leio sobre tênis toda hora, todos os dias. E tudo bem você ser nóia, desde que isso não invada a sua vida como invadiu a minha, estava quase entrando nos sneakerheads anônimos. (risos)

O problema é que eu vivo muito inserida nesse mundo e tiveram dois episódios que aconteceram e me fizeram pensar: “sou nóia, preciso me tratar”. Estava em casa de boa vendo TV, quando recebo uma foto do meu amigo com uma fila enorme de Jordans GS, desde o 1 até o 20. Fiquei louca né, avisei pra ele que não tinha dinheiro mas ele disse: “eu trago pra você e me paga quando der”, peguei dois. A outra coisa foi que estava na loja de boa, quando um cara chegou com Jordans 3 e 8 de size 35, tive que pegar né? Não é fácil achar Jordan do meu tamanho.

Você já sofreu algum tipo de machismo nesse mundo do sneaker?

Quando era mais nova eu não sentia isso, porque a gente fingia que não estava vendo. Mas hoje, como eu vendo tênis, já entrou gente na loja falando: “nossa, pra uma mulher você entende de tênis” e só respondo: “eu entendo de tênis o quanto a sua mulher não entende de marido”. Nós vivemos em uma sociedade machista, ele quer te diminuir para te exaltar, é muito louco. Sinto o preconceito até hoje, a gente só conhece de tênis se o nosso namorado gosta de tênis – o que no meu caso foi ao contrário, ele virou noinha por minha causa.

Eu já deixei de participar de foto, de entrevista, porque vem cara falar que mulher não entende de tênis. Diria que hoje em dia a demanda para tênis feminino está aumentando, mas eles ainda vem com uma florzinha, com tom pastel e rosa. Quero um Jordan e não tem, tenho que pegar um GS! Isso não é tênis de mulher, isso é tênis de criança que cabe no meu pé.

Imagina só, trabalho na Galeria do Rock, um ambiente masculino, um ambiente que tem muito chicano e jogador de basquete, então eu tenho que me impor o dobro pra ser respeitada. Quando você fala qualquer coisa em grupo de tênis no Facebook, os cara não te dão uma informação, eles não te dão o respaldo porque para eles, mulher não sabe de tênis. A gente vive nesse mundo, infelizmente.

Dentro da cena do sneaker, tem as mulheres que são esposas dos sneakerheads que acabam virando sneakerhead também, elas não têm personalidade própria porque você não pode ter dentro da cena e quem tem, fica calada. Fui banida de um grupo de tênis por ser feminista, o cara escreveu um texto gigantesco explicando que o grupo era pra falar de tênis e não sobre feminismo. Mas ele não entende que feminismo é onde a mulher quiser. Ele me bloqueou e me baniu sem eu ter o direito de resposta.

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Dona: @baldgirl011
Ganhado: 2016