FOTOS POR PÉROLA DUTRA

Criado a partir da junção de dois clássicos, o Air Max 93 com o Air Max 180, o Air Max 270 chegou para ser o primeiro tênis da linha criado exclusivamente para o uso casual. A mistura das características mais marcantes de cada clássico é o que faz esse sneaker uma nova expressão da família Air Max.

A Nike nos chamou para falar desse lançamento e conversamos com três pessoas que experimentam, colaboram, misturam, evoluem e se expressam quebrando paradigmas.

“Meu nome é Artur Santoro, tenho 21 anos, sou novinho. Nasci em Roraima mas moro em São Paulo desde sempre. Sou viado e tô solteiro! (risos). Faço faculdade de Ciências Sociais na USP e Arquitetura na Escola da Cidade; estagio como curador no MASP onde pesquiso sobre Arte Negra, Arte Afro-Brasileira e Arte Afro-Descendente. Sou um dos produtores da Batekoo, junto com a Renata, Mirands e Maurício (os criadores da Batekoo) e toco em festas por aí como DJ– sou um pouco de tudo gente.”

Fala pra gente sobre a sua formação, o porque escolheu essas duas matérias.

Entrei na Arquitetura, porque queria estudar sobre a cidade, urbanismo, sobre como as pessoas se relacionam com o espaço público, como rola o diálogo entre o pessoal e o espaço urbano, etc. Me decepcionei um pouco com a faculdade porque o curso é muito focado em projetos de edificação, então decidi trancar por um tempo. Fui para a Ciências Sociais porque estava numa vibe de estudar a cidade, sobre opressões, sociedade, diferença entre raças, gêneros e sexualidade – sempre quis muito falar sobre isso só que pensando na cidade, ela como o local onde acontece todas essas relações sociais. Hoje estou na metade do curso de Ciências Sociais e dentro de lá a minha área de pesquisa é cultura e história Afro-Brasileira e Africana.

Ainda não sei qual carreira vou seguir, acredita? Mas é isso, trabalho com curadoria, com produção cultural do Batekoo, sou uma pessoa que está sempre fazendo mil e uma coisa, vários projetos. Gosto de dizer que “sigo o baile”, vou deixando as coisas acontecerem, aproveito as oportunidades que aparecem, explorando todos os caminhos – até porque né gente, sou muito novo ainda e não preciso escolher uma coisa específica.

Como você se envolveu com a Batekoo?

O Mirands e Mauricio criaram a Batekoo lá em Salvador, a história é que ia ser o aniversário do Mirands e ele estava se mudando de Salvador para São Paulo, então os dois resolveram fazer uma festa de despedida/aniversário com nome de Batekoo. A festa lotou muito, tinha gente do lado de fora, o pessoal gostou tanto que pediram para ter mais. Eles começaram a fazer a Batekoo mensalmente e um tempo depois o Mirands se mudou pra São Paulo com a idéia de fazer a festa aqui também. Por coincidência, ele começou a namorar um dos meus melhores amigos da época e foi assim que nos conhecemos.

Ele veio falar comigo porque conhecia mais gente aqui em São Paulo, assim comecei a dar auxílio pra eles, apresentei a Renata,  estava meio que no background e depois de alguns meses entrei oficialmente na equipe. Agora fazem dois anos que estou oficialmente com a Batekoo, sendo que ela está aqui em São Paulo a dois anos e meio.

Qual impacto a Batekoo causa por ai?

Quando rolou a Batekoo, tanto em Salvador, São Paulo e nos outros estados que ela acontece, chegou preenchendo uma ausência – que era a ausência de ter um rolê negro e LGBT. Tinha sempre os rolês LGBTs, várias baladas, até na Augusta para os gays brancos. Mas a Batekoo era uma coisa que precisava ter, acabou ocupando uma ausência que tinha e acho que foi por isso que a Batekoo explodiu.

Não acho que a Batekoo está inventando moda, ou qualquer outra coisa, até porque a ela é muito inspirada nos bailes funks dos anos 70 e 80 que rolavam no Rio de Janeiro e São Paulo; mas acho que ela acabou proporcionando um espaço que precisava. A gente está fazendo o mínimo, mas diria que ela chegou pra dominar e colocar a galera negra em evidência.

O que você quer expressar com seu estilo?

Acho muito esquisito falar “o meu estilo”, porque para mim usar essas roupas é muito natural, as pessoas às vezes acham que estou super montado mas na verdade é o meu look de comprar pão, sabe? Até chegar no dia de hoje, tudo foi um processo muito engraçado – quando tinha uns 16 anos, queria usar calça colorida, o que na época já era meio chocante e todo mundo ficou falando. Depois comecei a usar legging e as pessoas me olhavam com opressão.

A verdade é que quando você começa a usar roupas que não estão de acordo com o que a sociedade ou a “família tradicional” está acostumada, quando você tenta quebrar uma norma a sociedade te dá uma resposta – e a resposta normalmente é negativa, sempre com repressão. Quando  comecei a deixar o meu cabelo crescer, todo mundo ficava em cima falando que ficava bem mais bonito com o cabelo raspado. De novo, quando você começa a assumir uma estética que tem a ver com a sociedade negra, a sociedade te dá uma resposta que é racista querendo podar a sua identidade.

Ainda fico chocado como as pessoas se incomodam de você ter orgulho de ser quem você é.Como eu colocando uma saia, pode incomodar tanto uma pessoa que ela perde o próprio equilíbrio? Mas assim, o processo para mim foi de quebrar as barreiras, ir chutando e sempre falo: não sai do armário, eu explodi, quebrei todas as portas para não ter como voltar (risos).

Quando comecei a usar roupas que são consideradas para meninas, eu ficava com medo de ser agredido e xingado na rua, mas sempre falo que não podemos negociar quem a gente é. O importante é você se respeitar e usar o que quiser.

Quais são as pessoas, coisas e/ou lugares que te inspiram?

A Batekoo em geral foi um grande marco na minha vida, nela eu comecei a me soltar e usar o que quero, então digo que minha grande referência é o público que está nas festas. Admiro demais as pessoas, esse público me ajudou a abrir a cabeça em diversos aspectos, me ensinou muitas coisas sobre a realidade da cultura negra, da periferia, da cultura LGBT preta. Conheci pessoas maravilhosas – que são aquelas pessoas que botam a cara no sol e vai chegar chutando a porta, que está aí pra causar e que está contigo na luta.

Mas é isso gente, causem, bota a cara no sol, batalha contra seu pai chato, seu tio conservador, causa na mesa de jantar e quebra a porra dessa porta que ninguém vai voltar pro armário.

Qual sua relação com tênis em geral?

Umas das primeiras coisas que usei que eram “contra” as normas estabelecidas pela sociedade, eram os tênis. Lembro quando tinha uns bem estampados de modelos femininos; pra mim o bom do tênis é que grande parte são unisex, acho que não é uma coisa que tá totalmente pautada com separação de gênero.

Comprava vários tênis femininos e pra mim isso foi uma porta pra eu me sentir confortável e pensar “tá tudo bem, posso usar uma coisa que está na prateleira da seção para as mulheres”. Eu ficava muito receoso de entrar na loja e ir na seção de roupas ditas femininas, tinha muito medo do que as pessoas iriam pensar. Falando a real, roupa feito para homem é muito sem graça, são coisas muito básicas e limitadas, deve ser muito chato ser hétero (risos).

O ano passado a Batekoo fez uma grande presença na casa Air Max, como foi a experiência?

Esse é um dos projetos que eu mais gosto que a Batekoo participou, porque foi um dos maiores e também foi o inicio para o que a Batekoo é hoje. A Nike foi a primeira marca que convidou a gente para fazer alguma coisa grande e nos colocou em uma posição de destaque, eles foram a primeira galera a olhar pra gente. Foi um projeto dos sonhos porque a gente pode usar e agir do jeito que queríamos, lembro que nesse rolê eu estava só de body.

O que achei legal também é que eu não costumava usar esses tênis estilo running, não curtia e por isso nunca tive nenhum. Mas ganhei um da Nike, o Air Max 90, e foi o meu primeiro. Vou dizer que abriu a minha cabeça, até que hoje eu uso muito ele porque é muito confortável. Uso no dia-a-dia, nas aulas de dança do Batekoo e etc, cabe em vários momentos diferentes.

Nike Air Max 270
Dono:  
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Ganhado: 2018
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