Você gosta de corrida? E de skate? Então vale muito a pena ler essa próxima entrevista. O Don é aquele cara que gosta muito de esportes, mas sua paixão é o skate – e foi por conta do skate que ele redescobriu a corrida e hoje já correu 16 maratonas e dezenas de provas.

Embora tenhamos conversado bastante sobre suas conquistas na corrida, a base de toda a história vem de uma de suas maiores referências, skatista profissional, ator, empresário – Paul Rodriguez. Para quem não sabe P-Rod como é conhecido, além de inúmeras medalhas de X-Games, capas de revistas, seriados, sua própria marca, também faz parte de um grupo seleto que inclui Lebron James, Kobe Bryant e Kevin Durant de atletas da Nike com 10 modelos de tênis da sua linha.

Embora hoje em dia seja raro achar um Nike SB PRod em boas condições, a Nike prestigiou todos os modelos icônicos da sua linha com um ‘What The’ Dunk – um modelo que para o Don representa não somente seus modelos preferidos, a história do Paul Rodrigues, mas também um pouco da sua própria história.
FOTOS POR GABI NERY

“Prazer, eu sou o Ricardo Rui Amorim, mais conhecido como Don Amorim pra galera e tenho 29 anos. Eu sou coordenador de marketing na Nike, em uma área chamada Field Marketing. O meu papel é olhar para algumas categorias e esportes específicos, e entender como o consumidor olha e a sua percepção das nossas ações, produtos e mensagens de marca. Então eu cuido dessa área, tanto esportivo – running e futebol, quanto lifestyle – uma parte de Nike Sportswear e Nike Women. 

É uma coisa que gosto muito de fazer, já tô no mercado esportivo há quase 10 anos. Comecei trabalhando com Gatorade e canais ESPN, eu era social media deles, depois passei pela Puma, fui do sport marketing. Então tenho uma ligação muito forte com o esporte, sempre fez parte da minha vida.

E adoro correr, tenho 16 maratonas no currículo, e muitas provas no total, acho que já bati 100 provas. Mas eu corro desde criança. Aí na época entre sair do ensino fundamental e médio, foi quando eu comecei a andar de skate, e aí quando entrei na faculdade eu tive uma lesão andando de skate. Aí o fisioterapeuta falou: “começa a correr 5 minutinhos só pra aquecer, dá um trotezinho”. E relembrei como era esse negócio de corrida. Com isso voltei a correr mesmo mas tive que escolher entre meus esportes favoritos: correr ou andar de skate, porque fazer os dois não dava. Eu andava de skate 3 vezes na semana, machucava o pé e não dava pra correr, não dava pra fazer as provas. Então tive que escolher. Fiquei muito tempo dedicado à corrida e deixei o skate de lado, mas ele sempre foi minha paixão. É meu esporte favorito.”

E ERA MUITO LEGAL QUE A GENTE IA ALI TIRAR O SKATE E ERA QUASE QUE MOSTRAR SUA MANOBRA NOVA, O QUE VOCÊ CONSEGUIU APRENDER NAQUELA SEMANA. QUANDO O CARA CHEGAVA FALANDO QUE QUERIA TIRAR UM SKATE É PORQUE ELE TINHA UMA MANOBRA NOVA PRA COLOCAR NO GAME (RISOS).

Como você se interessou e começou a andar de skate? Isso foi em que época?
Eu comecei no street mesmo, na rua com alguns amigos. Tinha uma pista de skate perto da minha casa, a Red Beach, era muito legal andar lá, mas eu gosto mesmo é de andar na rua. E aí a gente foi pro Parque da Juventude, ali no Carandiru, na Zona Norte. A gente andava ali na frente onde tinha acabado de abrir a ETEC, tinha um solinho lisinho e era menos abarrotado que a pista. Hoje um monte de gente anda ali na frente, mas ninguém sabe que eu e meus amigos fomos a primeira turma a andar ali na frente. Isso é muito legal.

A gente tem várias fotos da galera andando – tem foto com o Emicida, que andava de skate ali, com o Qualy do Haikaiss, que ele andava de skate com a nossa crew. É animal, a gente tem uma história muito foda ali no Parque da Juventude. Mas sabe, aqueles heróis desconhecidos (risos), quem que conquistou esse espaço pra gente andar? Foi a gente. Essa é uma história muito legal. Era só a gente entrar que vinha o segurança do parque “não pode andar” e saia expulsando a gente. Como era um terreno muito grande, a gente ia pra um outro canto, aí o guarda vinha correndo atrás da gente, aí a gente mudava pra outro canto, aí ele vinha correndo do outro lado. A gente passava o dia assim, era muito divertido (risos). Isso mais ou menos em 2008. Foi uma época fantástica.

Essa foi uma época que muitas coisas começaram a bombar dentro da comunidade do skate também, que nem Game of Skate, que a gente chamava de “burro” aqui, e aí o Berric criou o The Battle of Berrics. Aí popularizou muito.

A gente brincava de skate, era quase um aquecimento pra gente. A gente chegava no parque “e aí, beleza? Beleza. Vamos tirar um skatinho?”. O aquecimento era a rivalidade entre os amigos. Era uma forma de aprender mais a andar e de manter os moleques sempre juntos. Essa era uma fase da vida que tinha alguns amigos terminando a escola, alguns já trabalhavam, eu já trabalhava na época, então só tinha o final de semana pra andar de skate com eles. E era muito legal que a gente ia ali tirar o skate e era quase que mostrar sua manobra nova, o que você conseguiu aprender naquela semana. Quando o cara chegava falando que queria tirar um skate é porque ele tinha uma manobra nova pra colocar no game (risos).

Também era um momento que as marcas estavam olhando muito bem pro skate no Brasil. Eu lembro que na época eu fui em eventos da DVS, de Etnies, Nike SB, tinha pelo menos um evento por ano. E ainda nem se conversava muito sobre ter o skate como esporte olímpico. E hoje a gente olha o skate nas Olimpíadas e vê como é um achievement e tanto pro esporte – porque é um esporte muito foda e pouco valorizado no Brasil. Se você pegar os melhores skatistas que você tem hoje no Brasil, todos moram fora. Letícia Bufoni, Kevin Hoefler, Felipe Gustavo, eles começam a fazer carreira e vão pra fora, porque não tem estrutura aqui e lá as marcas são fortes, os patrocínios são fortes.

Sem contar os campeonatos lá – você tem o Tampa AM, Tampa Pro, o Street League, que é o maior campeonato de skate que tem e que abriu a porta pro skate olímpico. E aí você olha que os melhores skatistas brasileiros nem estão no Brasil. É ruim e legal ao mesmo tempo, porque você dá esperança para uma molecada que se encontra no skate, mas é difícil chegar lá.

Desde 2006 ando de skate e já vi um monte de gente tentando ser profissional, é um caminho bem duro porque o investimento no esporte no Brasil não é bom. Mas agora temos uma esperança com esse momento olímpico, você abre as portas, as marcas vão olhar com mais cuidado pra isso, porque deixa de ser aquele esporte de vagabundo como éramos chamados na época. 

A gente entrava na Americanas, ou qualquer lojinha pra comprar água, e o segurança vinha atrás. Porque a gente tava com o skate debaixo do braço achava que a gente ia bater, roubar a loja. É foda. Então hoje vão ter um olhar bem diferente pro skate, porque não é esse esporte de vagabundo, é um esporte bem difícil inclusive.

Você comentou que já tinha tido contato com a corrida antes do skate. Como a corrida entrou na sua vida?

Foi um caminho longo. Como falei, eu estudei no SESI, que é uma escola muito foda e referência do esporte. Tem algumas unidades que são chamadas de escola-clube – tem a escola, e uma estrutura de clube dentro dela – tem piscina, quadra, pista de corrida, ginásios, tem várias coisas. Meu dia a dia era escola de manhã e escola de esportes na parte da tarde. Eu jogava basquete, bola – adoro futebol, sou palmeirense fanático – e aí entrei na corrida, fazendo atletismo na escola.

Quando eu tava pra sair do SESI, já na 8ª série, eu comecei a andar de skate e deixei a corrida de lado. Então eu passei quase todo meu ensino médio e início de faculdade andando de skate, e aí logo em seguida eu tive essa lesão, um estiramento na coxa. Dói muito, foi a pior coisa, eu não conseguia levantar ou mover a perna, tipo jogador de futebol total, segurando a perna e começa a falar “ai, ai, ai” (risos). Tive que começar a fisioterapia e foi aí que ela falou: “pra não machucar sua perna, dá um trotinho de 5 minutinhos antes de começar a andar”. Então eu ia no Parque da Juventude, dava uma voltinha no solo que tinha ali, e ia andar.


E em que momento você começou a correr mesmo, e fazer provas de longa distancia? 
Tem uma corrida aqui em São Paulo chamada Maratona de Revezamento Pão de Açúcar, em que você pode formar equipes de duplas, quartetos ou quintetos. São 42km revezando, então se você faz em dupla, cada um corre 21km, se faz em quarteto, cada um corre mais ou menos 10km, e assim vai. Na época eu trabalhava na PWC e eles pagavam as entradas, então criava várias equipes de funcionários. E aí pensei: “bom, tô correndo pra aquecer, lembrei como era legal correr da época da escola, vou me inscrever aqui em uma das equipes”.

Eu achei que ia ser a mesma coisa que correr no atletismo da escola, que era dar aqueles tirinhos de 100, 200 metros, mas eu fui pra correr 5km, num quinteto, é muita coisa já. Meu, na hora que me passaram a munhequeira, eu fui com tudo, saí correndo fazendo a maior força, gastando toda a minha energia. Aí chegou uma hora que eu falei “ah já deve estar acabando o 5km, né?”. Quando eu olho a placa: 1 km. Pensei “não é possível (risos). Eu fiz tudo isso, e só foi 1km?”. Eu juro que eu morri, sofri nos outros 4 km. Meus primeiros 5km foram em 35 minutos. Mas foi muito legal, eu amei a experiência. Quando você é amador tem essas provinhas, que você ganha medalha, tem equipe, uma galera torcendo, é mó vibe legal. Curti tanto que comecei a procurar outras corridas.

Aí um amigo meu que já corria falou: “têm a São Silvestre no final do ano, são 15km”. Topei na hora. Foi assim que eu saí do zero pra 15km em 4 meses. Em setembro eu fiz essa prova do Pão de Açúcar, corri 5km; em outubro teve uma prova de 8km do Palmeiras para a despedida do Marcos, fiz sofrendo também. Eu mal tinha corrido 5km, aí resolvi correr 8km no mês seguinte. Depois eu fiz a corrida de natal de 10km, no centro de São Paulo. E a São Silvestre, de 15 km, no dia 31 de dezembro. Tudo isso no ano de 2012.

Chegou 2013, e aí eu falei, “pô, legal esse negócio da corrida, minha meta esse ano é fazer 21km, quero fazer uma meia maratona”. Comecei a treinar e me dedicar mais à corrida, fiz um calendário com o objetivo de correr mais ou menos uma prova a cada 15 dias, uma semana sim, uma semana não. Normalmente as provas acontecem todos os domingos, né? E cara, acontece 2, 3 provas a cada domingo em São Paulo. Tem uma oferta absurda pra você escolher. Eu tinha planejado correr 12 provas no ano, e no final de 2013 quando fui ver, eu tinha corrido 20 e poucas. E então, eu fui correr a Asics Golden Run aqui em São Paulo, minha primeira meia maratona, que era uma das provas mais rápidas de 21km que tinha. Meu objetivo era fazer ela em 1h50. Minha primeira prova de 10km eu fiz em 58min, minha primeira de 5km eu fiz em 35min, fui melhorando, aí a meia maratona falei “acho que faço em 1h50”. Consegui completar ela em 1h37!

Chegou 2014 e falei “vou dobrar a meta, vou correr 42km, uma maratona”.  Na época eu tinha acabado de entrar na Ideal, uma agência que cuidava das redes sociais de Gatorade e ESPN, eu cuidava das duas contas. Um dia a gente fez uma entrevista com uma das assessorias esportivas de Gatorade, a MPR – assessoria do Marcos Paulo Reis. Quando eu cheguei lá, contei o meu “histórico de atleta” (risos), pro Marcos Paulo, ele falou “cara, quer treinar com a gente? Te dou uma bolsa aqui e você treina com a gente”. É uma das assessorias mais caras e um dos melhores treinadores que tem no Brasil! Aceitei na hora. 

Logo quando comecei os treinos, falei para o Caio, meu antigo treinador: quero correr 42km. Ele falou “mano, esquece isso, você é muito novo, só correu 3 meia maratonas, cê tem 2 anos de corrida, cê nem sabe o que é corrida direito”. Mas meu, eu era moleque, tinha 22, 23 anos, e insisti “não, quero correr maratona”. Ninguém me convencia do contrário. O meu objetivo era fazer a maratona do Rio, que acontecia em julho. Fiquei treinando e aí veio a famosa lesão da primeira maratona – eu comecei a ter planilha, treinamento adequado para correr os 42km, eu não estava acostumado com o volume de quilometragens que eu tinha que fazer por semana, com o volume de treino e tudo mais. Eu tinha que treinar 4 vezes na semana, era muita coisa correndo. A primeira lesão que eu tive no skate era porque eu não aquecia; e a primeira lesão que eu tive na corrida era porque eu não alongava. Eu tive uma lesão no trato iliotibial, foi uma inflamação que eu não conseguia dobrar a perna, não conseguia fazer nada. Fiquei na fisioterapia, fiz infiltração, fiz um monte de coisa pra ver se melhorava o trato – tudo isso um mês antes da maratona, e passei junho inteiro sem correr e sem treinar. Mas pensei “base eu criei, acho que eu não vou perder”.

A ideia do meu treinador era correr a primeira maratona em 3h30. Ele falou “você consegue fazer, mas não se preocupa com tempo, o importante é você terminar a prova dos 42km”. Chegou no dia da prova, fomos pro Rio de Janeiro, aí meu treinador perguntou “você tá pronto?”, e eu “tô, seja o que Deus quiser”. A maratona começa no Recreio dos Bandeirantes e termina no Aterro do Flamengo, e o meu hotel era no Aterro, na chegada da corrida. Comecei a correr, tava um dia feíssimo no Rio de Janeiro, tava chovendo pra caramba. Primeiro quilômetro tranquilo, segundo, terceiro, aí no quarto já comecei a sentir alguma coisinha. No quinto quilômetro um incômodo, mas fiquei pensando “não é nada cara, segue, o corpo tá aquecendo, fiquei um mês sem correr, vai dar certo”. Chegou no sétimo quilômetro e travou, a perna esquerda não dobrava por nada, e junto, veio uma dor infernal. Mas continuei.

AÍ METI O LOUCO, COMECEI A ME INSCREVER EM DIVERSAS MARATONAS. FIZ CHICAGO, BERLIM, AMSTERDÃ, PORTO, BOSTON – CONSEGUI O ÍNDICE DE BOSTON, QUE É UMA DAS PROVAS MAIS FODAS DO MUNDO, PRA PARTICIPAR VOCÊ PRECISA CORRER 42KM COM O TEMPO DENTRO DA SUA FAIXA ETÁRIA. E NA MINHA FAIXA ETÁRIA ERA 3H05, ENTÃO PASSEI QUASE 2 ANOS TENTANDO O ÍNDICE DE BOSTON. ESSA MARATONA FOI INCRÍVEL, UMA DAS MELHORES EXPERIÊNCIAS QUE TIVE COMO ATLETA AMADOR, A VIBE DA CIDADE, A GALERA TORCENDO POR VOCÊ.

Quando cheguei nos 10km meu treinador tava perto, e ele falou que eu tinha feito mais ou menos o tempo que ele tinha programado. Aí ele “tá bem?”, falei “to bem” – mentindo, né? E aí ele “beleza, te encontro no km 21”. Cara, chegou no km 15, eu queria parar, pegar um táxi e ir pro hotel. Não existia Uber na época, eu só tava com celular na mão, não tinha dinheiro no bolso, não tinha nada e eu tava no meio do Rio de Janeiro. Pensei “cara, não tem como voltar pro hotel de táxi, só correndo mesmo até a chegada”. E aí fui correndo, a perna esquerda não dobrava e eu fui fazendo força na perna direita pra compensar. Passei no quilômetro 21, chorando de dor, literalmente, e meu treinador “para, para, para”. Aí eu disse: “Não vou parar”, continuei, e combinamos de nos encontrar no km 30. Cheguei no 30, caminhando, chorando, eu já não tinha energia. Olhei pro meu treinador e falei, “Caio, vou parar”, e ele “não vai parar porra nenhuma, você já chegou aqui, já fez 30km, agora faz os outros 12km que faltam”. Aí fiz, me arrastando, 12 km, chorando, mas consegui. Completei a maratona em 4h27.

Voltei para São Paulo, fiz mais fisioterapia, fui ao médico e tudo mais. Aí que que aconteceu? Em outubro tinha a maratona de São Paulo e aí me inscrevi sem consentimento do meu treinador – eu queria entregar a prova que ele pediu. E aí recuperei, tentei treinar direito. Essa maratona tinha de 25km – as pessoas corriam com o número azul, e de 42km – com o número laranja. Aí meu treinador viu eu vindo com o número de peito diferente, e ele “que você tá fazendo com número laranja?!”, aí eu “devolvendo a maratona que eu to te devendo”, aí ele “para, você acabou de voltar de lesão!”, aí óbvio que continuei. De novo – jovem, moleque, eu achava que era de ferro. Fiz essa minha segunda maratona meses depois do fracasso que foi o Rio, em 3h47. E aí peguei gosto nos 42km.

Continuei treinando, participei de outras maratonas, e quando chegou a do Rio de novo, em 2015, eu me surpreendi – fiz em 3h13, foi menor que meu objetivo que era 3h30.

Aí meti o louco, comecei a me inscrever em diversas maratonas. Fiz Chicago, Berlim, Amsterdã, Porto, Boston – consegui o índice de Boston, que é uma das provas mais fodas do mundo, pra participar você precisa correr 42km com o tempo dentro da sua faixa etária. E na minha faixa etária era 3h05, então passei quase 2 anos tentando o índice de Boston. Essa maratona foi incrível, uma das melhores experiências que tive como atleta amador, a vibe da cidade, a galera torcendo por você. Foi muito legal. A minha melhor maratona foi em 2019, em Buenos Aires, com 2h49, e o meu sonho é buscar 2h45. E aí veio a pandemia. Mas essa é basicamente minha jornada na corrida. Hoje eu consigo intercalar um pouco mais o skate e a corrida, achei um equilíbrio entre os dois.

E hoje você trabalha na Nike, a empresa que te incentiva a praticar esportes. Como foi o caminho para chegar na posição que você está hoje?
Eu lembro quando criança, eu fui criado pelos meus avós, minha avó branca, meu avô indígena, e a minha avó sempre falava “se dedica muito”. A maioria dos pretos já ouviram isso, que você tem que fazer o dobro pra se destacar. Então alguém faz uma coisa ok, todo mundo “aí, fantástico”. O preto tem que fazer 2, 3 vezes mais pra receber os mesmos louros. E você cresce com isso e sempre quer dar o seu melhor, principalmente quando você escuta das pessoas “aí, esse neguinho não vai chegar em lugar nenhum, não vai ser ninguém”. E eu sempre tentei provar o contrário. E aí eu lembro de uma frase que o Diegão me falou uma vez “cara, somos pretos e onde a gente chegou, temos que olhar pra trás e estender a mão pra trazer outras pessoas que nem a gente pra onde a gente tá”. E isso é muito foda, porque realmente é isso. E cara, eu passei por grandes empresas, trabalhei com Gatorade, ESPN, trabalhei com P&G, Puma, trabalho hoje na Nike – a Nike graças a Deus tem uma diversidade muito boa – mas se você olha pra essas grandes empresas, cargos de liderança, esses espaços e tudo mais, você não tem um preto. Infelizmente, na nossa sociedade ainda a cor da pele é julgada antes da qualidade e do profissionalismo das pessoas.

Hoje eu abro as minhas portas pra todo mundo. Até postei há um tempo no Linkedin de ter papo com universitários que estão perdidos, sem saber o que vão fazer da vida, principalmente quem tá no meio de comunicação, para ajudar e guiar eles. E eu tinha um sonho muito grande de trabalhar na Nike, mas – eu sou umbandista e o que a minha religião me ensinou, é ter paciência. A gente nunca sabe o amanhã. O que a gente quer, temos que construir a nossa jornada, o nosso caminho. E até chegar a Nike, foi muito foda, porque eu passei por várias empresas e chegou um ponto da minha vida que eu tava ok. Achava que nunca ia entrar na Nike, que eles nunca iam olhar pra mim. E hoje eu tô lá, graças a Deus. E foi através da jornada que consegui construir pra chegar até a Nike.

As vezes temos um objetivo e a gente fica fanático naquilo, deixamos de olhar as outras oportunidades em volta. Eu criei um currículo muito bom na época que eu trabalhei na Puma, eu criei um currículo muito bom na época que eu trabalhei na Octagon, eles abriram as portas quando eu voltei pro Brasil, pra trabalhar com a Nike. Eu criei um currículo muito bom com outras marcas que hoje me possibilita trabalhar na Nike. E eu queria mostrar isso, tanto pra esses jovens, quanto pra preto, que tipo a gente vai lutar muito, mas se temos objetivo, um dia vai chegar. Vamos chegar nesse objetivo e não desistir.

Hoje eu sou muito grato por todo o caminhar, todos os tropeços que eu tive, porque a gente aprende com os nossos erros. Eu tive que errar muito para criar experiência. Ninguém cria experiência só acertando. Quando perguntam “como faço pra chegar na Nike?”, eu falo não é fácil, mas aproveite toda oportunidade que você tiver. Uma hora você vai se destacar, vão olhar pra você, a oportunidade vai bater à sua porta.

Sempre vai ter oportunidade, mas fica de olho nos outros lugares também. Porque às vezes o caminho que você tá traçando e que você quer ali, não é o certo, às vezes pode aparecer outro caminho que você não tá esperando e que vai te levar para aquele seu objetivo final. Não sabemos do amanhã, nem o que tá reservado pra gente. No fim, quando eu olho pra trás, eu vejo que tudo que eu passei me trouxe até aqui. Então eu sou muito grato pela jornada que eu fiz.

E CARA, EU PASSEI POR GRANDES EMPRESAS, TRABALHEI COM GATORADE, ESPN, TRABALHEI COM P&G, PUMA, TRABALHO HOJE NA NIKE – A NIKE GRAÇAS A DEUS TEM UMA DIVERSIDADE MUITO BOA – MAS SE VOCÊ OLHA PRA ESSAS GRANDES EMPRESAS, CARGOS DE LIDERANÇA, ESSES ESPAÇOS E TUDO MAIS, VOCÊ NÃO TEM UM PRETO.
A GENTE NÃO CONSEGUE FALAR DE TÊNIS SEM FALAR DE INFLUÊNCIA ESPORTIVA. HOJE, A GENTE OLHA PRO AIR JORDAN 1, 3, 4, 5, E ELES SÃO ÍCONES DE MODA, MAS PRINCIPALMENTE, ÍCONES ESPORTIVOS. E ISSO COMEÇOU NAS QUADRAS, NO BASQUETE. O NIKE AIR FORCE TAMBÉM. O PESSOAL FALA DO NIKE DUNK, ELE TAMBÉM COMEÇOU NAS QUADRAS, MAS GANHOU UMA FAMA MUITO GRANDE QUANDO ELE FOI PRO SKATE. ENTÃO HOJE, MUITOS DOS CALÇADOS QUE ESTÃO NO HYPE, MUITAS COISAS QUE A GENTE AMA HOJE, VEIO DO ESPORTE.

Falando sobre tênis agora. A gente imagina que você deve ter uma boa quantidade de tênis, e sabemos que escolher um só não é nada fácil. Então por que de todos da sua coleção, você escolheu falar desse Nike SB Dunk Low ‘What The PRod’?
A gente não consegue falar de tênis sem falar de influência esportiva. Hoje, a gente olha pro Air Jordan 1, 3, 4, 5, e eles são ícones de moda, mas principalmente, ícones esportivos. E isso começou nas quadras, no basquete. O Nike Air Force também. O pessoal fala do Nike Dunk, ele também começou nas quadras, mas ganhou uma fama muito grande quando ele foi pro Skate. Então hoje, muitos dos calçados que estão no hype, muitas coisas que a gente ama hoje, vieram do esporte.
Esses tênis seriam grandes se não tivessem esses astros, se não tivessem esses esportes atrás deles?

Eu, como sempre amei esporte, basquete e skate principalmente, sempre tive uma ligação muito forte com tênis. Na época que eu tava na Puma, eles lançaram uma linha com a Diamond, e nossa… Eu tenho esses tênis até hoje, acho que são os únicos tênis da Puma que eu não me desfiz, porque é minha paixão, porque era um Suede Diamond. Quem é do skate, das antigas sabe do Nick Diamond e tudo que ele fez pela cultura do Skate, é muito foda.

Eu tenho uma paixão muito grande com a linha SB, principalmente com a do Paul Rodriguez. Na época que eu andava de skate tinha muito uma divisão entre o seu estilo de skate – você era gangueiro ou “punk”. Quem que era a referência dos gangueiros? O TX, Paul Rodriguez, o Luan. Quem que era a referência dos punks? O Chris Paul, o Salabanzi. Essa galera eram referências. Só que pra mim, o Paul Rodriguez sempre foi muito absurdo, uma referência muito foda. Eu olhava o jeito que ele andava, com a camiseta e calça largona, e aquele SB gordão, todo bonitão. Essa era a diferença também entre o gangueiro e o punk, era o tênis puff contra o vulcanizado.

De fato o Paul Rodriguez sempre teve esse finesse a mais, um estilo muito pessoal dele, que fez com que ele até transcendesse um pouco o mundo do skate. A linha dele sempre fez muito sucesso, você chegou a ter algum PRod?

O meu primeiro Paul Rodriguez foi o 2.5, que era um fat tongue, mas meio híbrido. Ele lançou o 1, o 2, e aí entre o 2 e o 3, ele lançou o 2.5. E aí o meu segundo foi um Paul Rodriguez 3 ‘5 de maio’ – ele tem descendência mexicana, então todos os modelos que ele teve até então com a Nike, tinham o tema ‘5 de maio’, uma colorway específica de comemoração ao México e a esse dia. Eles eram sempre um tom verde, vermelho e branco.

Eu sempre gostei muito dele e eu queria ter o tênis do meu ídolo – além do Paul Rodriguez 2.5, eu tive do 3 até o 8. E era muito engraçado, porque na época o Dunk – que hoje todo mundo se mata pra pegar – em 2007, por aí, você encontrava ele na Central Surf, Overboard, essas lojinhas assim de shopping, ninguém dava nada pra ele. Então é muito engraçado ver que naquela época não tinha o hype, a história do cara que comprava o tênis sempre era: ele é skatista, que tá começando a trampar, não tem muito dinheiro, então ele vai comprar as coisas de outlet. Eu lembro que quando eu comprei o meu Paul Rodriguez 2.5 no outlet eu cheguei no rolê “olha, olha, meu Paul Rodriguez!”, e achava que tava andando que nem ele de skate.

AÍ QUANDO EU COLOCO ESSE TÊNIS DÁ AQUELA SENSAÇÃO “MANO, PONHO ESSE ELE NA LIXA OU NÃO? PORQUE EU PRECISO COMPARTILHAR ESSE MOMENTO”. ELE É MUITO ICÔNICO PRA MIM E TRAZ TODAS ESSAS LEMBRANÇAS – A LEMBRANÇA DO BRAÇO QUEBRADO, DOS MEUS AMIGOS NO PARQUE DA JUVENTUDE, DA MINHA VIAGEM PRA LOS ANGELES, A LEMBRANÇA DE ENCONTRAR O PAUL RODRIGUEZ AQUI NO BRASIL.

E você não tinha dó de colocar um tênis desse na lixa?

Não! Zero dó. Eu comprava o tênis pra por na lixa, usava até o máximo passando cola quente, silver tape no tênis pra durar, e depois quando começava a abrir eu comprava outro. Em 2012 quando eu tava estudando em Los Angeles, eu fui num outlet e comprei o 4 e o 5, eu tava apaixonadasso nos tênis. Eu tirei ele da caixa, coloquei na mala, e trouxe pro Brasil. O que eu fazia com eles, eu usava muito como tênis de sair, e aí quando começava a abrir eu falava “agora você vai virar tênis de skate.” E jogava na lixa.

Em 2014 o Paul Rodriguez veio pro Brasil na La Ruta Panamericana, que foi um evento que a Nike SB fez lá no Campo de Marte. Eu sempre gostei muito de escrever e na época eu tinha um blog de skate, onde eu falava o que tava rolando por aí. O pessoal da assessoria de imprensa da Nike SB falou pra mim “vai ter um evento, quer ir cobrir?”, eu aceitei, claro, mas achei que era só pra filmar os caras, e eles “Não, você pode entrar na área VIP.” Quando eu entrei eu dou de cara com quem? Paul Rodriguez! PÁ. Mano. E aí eu tava com um bonezinho da New Era que tinha um “SP”, que parecia muito o logo do Paul Rodriguez, e aí eu falei “mano, pelo amor de Deus, autografa!”. Tirei foto com ele, todo emocionado. Mano, acho que foi um dos dias mais felizes da minha vida.

Mas então, quando a Nike lançou esse Dunk ‘What The PRod’ fazia muito tempo que eles não lançavam uma silhueta com o Paul Rodriguez, parou no 10. Em 2019 eles lançaram um Dunk High SB, que era remetendo ao boxe, a luta livre e tudo mais, que eu comprei, obviamente, fã dele. Então na hora que eles anunciaram o ‘What The PRod’, eu falei “preciso muito desse tênis”. Significa muito pra mim, não só pela história que tem no skate, pela influência que o Paul Rodriguez me deu com o skate; mas ele consolida todos os tênis que eu não tenho mais porque eu acabei com eles andando de skate. É uma memória afetiva no tênis. Apesar dele ser novo, ele foi lançado esse ano de 2021, ele me traz muitas lembranças da época que eu fiquei andando de skate. E a hora que eu coloco ele no pé, cara…não sei explicar a sensação.

Sabe os vídeos do Paul Rodriguez com a Primitive? Mostrando o desenvolvimento do ‘What The PRod’ e ele andando? Eu juro que chorei olhando o vídeo, pra você ver meu nível. Porque o Paul Rodriguez ficou muito tempo sem andar e não tinha video parts dele há anos, e eles fizeram um exatamente pro tênis. Aí quando eu coloco esse tênis dá aquela sensação “mano, ponho esse ele na lixa ou não? Porque eu preciso compartilhar esse momento”. Ele é muito icônico pra mim e traz todas essas lembranças – a lembrança do braço quebrado, dos meus amigos no Parque da Juventude, da minha viagem pra Los Angeles, a lembrança de encontrar o Paul Rodriguez aqui no Brasil. Tudo isso, tudo que ele influenciou pra mim como skatista, pessoa, como paixão, a marca Nike também… é uma das paixões que eu tenho, graças ao Paul Rodriguez.

Você ainda tem algum desses PRods antigos representados nesse Dunk?
Eu não tenho mais, porque joguei todos na lixa. Mas mês passado eu encontrei um cara vendendo um Paul Rodriguez 5 que ele tinha usado pouquíssimas vezes, ele tava vendendo por 150 conto. Falei “é meu”, comprei na hora. Esse 5 eu pretendo jogar na lixa de novo pra não ter que jogar o Dunk. Não coloco na lixa, mas esse aqui já virou meu beater… aonde eu vou eu to com ele.

E você tem alguma outra silhueta preferida, ou modelo que você seja apaixonado também?
Eu gosto de todos, é muito difícil. Normalmente os tênis que eu tenho sempre têm uma história, uma ligação esportiva por trás. Por exemplo, eu peguei o Air Jordan IV ‘University Blue’, não só pela cor, mas por ele ser a cor do UNC – que é a universidade do Jordan, então ele é um dos meus favoritos atualmente também. O Dunk x Atmos ‘Elephant Print’ também. Não só por lembrar o Air Max 1 da Atmos, mas também porque ele lembra o Dunk da Diamond. 

A galera fala “ah, pra eu ser um sneakerhead de verdade, eu tenho que ter um Travis Scott, tenho que ter um Air Jordan…” Não, não precisa. Você só precisa ter um tênis que você gosta. É o tênis que te agrada, é a paixão que você tem por ele.

Nike SB Dunk Low ‘What The’ PRod
Dono: Don Amorim
Ano: 2021
Fotos: Gabi Nery