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O entrevistado dessa semana é o Luan Batista, fotógrafo e artista visual, que falou sobre o seu clássico Superstar. A entrevista dele faz parte do projeto Home Of Classics, um parceria entre nós e o SneakersBR com apoio da adidas. Neste projeto vamos contar sobre clássicos usados com muita história.
FOTOS POR PÉROLA DUTRA

“Eu sou o Luan Batista, sou fotógrafo e artista visual. Os meus hobbies são todos baseados nas artes visuais, na fotografia e tudo mais. Além disso, sou atleta profissional de patins street. Eu sou uma pessoa viciada em trabalho, o tempo todo estou pensando em trabalho, tudo que eu faço, compro e relaciono é baseado em imagem. Eu sou de um coletivo preto de audiovisual periférico, que chama Black Pipe Entretenimento. Também tenho uma empresa de fotografia, tenho algumas exposições de arte, já participei de vários campeonatos de patins (risos). E enfim, minha vida é meio que misturando tudo isso. Um pouquinho de cada tribo, um pouquinho de cada emprego. Como se fosse um milkshake gigante, pega tudo, bate. Faço um pouco de tudo, sou multi tarefas.”

PROCUREI A MELHOR FACULDADE DE FOTOGRAFIA QUE TINHA EM SÃO PAULO, E A MAIS ABSURDAMENTE CARA TAMBÉM (RISOS). FIZ AÍ O BACHARELADO DE FOTOGRAFIA, FIQUEI 4 ANOS IMERSO E TOTAL DEDICADO A ISSO. VENDI UM MONTE DE COISA, VENDI TÊNIS, VENDI ROUPA, VENDI EQUIPAMENTO, VOLTEI A MORAR COM MINHA MÃE. READAPTEI A MINHA VIDA PRA ME DEDICAR SÓ A FOTOGRAFIA.

Como você se interessou e se envolveu com a fotografia?

Meu ingresso na fotografia foi meio complicado porque não sou de uma família de fotógrafos, nem das artes, nada disso. Foi um gosto que despertou. Mas para começar, eu andava de patins e dentro dos esportes a galera gosta de fazer fotos e vídeos, e eu sentia que faltavam registro fotográfico – muito no patins street que é uma cena muito pequena no Brasil e ainda mais nós periféricos, do extremo leste. Então comecei a fotografar com a intenção de registrar isso e trazer à tona. Aí nas minhas sessões de terapia, e descondicionamento do olhar com o Cláudio Feijó – uma pessoa incrível – eu entendi que na fotografia em si, eu substituí um membro que eu sentia falta, que no caso, meu pai. Não convivo com meu pai – foi aquela velha história do pai que teve um filho e sumiu. Enfim, nessa sumida, ele tinha deixado a máquina fotográfica, que eu ficava desmontando e montando quando eu era pequeno. Aquilo ficou no subconsciente.

Depois de anos minha amiga Raquel me ensinou os primeiros passos da fotografia, e isso despertou um estalo. Substituir a ausência do meu pai com a fotografia. O bagulho virou meu pai, essa ausência. Eu a fotografia e a minha mãe montamos a família baseado nisso. Eu decidi fazer faculdade, aí na minha neura, tipo: “pô, velho, tenho que estudar, tenho que realmente entender o que estou fazendo, tenho que pegar o melhor das coisas possíveis”. Aí procurei a melhor faculdade de fotografia que tinha em São Paulo, e a mais absurdamente cara também (risos). Fiz aí o bacharelado de fotografia, fiquei 4 anos imerso e total dedicado a isso. Vendi um monte de coisa, vendi tênis, vendi roupa, vendi equipamento, voltei a morar com minha mãe. Readaptei a minha vida pra me dedicar só a fotografia. Eu fiz a loucura de entrar na faculdade sem bolsa, sem desconto, sem incentivo, sem pai ou mãe pra pagar. Eu paguei tudo do meu suor, do meu esforço, do corre. Tanto que este foi o último tênis que comprei quando eu entrei.

Ah, e eu participei de reality show em 2017! Chegou a esse extremo aí! Foi um bagulho louco. Fui convidado pra participar de um reality show de fotografia. Do nada me acharam, acharam meu trabalho, me ligaram e falaram “Meu, tem um projeto aqui de reality show, você quer participar?” Eu fui pensando que eu ia trabalhar na parada. Na entrevista eu falei “Nossa! Gravar um reality show, nunca fiz isso!”, aí eu cheguei lá e falaram “Não, você vai participar do reality show!” E eu “Quê? Eu, participar de reality show?”. Aí rolou e foi incrível. Acho que na fotografia foi uma imersão louca. Primeira vez que vi meu trabalho sendo valorizado, saca? Tinha uma galera curtindo, vinha gente de outro estado falar comigo, falando “ow, vi suas fotos”. Foi incrível. Gerou um livro, né? Que foi algo foda. Eu sempre tive a pira de fazer um livro, ainda tenho essa pira. E já editei livro pros outros, já fiz curadoria de livro dos outros, mas nunca cheguei a fazer o meu. Aí tem um que tem eu! O que já é um começo. Aí depois disso tem o do meu TCC, que é um livro baseado no que foi publicado também.

O que o objeto tênis representa pra você?

Tênis é um bagulho louco. Ter desapegado dos tênis foi foda. Pelo menos eu não tenho aquele negócio de “passei na vitrine e comprei um tênis” sabe? Eu compro tênis que eu quero ter. O Adidas Brooklyn, que comprei em 2015, foi por vários motivos. Eu sei a história do tênis que eu calço. Pra mim o tênis representa muito a personalidade da pessoa. Tipo, posso ter vários tênis, mas você vê assim que a maioria segue uma mesma linha. Eu só uso preto e a única coisa que eu uso de cor, é o tênis. Você não me vê de roupa colorida na rua. Mas com um tênis colorido você me vê várias vezes.

Eu sei que tênis tem um valor, história, tem o porquê o cara fez o tênis. Aí eu vou mais longe tipo essa costura é assim porque o cara pensou no design, pensou nesse desenho, todas as cores, não é esse cadarço a toa. É como se fosse uma foto. Tem um porquê das coisas da minha foto, o lugar tem um porquê, que eu escolhi isso do cenário, porquê da luz. O tênis é a mesma parada. O cara fez de camurça por um motivo, a linha é branca por outro motivo. Ele tem a historinha dele.

Por que de todos os seus Adidas você escolheu o Adidas Superstar “NYC East River Rivalry” para contar sua história? 

Vou contar a história inteira dele então. Quando eu tava nessa imersão de entrar pra faculdade, eu estava sem grana, ia fazer uma faculdade cara, de boy, sem bolsa, sem nada, então eu tive que fazer dinheiro. Eu comecei a vender tudo o que eu tinha. Vendi roupa, vendi minha coleção de bonés, meus tênis e vendi várias câmeras analógicas também. E eu trampava num lugar zoado, eu era analista de TI da Polícia Militar, então eu trampava dentro do Quartel General da Polícia Militar lá na Estação Tiradentes, no Bom Retiro. Era estressante estar dentro daquela parada, era tóxico. Aí eu tava nessa de entrar na faculdade, pagar tudo, então eu tinha na minha cabeça que eu ia ficar um grande período sem comprar tênis, sem comprar roupa, sem viver (risos). Ou viver comendo miojo.

Lá dentro da polícia é tudo padrão. Todos se vestem igual, todos os cortes de cabelo são iguais… E como eu vendi vários tênis, eu tava usando só botas e coturnos. E eu tava parecendo um deles, eu tava usando coturno, e todo mundo lá de coturno! Eu fiquei desesperado, eu não podia ser assim igual a eles! Aí nisso, trampando nesse lugar horrível, falaram “você é tão próximo de nós, até parece conosco, usa coturno igual nós”. Aí eu “Cara… não!”, comecei a ficar louco e falei “eu vou comprar um tênis agora”. E lá perto tinha a loja da Guadalupe, que fica bem pertinho do comando geral. Eu saía pra almoçar, e toda vez eu passava na frente, e ficava olhando os boots na vitrine.

Aí na época a Adidas lançou aquela coleção de Superstar da rivalidade do Brooklyn Nets com o New York Knicks. O Brooklyn era preto e branco e do Knicks era azul e laranja. Aí eu olhei e falei “nossa, foda, eu vou ter um Superstar, um clássico que eu ainda não tive. Vou ter que comprar esse boot”. Aí por maldição das coisas, a Guadalupe colocou na vitrine o preto, e eu ia almoçar todo dia olhando pra ele. Eu queria muito ele. E eu tava meio sem grana, tinha acabado de pagar a faculdade. Vendi tudo pra pagar a faculdade. Aí pra juntar a grana eu comecei a comer pouco e economizar no almoço.

Tinha um Banco do Brasil do lado do trampo, fui lá e falei “preciso de dinheiro, que que dá pra fazer aí? Que que nós podemos fazer? Empréstimo, cheque especial?” (risos). Aí fizemos um esquema lá, falaram “pega um cheque especial e paga quando receber”. Aí eu peguei a grana e fui na hora comprar o boot e já coloquei no pé. Eu não vou ficar parecendo esse putos e já fui trampar com ele já. Aí todo mundo ficava olhando o tênis, “ow, e esse tênis aí?”, daora né, velho? Muito foda, é o Brooklyn e pá. Aí depois disso eu saí do trampo. Eu fiquei lá mais uns dois meses.

Então esse tênis ficou marcado nessa trajetória de sair do trampo zoado, que todo mundo queria que eu fosse igual eles e me jogar direto na fotografia. Meu Superstar fez parte da maioria dos corres, porque era um dos únicos tênis que eu tinha, e foi o que eu mais usei. Por isso que ele ficou bem detonado. Ele era o tênis do corre. Aí rasgou a frente, ficou bem amarelinho, mas até que ele resistiu bem pra um boot de camurça.

Saberia falar um pouco pra gente a história desse pack?

Quando saiu esse tênis, 2015, foi a comemoração da rivalidade do Brooklyn Nets com o New York Knicks. E é muito louco, porque é uma rivalidade de anos assim; eu conheci uma galera de Nova Iorque que falou que o bagulho é tipo Corinthians e Palmeiras (risos). Eu achei legal a marca trazer essa rivalidade saudável e homenagear os times. Eu só senti falta de um pack misturando os dois, mas aí acho que seria uma rixa muito grande (risos).

Adidas Superstar “East River Rivarly”
Comprado: 2015
Dono: Luan Batista
Fotos: Pérola Dutra
Vídeo: Julio NeryLuisa Oguime