FOTOS POR  VINICIUS MARTIN

“Sou grafiteira, minha formação é em design gráfico e história da arte, mas trabalho com artes visuais e arte-educação com oficinas de street art desde 2005. Estou no grafite desde 2002 e hoje esse é o meu trabalho principal, sendo que arte-educação veio em consequência disso.”

"Participo também do Efêmmera, uma rede de mulheres artistas que se relacionam de alguma maneira com a rua – não só grafiteiras, não é fechado pra nenhum ramo, a artista só precisa ter alguma relação direta com a rua. Sou produtora cultural e uma das fundadoras, esse é o projeto das nossas vidas, a idéia é que esse projeto seja o nosso trabalho principal, estamos trabalhando para isso.

Ser artista no Brasil é complicado, queremos viabilizar o Efêmmera como uma rede autossustentável e que consiga suprir a carência que temos na colocação no mercado de arte, pois para a mulher é sempre mais difícil de entrar. Então o projeto busca dar mais espaço pra ela nesse mercado.”

Conta pra gente como foi o processo de criação do Efêmmera.

O grafite é um universo muito masculino, entendemos que a maioria das pessoas que estão nesse meio são homens, mas entendemos também o porque disso. Existe a limitação da mulher, que engravida, que se casa ou que tem problema com aceitação da família, enfim, é muito diferente a aceitação do menino fazer grafite em comparação com uma menina. Eu sei bem isso porque na adolescência tive que passar por essa fase.

Nós percebemos que faltava um pouco essa sensação de pertencimento das meninas por não ter uma rede de apoio. Geralmente a menina tinha o primeiro contato com grafite pelo namorado, isso é muito natural, dela chegar no grafite através do homem. Então sentimos essa necessidade de ter uma união maior entre as meninas – a gente acabava ficando muito distantes umas das outras – e o Efêmmera veio com esse intuito. Não fazemos só o apoio, a gente pensa em deixar a coisa o mais profissional possível, a idéia é fazer um casting, viabilizar trabalho com grana mesmo, queremos mais a parte profissional do que somente o suporte.

Notamos também que as curadorias são sempre feitas por homens, então a gente acaba sendo muito segregada, as vezes eles colocam duas meninas só pra ter a cota feminina, sabe? Por ser um ambiente dominado por homens, naturalmente é um meio muito machista, rola sempre do cara pintar um local e aí chama a namorada pra pintar junto – não é do tipo “a mina tem um trabalho legal, vamos convidar”. Também entendemos que as vezes para a mulher desenvolver a técnica é mais complicado por ter outras tarefas – normalmente ela tem uma jornada dupla, ou até tripla. Já o cara consegue se dedicar 100% ao grafite, assim automaticamente ele desenvolve a técnica mais rápido. Vimos várias dessas demandas e o Efêmmera vem pra melhorar essa colocação da mulher nesse meio, o que conseguirmos fazer para melhorar, nós vamos tentar..

Quando você começou a grafitar?

Eu comecei na escola. Eu sempre gostei de desenhar e ficar rabiscando a minha casa – até que tem uma casa que a gente morou quando eu era criança, que chamávamos de “a casa riscada” porque as paredes eram completamente detonadas de desenhos nossos, meu e da minha irmã. Nós moramos na mesma casa desde meus 7 anos, então a rua inteira tinha postes com o meu nome pintado. Aos 18 anos, eu tava na escola ainda, conheci um pessoal que fazia umas tags, inclusive eles pintam e trabalham com grafite até hoje, são meus amigos. Na época, me convidaram pra pintar com eles, foi assim que comecei, isso foi em 2002 e tamo aí até hoje.

O curioso também é que depois de muitos anos, eu fui relacionar essa minha paixão com o grafite com o meu tio. Ele é arquiteto e sempre desenhou muito, fazia maquetes e ele era também a pessoa que fazia os desenhos da Copa do Mundo na rua! Então no período da Copa o pessoal chamava meu tio, o Edson, para pintar e eu ajudava ele. Só depois de anos eu fui relacionar – eu curtia muito, via o meu tio fazer, via ele mexendo com tinta, eu sempre acompanhava ele e via ele desenhando…e depois de anos eu fui fazer grafite, então tudo vai se conectando.

Você acha que a cultura dos sneakers e street influenciam sua arte?

Eu acho que como são culturas muito ligadas, eu relaciono direto com grafite. Normalmente quem gosta de grafite já tem uma tendência a curtir sneakers e etc. Eu gosto muito de moda, sempre fui muito ligada nisso, principalmente streetwear porque gosto de Rap. Música pra mim também influencia diretamente no meu repertório visual, mas talvez não no meu trabalho diretamente. Mas sim, eu diria que esses ramos influencia muito meu trabalho, talvez o tema não seja esse, mas sem dúvida tem influências.

O legal é que consegui uma bolsa na faculdade por conta do grafite – eu fazia o Projeto Aprendiz aqui no Beco. Eu participava das oficinas de grafite e participava das reuniões onde falávamos de arte e enfim, o Zezão e Boleta que davam. No ano seguinte, o Projeto Aprendiz fez uma parceria com a FAAP, os alunos que quisessem poderiam prestar o vestibular e quem passasse em uma colocação legal eles dariam uma bolsa de 90%, e eu consegui. Fiz faculdade lá e depois a pós em História da Arte.

Qual a sua relação com tênis em geral?

Eu sou suspeita porque eu sempre gostei de tênis, era um evento na minha vida o final de ano porque eu ganhava um tênis novo. Quando eu tinha uns 11 ou 12 anos, lembro que do tênis M2000 que eu queria muito! Eu sempre pirei em tênis e o meu primeiro de marca foi esse modelo, na época foi um evento comprar o tênis e hoje em dia ele nem existe mais. Tinha uns Nikes que eu herdava da minha irmã, que é mais velha, das minhas primas e eu ficava muito feliz quando o pé delas cresciam e eu ganhava os tênis. A minha irmã teve um Le Coq que eu pirava também – o pé dela cresceu e foi pra mim, fiquei muito feliz. Eu lembro de todos os tênis que tive.

Lembro também que eu curtia muito os tênis por conta do basquete, porque nas Olimpíadas de 92 teve o Dream Team nos Estados Unidos e o esporte ficou bem popular. Eu tinha um primo que curtia muito e a gente assistia os campeonatos de enterrada e ficávamos pirando nos tênis. Foi na mesma época que começou a sair os tênis dos jogadores, como do Charles Barkley, tinha também o tênis da Reebok com Chicago Bulls que tinha a bolinha de Pump, e etc. Não tive nenhum, claro, porque meu pai achava um absurdo gastar tudo aquilo de dinheiro em um tênis, ao invés disso ele me deu um Dharma, que era uma marca nacional que veio pra suprir essa demanda de tênis de basquete.

Tive um nacional, o Rainha Elastic System, que não tinha língua, acho que foi o primeiro tênis que era uma meia por dentro. No dia que comprei eu já saí com ele na rua, fui andar de bike, e tive a brilhante idéia de ficar freando com o pé – então no primeiro dia eu detonei toda a borracha, aí tive que pegar uma canetinha e ficar pintando a parte desgastada pra minha mãe não perceber que eu tinha feito aquilo com o tênis. Depois fiquei anos com ele pintado com a canetinha. Esse tênis era bem foda, a sola era toda transparente e você via o amortecedor por dentro!

Você se considera Sneakerhead?

Se a definição for só pela questão do gostar e você ser meio fissurado nisso, talvez sim. Mas acho que de um tempo pra cá, tá tendo a questão do “Hype”, de você não conseguir comprar e etc. Eu gosto de tênis porque eu gosto de tênis, e não porque ele vale muito dinheiro. Tem vários tênis “Hypão” que eu não curto e não compraria se tivesse grana…tipo o Yeezy eu acho péssimo, acho um horror, o shape é feio e eu sou muito chata pra shape.

Toda a cultura que cresce muito sempre dá uma desandada e depois fica meio chata. Na época que comecei a curtir sneaker, era mais a questão de gostar, do que ter, porque a gente não podia ter. Então se sneakerhead é isso, de você ser apaixonado pelo negócio, pesquisar sobre, então sim. Mas se for o fato de ter vários tênis raros, ou deixar de comprar isso pra comprar um tênis, então não, eu sou uma pessoa completamente controlada e consciente do que o tênis vale e não vale. Eu acho absurdo pagar R$2.000 no tênis, sendo que você coloca ele no pé pra andar – e com esse valor dá pra comprar um Fusca.

Porque você escolheu esse Jordan XII Vachetta para o ensaio de hoje?

Eu escolhi esse tênis primeiro porque eu curto muito o Jordan, o basquete que fez eu começar a gostar mesmo de tênis, então tinha tudo a ver escolher um tênis de basquete. E também eu achei muito especial esse tênis ser de uma linha da Jordan voltada para as mulheres – é uma simbologia muito bacana. Depois de tantos anos da marca, de tanta mina gostar de Jordan, só agora eles fizeram uma linha voltada para as mulheres. Então achei simbolicamente importante isso, até porque tenho um trabalho que é pensando na mulher e no espaço dela nessa cultura. Escolhi por causa disso, além dele ser um tênis lindo e maravilhoso. Vou limpar a sola quando chegar em casa com lenços umedecidos (risos).

Air Jordan XII Vachetta
Dona:@amandapankill
Ano: 2018
📸  @viniciuspontomartin