FOTOS POR JULIO NERY

“Tenho 26 anos e sou formado em Marketing. Costumo dizer que faço coisas que as pessoas não sabem que faço, estou em coisas que as pessoas nem sabem que fiz. Sou produtor musical, diretor audiovisual, Mc, DJ e o que precisar também (risos).”

Você faz parte de projetos como o Artefato, Massive Culture e outros. Poderia nos falar o que é cada um e qual o seu papel dentro deles?

O meu papel é fazer mano (risos). Tenho uma produtora e um selo chamado Artefato, que a gente gerencia a carreira de alguns artistas do Rap, gente de São Paulo e de Minas, gerencio a minha própria também – com essa parada de ser DJ e curador de eventos. Ano passado tive o prazer de trampar mais com a Nike e ser curador de eventos deles, como o Battle Force, foi uma parada muito importante – era pra comemorar os 35 anos de Air Force, que é um tênis muito especial pra mim e foi muito foda fazer parte desse evento de uma forma mais interna.

Costumo me ajustar de acordo com a demanda. Se tô afim de ser DJ, vou focar, tocar meus sets e discotecar. Se estiver afim de fazer um disco, vou lá e faço. Se tô afim de produzir os moleques, vou lá produzir os moleques. Consigo escolher onde eu vou focar as minhas energias.

De onde vem sua paixão pela música?

É muito louco isso mano, porque a minha família não é de músicos, não tive referências de dentro, mas com 7 anos de idade eu entrei no coral da escola. Falo que a última coisa que eu devia estar fazendo é Rap – estudei da 1ª a 4ª série em colégio de freiras e do 5º ano até o 3º do colegial no colégio da Polícia. Então se tem alguém pra criticar, eu posso criticar, tá ligado? Algumas coisas com a Igreja ou a Polícia eu tenho propriedade pra falar (risos). O que aprendi lá é ensinamento, mas chega como doutrina pra você, então a música faz parte da minha vida porque eu fui atrás. Vi que tinha uma aptidão maior por escrever, conectar palavras, contar histórias e isso de alguma forma formava um Rap.

O primeiro Rap que escrevi foi porque um amigo meu passou no tiroteio, tava no meio das balas perdidas e relatei isso na forma de rimas, eu devia ter 9 anos de idade. Fui tomando gosto por isso, conhecendo e ouvindo mais, tendo referências internacionais e nacionais e vendo que podia fazer isso também. Por isso que hoje não faço só música, eu tô dentro da música. Não só faço música porque acredito que dá pra ser muito mais, a música depende de gerenciar, divulgar, planejar e etc.

Como você relaciona o estilo com o mundo da música?

É um bagulho louco porque vem dentro do pacote de quando você começa a gostar de Rap. Você entende que é uma cultura muito grande, que te traz toda uma gama de informação que você nunca teve – é a mesma coisa se você curte Rock, ou Grunge – vem uma gama de informações que você tem se adequar. Vem a roupa, a forma de falar, de andar na rua, de comprimentar as pessoas, a minha música veio com isso.

Sou um muleque da Zona Leste, no bairro que o que toca de Rap é Racionais, de resto era Pagode, Axé, Samba, tudo isso te influencia de alguma forma, por ver que era gente preta fazendo arte. Depois comecei a gostar mais de moda, de me inteirar nessa questão de estilo. Já faz alguns anos que minha referência maior é o Kanye West, tirando as partes das loucuras, mas até elas são referências. O que o Tyler faz é foda também. o Virgil é uma paixão nova, conheço a uns 3 ou 4 anos, já conhecia o trampo dele mas não sabia que era ele que fazia.

Agora referência nacional eu sinto falta, acho que faltam referências que não são cópias de algo americano – o problema não é ser americanizado, temos que entender que a parada vem de lá, e de uma forma ou de outra o tênis que calçamos ou a roupa que vestimos é de lá, preparado lá. Hoje você vê marcas muito boas como a High ou a On The Run, que conseguem adaptar muito bem as coisas para o mercado brasileiro. As fotos são fodas, as roupas são fodas e é isso que a gente precisa! Referência nacional é uma coisa que sempre faltou no Rap daqui, porque quando vinha muita roupa faltava música e quando vinha muita música faltava o resto – achar esse equilíbrio hoje tá muito mais fácil, temos muito mais acesso, a gente consegue ver na internet, conversar com os caras e até importar uma roupa.

Tenho um portal chamado Massive Culture, que tenta trazer um pouco de notícia de mostrar mais esse mundo – é fácil, não é uma parada impossível – você se vestir bem, de querer uma coisa e conseguir usar e adaptar. É trabalhar com o que você tem, é saber usar.

Qual sua relação com tênis em geral?

Minha relação veio muito do bagulho de estar mais dentro no Rap, mais como ouvinte do que como fazedor dele. Era uma época que a gente via clipe na MixTV mano, tudo que aparecia na TV a gente queria ter de alguma forma porque era algo muito distante. Sempre tive uma relação muito louca com o Centro da cidade, desde quando estudava no colégio de freiras que ficava na Liberdade, já tinha uma relação com o oriental, com os caras donos das tecnologias, eles eram muito pra frente, eu sempre ficava chocado.

Meu pai sempre me levou muito pra Galeria [do Rock], quando eu era muito muleque – 8 ou 9 anos de idade. Ele ia cortar o cabelo e ficava dando rolê. Via as correntes, os tênis, as roupas largas, era tudo que eu via nos clipes de alguma forma chegando – porque você ia nas lojas de bairro e só via roupas de Surf. Essa proximidade com o tênis se juntou nisso, de ter essa relação com o centro e ver as coisas da TV mais de perto. Comecei a gostar, me interessar um pouco mais, não era tão aficcionado por tênis nem nada – eu era muleque de escola, queria mesmo era uma chuteira nova e ficar bem (risos).

Você já comentou aqui, mas você não se considera um sneakerhead, né?

Digo que não pela função que eles desempenham hoje, é bem louco. Acho que vejo a mesma coisa com disco, com gente que coleciona vinil. Esse Air Force tem 11 anos, isso me faz um sneakerhead por eu guardar um tênis por 11 anos? Que está todo fudido mas que tem uma memória muito afetiva pra mim? Quando eu estiver muito rico, vou deixar ele com a minha coleção de tênis, dentro de uma caixa de acrílico? Provavelmente, mas não sei se isso me faz um sneakerhead. Eu gosto, mas gosto muito mais do geral do que ficar estudando um tênis ou marca específica.

E é foda essa galera que coleciona e entende muito, porque involuntariamente eles te olham com aquele ar superior, saca? Por exemplo, tá todo mundo de Off-White, ai você cola com um Air Max 90 e todo mundo te olha com aquela cara, sabe? Caralho mano, é o que eu tenho!

Qual sua relação específica com esse Nike Air Force 1 “Players”?

Esse foi o meu primeiro Air Force – ele é de 2007, foi comprado no mesmo ano, na Galeria Presidente (que é a do lado da do Rock), com a grana do estágio que fazia no Poupatempo. já tinha passado o meu aniversário, que é dia 31 de Dezembro, então é difícil ganhar presentes (risos) e fui ver os lançamentos, não sabia qual era o modelo mas eu tinha me apaixonado na hora, porque lembro que veio o material promocional dele aqui. A loja tinha uns posters com os caras vestidos com uniformes da Força Aérea, era muito foda! Me apaixonei pelo tênis mas faltavam 200 reais, e ai foi a primeira vez que meu pai fortaleceu em um tênis mano, ele viu que eu tava querendo muito, me levou na Galeria e falou “Vamos lá pegar”.

Peguei esse tênis e de uma forma, não sei como, mantive ele. Foi meio que uma memória inconsciente: Meu primeiro Air Force, o primeiro sneaker que eu quis muito e que usei muito também, nunca criei esse apego com calçados de pegar e deixar na caixa. Eu pego e uso, uso mesmo. Cuido menos que deveria, mas faz parte.

Essa época pra mim foi muito louca, porque eu estava trampando, era adolescente, não tinha conta pra pagar, então comprava muito tênis nessa época, era rato dos outlets, no nível de colar na Zona Sul pra comprar tênis. Quando peguei o Air Force descobri que era o meu tênis favorito. Hoje eu devo ter 12 ou 13 pares, mas já chegou a 20. Além de ter uns espalhados pela casa, que acabei guardando, como esse aqui. Enquanto a borracha não apodrecer vamos usando.

Gosto tanto de Air Force que o primeiro Jordan que comprei era o híbrido com o Force. Agora ele tá todo fudido porque faz tempo que tenho e jogo basquete com ele, e é engraçado porque a galera gosta porque ele tá envelhecido! Como a sola é do Air Force mas tem a bolha de ar, ele tá todo fudido por dentro mas a borracha tá intacta, é muito louco.

O que mais gosto no Air Force é algo que também tenho nos meus trampos, que é legado – o Air Force pra mim é isso, é um tênis que deixa legado – consigo lembrar de Air Forces de 5 anos atrás, consigo lembrar daqueles de 10 anos atrás. Os outros tênis que tive, como o Air Max, não ficavam tanto na minha memória. Então pra mim o Air Force é um legado da Nike, ele criou um bagulho muito foda para o mercado, é um tênis que tem música! As pessoas fazem música pro Air Force naturalmente, sem precisar ser pago pela Nike, porque é um tênis que fez parte de uma cultura, igual o Adidas Superstar foi nos anos 80.

Você tem alguma história com ele?

Como ele é de 2007, passei muito tempo com ele no pé, era o tênis que eu usava na escola, então ele fez parte de muitos momentos. Cheguei a jogar bola com ele, hoje acho um pecado fazer isso, mas fiz na época de adolescente porque era o que tinha. Eu me focava muito mais em me divertir e estar lá no momento, independente do que eu estava vestido, do que cuidar do meu tênis. Mas hoje, com 26, não saio pro Carnaval com um tênis foda, saca?

Esse tênis fez muita parte da minha adolescência e tem muito a ver com autoestima também – sempre era o preterido da sala porque não era o branquinho bonitinho, mas você tá se sentindo bem porque você está usando uma coisa sua, que pessoas como você estão usando nos clipes, nos filmes, na própria galeria, que era lugar que você ia pra ver gente como você. Esse tênis fez parte da minha adolescência e ajudou a moldar a minha autoestima.

Qual é o seu tênis dos sonhos?

Que pergunta difícil (risos). Mas o Nike Yeezy Red October, o Net/Net é quase dos sonhos porque queria muito ter pegado mas eu era muito novo e não sabia como funcionava a mecânica, acabei perdendo a fila. Mas a Nike me enganou, porque eu liguei lá perguntando se ia ter na loja de Pinheiros, quando tinha uma ainda né, e falaram que não e no final lançou lá. Fiquei bem puto.

Nike Air Force 1 “Players”
Dono: @nego_e
Ano: 2007
@julioneryy