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Larissa Rocha é fomentadora da cultura streetwear e estudante de Direito. Ela nasceu em Belo Horizonte e começou a se envolver com o streetwear e a moda através da música e da arte. Além disso, esteve por trás do Brazilian Apparel, grupo influente do streetwear nacional, e está por trás do Suptalk Br, grupo dedicado à Supreme no Brasil. Com sua ótica e dedicação para promover o streetwear nacional, desenvolveu o projeto “Valorize o Produto Nacional”, que apresenta e da publicidade para marcas brasileiras iniciantes no blog onde é redatora chefe. Hoje é uma das influenciadoras e protagonistas femininas do streetwear nacional e comanda o blog da The Game Collective.
FOTOS POR PÉROLA DUTRA

“Meu nome é Larissa Rocha, sou fomentadora e apaixonada por moda e streetwear, esse segundo assunto eu vivo desde meus 15 anos. Hoje estou cursando Direito – nada a ver com o que eu faço – e mesmo eu gostando do curso eu não me vejo trabalhando com isso . Eu me vejo trabalhando com moda e tentando fazer coisas em prol da cena streetwear nacional. No final de 2015 eu comecei o Suptalk Brasil, que é um grupo sobre a Supreme no Brasil, que tem o fim de conscientizar a galera sobre a marca, trazer histórias e tudo mais. Depois disso, me convidaram para ser administradora do Brazilian Apparel, que hoje é o maior grupo de streetwear do Brasil, ele existe desde a epoca do Orkut. E agora eu sou redatora no The Game Collective, fazendo conteúdo focado para a cena. Dentro do site eu iniciei um projeto chamado ‘Valorize o Produto Nacional’, para apresentar novas marcas brasileiras pois a galera não estava prestando a atenção nas marcas nacionais, vinham com o discurso “pago 600 reais numa blusa da Supreme mas não pago 200 numa nacional”, e isso é errado, tem muita coisa boa por aqui.

Muitas dessas marcas não tem muita publicidade, mesmo quando estão fazendo um trabalho super foda. Então fiz uma curadoria de marcas, e fiz matérias contando sobre a história, sobre a coleção atual ou algo a ser lançado. Comecei a postar essas matérias nos grupos e a galera foi aderindo, gostando do projeto, porque a gente valoriza muito o de fora e esquece o que tem aqui. No final, com esse movimento todo, fizemos um editorial misturando produtos dessas marcas nacionais com marcas internacionais para dar um contraste legal.

Com essa evolução toda, fui convidada pela Asics para falar sobre sneakers e isso deu um boost na minha imagem – eu já era conhecida pelos grupos também – e aí me vi como uma representante feminina do streetwear. Muitas meninas já vieram falar comigo, comentar que eu era uma referência para elas e eu quero que a presença de mulheres como referência neste mundo seja cada vez maior. Ninguém acha que é uma mulher por trás das coisas que faço, depois que descobrem ficam “nossa, que foda, aprendo muito com você.

Muita gente acha que mulher não entende de tênis, que mulher não gosta dessas coisas, sendo que hoje a gente prefere usar tênis do que sapato, em todas as ocasiões (risos). Ele casa com com uma calça, com um vestido, com o que seja – tem muito mais a ver com meu estilo do que com meu gênero. Muita gente menospreza, não esperam muito de você por ser mulher e quando você abre a boca e fala, os caras ficam “nossa, ela sabe mesmo”, parece que eu passei num teste sabe, é horrível. É isso que eu quero mudar com os meus projetos, com o meu ativismo, batendo na tecla que eu sou mulher e que estou aqui fazendo isso, pra no final a galera me respeitar.” 

Fale um pouco mais sobre o The Game Collective.

A gente fala tudo no mundo do streetwear, mas trazemos o que a galera quer também. Por exemplo, faço uma matéria sobre a Gucci, só que hoje a Gucci está muito inserida nesse mundo já, e é o que eu sempre falo, que o streetwear sempre esteve presente nessas marcas de luxo só que não era devido o conhecimento, eles não falavam de onde eles tiravam as coisas. Rolou com a Tommy, rolou com a Polo, de gente fazendo o movimento para a marca sem eles mesmo saberem. A primeira marca que começou a reconhecer isso, lá atrás na década de 80 foi a Tommy, que colocou uma galera da rua mesmo para fazer um lookbook. Então se eu faço uma matéria de Gucci, eu tento trazer os aspectos que essa marca pegou do streetwear. A galera está procurando muito essas marcas; e no final o público deles também quer se vestir como a galera da rua. No blog é basicamente isso, falamos sobre style, arte, música, sneakers e mais.  

TEMOS QUE PARAR DE SEGREGAR, FALAR QUE MULHER TEM QUE ASSISTIR CONTEÚDO FEITO POR MULHER E VICE VERSA, A GENTE TEM QUE GLOBALIZAR ISSO, ATINGIR A TODOS.

E quais são os planos futuros da Larissa?

Algumas coisas com a The Game, como a ideia dos editoriais, envolver mais as marcas nacionais neles e projetos independentes também, como o projeto das minas do streetwear, trazendo elas para falarem sobre o assunto; e algumas outras coisas aí que também não posso falar (risos).

O meu foco agora é seguir com o tema feminino mesmo. Trazer visibilidade pras minas, mostrar que sabemos do assunto, e criar conteúdo para todo mundo, para todos os gêneros consumirem. Temos que parar de segregar, falar que mulher tem que assistir conteúdo feito por mulher e vice versa, a gente tem que globalizar isso, atingir todos. Roupa não tem sexo, acabou gênero, todo mundo pode usar o que quiser. A moda é muito democrática, é comportamento e as pessoas acham que é tendência, mas não, tendência é diferente. Moda é para todo mundo, é expressão, é a sua personalidade sendo exteriorizada pela sua roupa, pelo seu tênis.

Na hora de comprar tênis, a minha ideia é essa – a história por trás, como ele foi desenvolvido. Compro muita coisa de collab, como esse da entrevista. Eu comprei ele mais pelo Raf Simons do que pela Adidas. Foi pela história do cara, de tudo que ele pensou no tênis e isso tudo é o que encaixa com a minha personalidade, é aí que eu compro um tênis, não porque todo mundo está comprando. Custei a comprar um Yeezy, eu gostei do Blue Tint que ninguém gostou (risos). Mas comprei também porque acompanho o Kanye West a muito tempo, um cara que é referência de música, de moda e não só porque todo mundo estava usando.

Falo para muita gente que eles perdem a melhor parte – eles não sabem o porque cada coisa foi colocada no seu lugar, quem desenvolveu, quem está por trás. Para mim é a parte mais gostosa, saber o conteúdo, se interessar e saber porque você está usando isso. Como por exemplo esse Adidas x Raf Simons, que faz parte e uma coleção de outono/inverno, essas cores foram colocadas aí para refletir essa estação do ano, não foi nada por acaso. Não entendo gente que dá R$6.000 num Jordan com a Off-White, mas não sabe o que o quem é o Virgil,o que ele fez, e muito menos qual foi a ideia dele ao criar o tênis. 

Falando sobre marcas, você consegue escolher uma marca de streetwear que melhor te representa?

Com certeza a Supreme (risos). Por causa da contracultura, pela reflexão das minhas vivências da rua, por representar as pessoas e o que estão sentindo, por representar o que elas estão fazendo; e até pela ideia minimalista da marca. Além de que, tudo o que eles fazem, vende! Eles fazem umas coisas muito nada a ver porque querem sair dessa linha de ser só uma marca de roupa. Então eles ficam lá se divertindo, criando coisas como um machado, uma máquina de pinball ou até quando estamparam a capa do New York Post – esse foi muito foda.

Se você for ver, a Supreme é uma marca pequena, ela não é uma marca global e de um mercado muito específico. Ela tem um espaço físico pequeno, mas que atrai todas as grandes marcas por causa do seu manifesto, por causa da galera que usa desde o início. Os skatistas que levaram a marca para as ruas, sem marketing, sem campanha, sem nada. A Supreme era uma loja que a galera do skate se encontrava, e era isso. O filme Kids, dirigido pelo Larry Clark, retrata bem isso, é bem podrão, subcultura mesmo. Ele falou que observava muito o movimento na frente da loja e começou a ver a galera do skate ali, todo mundo unido, trocando ideia, e quis fazer algo com isso. O filme foi um manifesto de cultura, do underground, do street mesmo, com atores que não eram atores de verdade, mas sim a galera que frequentava a loja mesmo e a Supreme estava lá indiretamente, com umas blusas pros caras/atores usarem.

Assim como por exemplo a collab da Supreme com a Nan Goldin, uma fotógrafa que eu sou apaixonada pelo fato dela retratar a realidade nua e crua, tirando foto da galera usando drogas, coisas bem pesadas, mas que são parte da realidade. A camiseta que eu comprei é da foto com duas travestis num táxi, uma foto muito icônica. Quando saiu a coleção, a galera ficou reclamando que tinham travestis numa camiseta da marca – eu fiquei pensando “a galera realmente não sabe o que é Supreme então”.

Outra coisa que me faz relacionar muito com a marca, é a valorização da cultura local – a grande maioria das collabs são com artistas de Nova York, que eram pequenos e foram pra loja e explodiram. Valorizar o local, valorizar o próximo é importante porque assim todo mundo cresce junto. E foi o que aconteceu, um crescimento gradativo, mas natural, a marca é hoje o que ela é porque ela fez o que deveria fazer. Não foi marketing, não foi apostar no dinheiro, a loja foi aberta com doze mil dólares e ninguém comprava, e hoje, todo mundo fica na fila, a Supreme gerou um super desejo para as coisas deles. A exclusividade não foi nem algo pensado, eles simplesmente não tinham estoque e no final, essa exclusividade, virou uma marca registrada deles.

No final, eu vi essa marca que representa tanto pra mim, se tornar banalizada aqui no Brasil, ela virou status e Supreme não é isso. Eu não compro para mostrar pra todo mundo que eu tenho. Por isso que eu falo que a galera perde o mais foda que as marcas oferecem, por uma banalização, pelo hype – palavra que eu odeio, aliás. O hype virou adjetivo, subjetivo, e não é nada disso (risos), é um termo propaganda como já dizia o Public Enemy “don’t believe the hype” (risos).  

ELA TEM UM ESPAÇO FÍSICO PEQUENO, MAS QUE ATRAI TODAS AS GRANDES MARCAS POR CAUSA DO SEU MANIFESTO, POR CAUSA DA GALERA QUE USA DESDE O INÍCIO. OS SKATISTAS QUE LEVARAM A MARCA PARA AS RUAS, SEM MARKETING, SEM CAMPANHA, SEM NADA.

O que é streetwear, pra você?

Para mim é o comportamento da rua, é uma unificação de vários comportamentos de pessoas que estão ali fazendo acontecer – sendo com o graffiti, sendo no jeito que você anda – é uma palavra que une a personalidade de diversas pessoas, de diferentes galeras que estão na rua fazendo o seu corre. A partir disso que vira um movimento, disso se extrai o jeito que você anda, o jeito que você fala, a gíria que você usa e tudo isso vira a moda – é um lance de identificação, de tribo. Como eu sempre vivi isso, ver a parada ganhar um conhecimento mundial, entrando em high fashion eu só consigo pensar em o quão foda é isso, sentir que estão dando o devido conhecimento pra galera que sempre fez esse movimento acontecer. 

Tirando marca e modelo – o que tênis representa para você?

O tênis é tipo um melhor amigo, é um parceiro. Imagina se um tênis falasse o quão foda seria, com todas as experiências que você teve, todos os lugares que você foi. Além de que, faz parte do streetwear, é o primeiro item a se ter, é a primeira coisa que te identifica, só de olhar alguém com um Jordan eu já tenho uma ideia de como é a pessoa. Talvez seja até o principal de todo um look, define o mood da pessoa no dia. 

E por que esse Adidas x Raf Simons Ozweego III Khaki foi o escolhido para a entrevista?

Pela história para eu conseguir ele, e pelo Raf Simons em si, que é um cara que mudou muito minha perspectiva de moda, que trouxe a subcultura e o comportamento dos jovens na época pra frente, exteriorizando isso nas roupas. Conheci o trabalho dele em 2014 quando o Kanye West falou que se inspirava muito nele. Antes desse Ozweego, já tinha saído outras collabscom ele, mas eu não tinha gostado tanto. Mas quando eu vi esse tênis eu só conseguia pensar que eu precisava dele. Eu tenho que admitir que não sou muito fã da Adidas, tenho muito mais Nikes, mas esse estava bem especial.

Foi o maior corre pra conseguir, minha mãe estava na Suécia, o tênis ia lançar em um dia lá e ela ia embora um dia antes do lançamento. Comecei a procurar vários sites suecos até encontrar uma loja que enviava para a o país inteiro, mas mesmo assim, minha mãe não quis ter essa responsabilidade de trazer o tênis. Depois disso, vi que o tênis tava vendendo na Farfetch por R$3.000, valor absurdo. Então eu procurei um reseller, o Ilson do The Hype Storeque comprou o tênis pra mim lá na gringa e foi um rolê, o tênis foi para vários países antes de chegar aqui no Brasil, e depois pra minha casa – o processo demorou 20 dias. Mas quando chegou na minha casa fiquei emocionadíssima, quase chorei (risos).

Logo depois que ele chegou, eu usei ele no Lollapalooza. Todo mundo surtou por eu estar com ele no festival, mas eu compro tênis pra usar, tenho uma parada sentimental que quero estar com o tênis, e ele está vivo até hoje (risos). Custei a conseguir, é um tênis que me identifica muito e por isso foi meu escolhido. 

Porque você acha que um tênis do Raf Simons com a Adidas não teve impacto tão grande, quanto outras colaborações com artistas mais “famosos”?

Acho que para você gostar de um design assim requer um pouco de conhecimento, não é um tênis que vai cair no gosto de todo mundo porque tem uma estética diferente. Então creio que para uma pessoa comprar um tênis como esse, ela tem que ter no mínimo um conhecimento prévio do designer, da importância do cara, do estilo e da estética dele. 

Adidas x Raf Simons Ozweego III Khaki
Comprado: 2017 
Dono: @lrssrch
📸 Pérola Dutra