FOTOS POR PEROLA DUTRA

“Eu acho difícil falar sobre mim, mas vamos lá, estou fazendo licenciatura de dança contemporânea e aí, de tudo você vive né, porque não dá pra se envolver com arte somente com uma área – a gente faz vídeo, fotos, bota a dança no meio, faz intervenção urbana – são diversas formas de me expressar e abraço de tudo um pouco, assim vou vivendo.

Gosto muito de ir para um local e estudar sobre ele, sobre a sua cultura e aproveitar o que ele tem pra me ensinar – o que se produz lá mesmo, o que você só vai encontrar naquele lugar e em nenhum outro. Tento me aprofundar sabendo onde é feito, como é feito, achar uma pessoa que represente isso e me aproximar dela. Trabalhos manuais muito me agradam, porque cada material é único e quando você compra, aquele objeto já vem com alguma história, ele já passou por todo um processo para estar ali, sacou? Gosto muito de coisas que são feitas por outras pessoas e que posso saber quem são.”

Djully, qual a sua relação com tênis?

Eu via o tênis como uma peça em que eu tinha que escolher muito bem qual pegar porque só teria uma durante o ano todo – isso na minha infância. A minha paixão por tênis, assim como o meu time de futebol, veio do meu tio – ele me ensinou qual tênis era legal, ele ouvia Rap, a minha mãe jogava basquete, então eu tinha toda uma referência dentro de casa.

O primeiro tênis que tive e que gostei muito mesmo, foi o Reebok Classic Leather branco e azul, esse era o tênis que usava para ir a escola. Como era bem branco, o meu tio me levava no guidão da bicicleta ou falava pra eu caminhar na grama, para o tênis não sujar. Acabei pegando isso pra vida, se tem uma coisa que não suporto é de alguém pisando no meu tênis, acabou a festa, acabou o evento, não vai ter mais nada, é a parte sagrada da minha roupa – começo a montar a roupa pelo tênis que quero usar.

Como quando criança eu só podia escolher um tênis por ano, no momento que comecei a comprar com o meu dinheiro, peguei todos que queria ter quando era menor. A compra mais recente, que fazia muito tempo que queria, foi o Reebok Classic High Top.

No meu relacionamento, que não tem nem um ano, meu marido já sacou que a minha parada mesmo é com tênis. Em Salvador é muito normal ver a galera de chinelo, é cultural – aliás acho que o BBZão é a única pessoa que conheço que senta pra conversar sobre tênis, sobre roupa. Mas enfim, meu marido tá pegando essa parada de saber comprar o tênis, saber o nome e a história dele e o último presente que ele me deu foi o Tennis Hu do Pharrell Williams. Ele até chegou a conversar com o BBZão porque as escolhas dele são assim: “você quer a sandália da Rihanna ou o tênis do Pharrell?”. Por ele ser músico, ele escolhe as paradas assim.

E gosto muito do urbano, acho ele confortável, me sinto segura nesse meio, sabe? Quando você está no meio mato as pessoas te pressionam pra você ser natural, pra você viver a natureza, botar o pé na terra…eu não consigo (risos). Em Salvador as pessoas só usam chinelo, que é um estado de estar à vontade muito grande e é o mesmo estado que eu sinto quando estou de tênis – sou acostumada a ficar de tênis dentro de casa.

Busco referências, procuro saber o que as pessoas estão usando, até porque os tênis tem uma grande história por trás. O respeito vai passando para as pessoas através da história dos tênis, você querer saber qual foi a idéia, o que aconteceu, você pesquisar pelos registros e referências que a galera tinha quando desenhou aquilo e porque prevalece ainda.

E porque você escolheu esse Adidas ZX Flux para o ensaio de hoje?

Passei por quatro universidades e quatro cursos diferentes antes de decidir que queria estudar dança. E para isso acontecer, teria que estudar em um instituto federal público, 8 horas por dia e como consequência não iria conseguir trabalhar – eu teria que me virar vendendo algo que eu soubesse fazer.

No dia que pedi demissão do meu serviço para fazer a minha matrícula, peguei uma grana e comprei esse tênis pra usar na universidade. Então ele foi o tênis que marcou a virada da minha vida. Ele me acompanhou na maioria das apresentações e viagens de dança que fiz e quando eu me mudei pra Salvador pra encontrar o Diogo.

Você tem alguma história com ele que te marcou?

Diria que foi quando fiz a minha prova de habilidade específica na universidade. Essa prova era composta de diversas atividades corporais voltadas a dança Contemporânea – que é uma modalidade que eu nunca tinha feito antes, pois venho da vertente Afro mas não do Afro-Contemporâneo. Entrei na sala com uma banca de professores para avaliar, eles colocavam a música mas eu tinha que dançar a minha vertente, não podia ser com o rítimo da música; outra etapa era se juntar com pessoas que você acabou de conhecer e montar uma coreografia cardume. Consegui passar em quinto lugar na prova, com uma galera que era bem foda. 

Adidas ZX Flux
Dona: @djullyb
Comprado: 2016
@peroladutra