Dessa vez você não vai ler a história do comprador de um tênis, e sim do seu criador. Pomb é um ilustrador de Brasília que se mudou para São Paulo atrás de viver do seu trabalho autoral. De repente, um e-mail diretamente do escritório da Nike Global trouxe a oportunidade dos sonhos.
Pomb criou o Air Jordan 1 do projeto Los Primeros, uma série de 04 tênis que celebram as heranças latinas. Da ilustração aos materiais!
FOTOS POR PÉROLA DUTRA

“Meu nome é Thales mas o pessoal me conhece como Pomb. Trabalho como freelancer de ilustrações, e nas horas vagas, sempre quando dá, eu pinto na rua. Me formei em 2015 em Design Industrial lá em Brasília. Trabalhei em algumas agências de design e no GDF na Casa Civil como designer, mas depois de morar fora por um tempo, eu percebi que eu só queria fazer trabalho autoral. Desde que eu propus isso a mim mesmo, deu certo. Não é fácil, por que viver de freela em qualquer lugar não é fácil, mas a gente vai construindo uma trajetória, virando referência em algumas coisas e abrindo portas e conexões com outras pessoas.”

Quando você começou a ilustrar?

Eu sempre desenhei desde moleque, eu tinha muito interesse por desenho animado – eu comprava Cavaleiros do Zodíaco e ficava copiando por cima o desenho dos bonequinhos, eu adorava fazer isso e virou um processo natural. Eu me sinto muito privilegiado em ganhar dinheiro e sustentar a minha vida fazendo o que eu faço, claro que não é nenhum luxo mas é muito prazeroso.

No começo da faculdade eu pirava em carros e queria focar em design de produto para desenhar eles. Mas no 3º semestre eu percebi que eu nunca conseguiria uma carreira nisso, esse ramo é muito difícil no Brasil e aí eu fui perdendo o tesão. Ao mesmo tempo, eu fazia os meus desenhos autorais, eu já pintava na rua, então foi um processo muito natural de transformar isso em ofício. 

Como foi essa sua transição em ser um artista em Brasília e um artista em São Paulo?

Eu me mudei para São Paulo justamente para ganhar mais mercado e fazer acontecer aqui também, aqui tem muita oportunidade. Em Brasília eu estava muito bem, estava pegando trampos para caramba, conseguindo viver disso tranquilo. Mas quando eu vim para São Paulo foi um choque, eu não conhecia ninguém, eu não tinha nenhum contato. Foi uma porrada na cara, eu ficava pensando “caraca o que eu tô fazendo aqui?”. Foram três meses de dureza mas eu nunca desacreditei de mim, eu queria fazer acontecer.

Agora tá rolando bem, eu ainda pego muitos projetos em Brasília, mas eu acho que tem muita coisa para acontecer aqui em São Paulo, é só o começo da caminhada ainda. 

Agora falando do seu Air Jordan 1, como que foi esse convite da Nike Global para fazer o tênis?

No final de 2016 eu tava aqui em São Paulo, tinha acabado de me mudar. Era um domingo, eu tava sem trampo, sem bosta nenhuma. E aí chegou um e-mail da Nike para mim, tudo em inglês. Dizia algo do tipo “somos da Nike, adoramos seu trabalho e gostaríamos de realizar um projeto envolvendo artistas latino-americanos e o seu nome foi citado. Você teria interesse de saber mais sobre o projeto?”. Eu fiquei em choque e eu respondi falando que estava muito interessado.

Foi tudo bem rápido, duas horas depois a pessoa entrou em contato, fizemos um Skype e aí virou. Eles falaram que encontraram meu trabalho no Instagram – para você ver a força da rede social! Uma pessoa lá dos Estados Unidos tava procurando algum artista aqui no Brasil, e me achou. Com certeza eles viram o trabalho de outros artistas também e escolherem o meu, no meio de tanta gente boa aqui no Brasil, foi muito bacana. 

ELES ME DERAM LIBERDADE TOTAL, O QUE FOI MUITO BOM MAS AO MESMO TEMPO MUITO DIFÍCIL. EU FIQUEI BASTANTE TEMPO PESQUISANDO E BOLANDO ALGUMA COISA, FOI UM PROCESSO TRANQUILO MAS ÀS VEZES QUANDO VOCÊ É GUIADO, É MAIS FÁCIL.

E qual foi o briefing do projeto? O quanto de liberdade criativa eles te deram?

O nome do projeto era “Los Primeros” – o objetivo era contar um pouco da herança Latina do México, Chile e Brasil. E com isso eu fui pesquisar e buscar as nossas raízes, desde os imigrantes europeus, aos africanos que foram escravizados, ao contemporâneo que seria os jovens de hoje, a fauna e flora, e tudo mais. O briefing era bem aberto – basicamente falar dessas nossas raízes latino-americanas que temos.

Eles me deram liberdade total, o que foi muito bom mas ao mesmo tempo muito difícil. Eu fiquei bastante tempo pesquisando e bolando alguma coisa, foi um processo tranquilo mas às vezes quando você é guiado, é mais fácil. 

No começo do projeto eles falaram qual tênis seria o seu canvas?

Eles me falaram que as artes seriam aplicadas em quatro tênis clássicos – o Cortez, Air Jordan, Air Max e o Air Force. Antes eles tinham definido que eu ia pegar o Air Force e me falaram “cria arte e vamos aplicar ela no tênis”. Mas eu tinha intenção de fazer uma ilustração bem complexa, e eu dei uma pesquisada e vi que a maioria dos tênis eram com patterns, algo bem simples, nunca tinha uma ilustração complexa. E aí fiquei pensando em como eu iria  aplicar essa minha ilustração; então eu comecei a propor para eles aplicações, para já guiar ele de alguma forma e deu super certo.

Eles praticamente atenderam 100% do que eu tinha falado, de material a cor, eles só mudaram o local da aplicação da ilustração. 

A estampa é extremamente elaborada, com diversos elementos e personagens. Conta um pouco para a gente a história dela.

Eu escrevi um Manifesto para ela que se chama “Roots” – são todas as raízes que abraçam e envolvem toda nossa herança Latina e cultural de memória do Brasil. Então esse cabelo da ilustração é ao mesmo tempo, as raízes que envolvem todo nosso povo, desde o menino com boné de ciclismo, ao Boi Bumbá, ao carnaval, aos Imigrantes, ao povo que pesca no Norte, aos índios, a fauna e flora, aos sneakerheads – e tá tudo junto e misturado. É isso, toda nossa herança e cultura Latina envolvidas e juntas. O Brasil é isso né, uma mistura total, oxigenada e muito rica. Eu explorei bastante as cores também.

O legal também é que essa trama, o “cabelo”, virou uma padronagem também e ela foi aplicada no tênis inteiro na parte exterior em alto relevo com verniz localizado.


Quando você foi chamado para o projeto, você sabia dos outros artistas que iriam participar também?

Eu sabia e foi muito foda! Foi aí que eu percebi o quão grande esse projeto era. Eu confesso que eu não conhecia o Wasafu, mas eu era muito fã do Saner e o Inti, os caras são monstros.Eu fiquei muito feliz de fazer o projeto ao lado desses caras e ao mesmo tempo muito nervoso, eu tinha essa responsa de fazer um trabalho tão bom quanto deles. 

O LOUCO FOI QUE ELES LANÇAVAM A CADA SEMANA DO MÊS UM PAR, E O JORDAN FOI O ÚLTIMO. DEU SOLD OUT NO SITE DELES EM 10 MINUTOS, FOI BEM MALUCO.

E muito legal ver também que esse projeto teve uma escala global.

O louco foi que eles lançavam a cada semana do mês um par, e o Jordan foi o último. Deu sold out no site deles em 10 minutos, foi bem maluco. Ao mesmo tempo eu recebi várias fotos de pessoal com caixas e caixas para revenda; tinha uns tênis já no eBay, foi bem dahora. Aqui no Brasil ficou vendendo na Artwalk por um tempo e na Guadalupe também. 

Air Jordan 1 LHM ‘Los Primeros’
Criado: 2017
Dono: POMB
📸 Pérola Dutra