E essa semana vamos abrir as entrevistas de 2021 com um papo muito legal que tivemos com a Carla no final do ano passado. Uma pessoa multi talentosa que faz um pouco de tudo – é fotógrafa, produtora executiva e DJ no Icecreamgirls e da rapper Clara lima. De tantos tênis cheios de histórias, não foi fácil escolher um único par, mas a Carla escolheu para o seu Kickstory o Sacai x Nike Blazer Mid – um tênis que carrega muita história por si só, e que representa muita coisa para ela por ser uma marca japonesa liderada por Chitose Abe, uma estilista que admira muito.

Chitose Abe não é apenas a diretora criativa da Sacai, mas é também a dona e fundadora, o que lhe dá total liberdade para fazer suas criações da forma como quer e no seu tempo que precisar. Após trabalhar com estamparias e padrões para CDG, Abe começou a Sacai em 1999 durante sua gravidez, onde sentiu a falta de roupas mais elegantes e funcionais para a mulher durante a gestação. E talvez seja daí que surgiu seu estilo de criar peças híbridas e funcionais, misturando duas peças de universos diferentes e que fossem usadas até por pessoas não ligadas à moda.

É possível ver claramente esse estilo aplicado no Nike Blazer lançado em colaboração com a Sacai em 2019. O tênis apresenta todas as principais características da Sacai – a sobreposição e a fusão de duas peças diferentes sem perder a usabilidade. Sendo assim, ele conta com uma mistura do Nike Blazer Mid e o Nike Dunk High – tênis que foi a plataforma da sua segunda colaboração com a Nike em um pack de 3 Dunks Highs. É fácil enxergar a silhueta do Blazer com as sobreposições de borracha no calcanhar e no toe cap, identificar a peça dos passadores do Dunk sobreposta no cabedal, e também, a icônica sobreposição do swoosh do Blazer com o do Dunk.
FOTOS POR PÉROLA DUTRA

“Meu nome é Carla, nasci em São José dos Campos, vim pra São Paulo com 17 anos para fazer faculdade e trabalhar. Hoje em dia sou produtora executiva, DJ e fotógrafa. 

Gosto de skate e rap desde, sei lá, os meus 14 anos, então quando cheguei aqui, eu já fui procurar trabalho nesse mercado. Procurei a pessoa que organizava o circuito profissional de skate no Brasil, pedi um estágio que rapidamente virou emprego (fiz faculdade de Turismo porque um dos ramos da profissão é organização de eventos, e eu me interessava muito por isso). Trabalhei com skate por alguns anos, foi muito legal, viajávamos o Brasil inteiro produzindo campeonatos, conhecendo pessoas, indo a festas. Época do filme Kids, aquele primeiro contato com a Supreme e depois comecei a fazer curadoria e produção para os shows dos campeonatos, eu gostava demais, era Kamau, Marechal, Shawlin, Parteum, Charlie Brown Jr e etc.

Bom depois resolvi mudar de ares, fui trabalhar na Trip Editora, fiz um MBA em Marketing, estudei umas outras coisas que eu precisei na vida assim – eu sou técnica de áudio, estudei fotografia, fiz aulas de DJ, enfim, eu gosto de aprender. Fiquei um tempo também numa gravadora fazendo produção de clipes, trabalhei com agenciamento de shows e produção de estrada, e depois voltei pra Trip fazendo produção executiva. Foi quando comecei a me dedicar mais à fotografia (eu já fotografava shows de rap). Na Trip eu tive a oportunidade de trabalhar com vários fotógrafos que admiro, diretores de arte super criativos, parceiros, aprender um pouquinho aqui, um pouquinho ali, sabe? Um jeito de dirigir, um truque de luz, skills de Photoshop, porque o diretor de arte escolhe aquela foto e não a outra… Então foi natural começar a fotografar mais também.”

E quando surgiu o Ice Cream Girls, e porque desse nome? 

Eu tinha um blog antigamente que falava sobre música, chamava “Café com Bolachas”, antes do Ice Blue (risos). Eu sempre gostei demais de rap, pesquiso muito e era o assunto principal do blog. Um dia a Vivi Varela me chamou pra tocar na festa de trap dela no Morfeus (Bataklan) como convidada especial e foi minha primeira experiência como DJ. Na época, 2016, era difícil ouvir rap atual nas festas aqui no Brasil, era só boombap, então foi legal demais.

Um tempinho depois a Flora Matos chamou eu e Vivi para fazer uma festa só de trap no Nola, lá na Vila Madalena. Eu tinha acabado de voltar de Los Angeles e tinha ido numa festa de verão lá chamada “Ice Cream Sundays”. Sabe quando você vai num lugar que tá tocando o que você sempre quis ouvir, todo mundo com tênis foda, estilo foda, todo mundo bonito, dançando? Eu me encantei nessa festa, falei “nossa, eu quero fazer uma assim aqui no Brasil”. Aí comentei com elas e ficou “Ice Cream”. Era para ser somente uma edição em uma terça-feira, mas deu certo, bombou, e na segunda já virou semanal. A gente ficou lá no Nola por um ano com a Flora, aí ela começou a focar nas coisas dela pra lançar outro disco, eu e a Vivi continuamos e a festa virou “Ice Cream Girls Club”. Essa festa no Nola durou uns 2 anos ou 3 anos, aí a gente saiu de lá e eu e a Vivi viramos uma dupla, Ice Cream Girls.

NA PARTE PRÁTICA, É MUITO BOM SER PRODUTORA E FOTÓGRAFA, POR EXEMPLO, SUPER COMPLEMENTARES. TANTO PELO FATO DE QUE POSSO FAZER AS DUAS COISAS EM SITUAÇÕES ESPECIAIS, COMO UM EXEMPLO, PRODUZI E FOTOGRAFEI UMA VIAGEM COM A DJAMILA PARA DETROIT PARA A GOL!

É muito legal ver que você faz um pouco de tudo e no final todas essas coisas se conectam. 

Pois é, acho que a gente não precisa se limitar. Engraçado que esses dias eu tava pensando sobre essa pergunta que vi: “você sabe responder quem você é, sem falar sua profissão?”. Não é uma viagem como é difícil responder isso? Como você define a sua soma de experiências? 

Na parte prática, é muito bom ser produtora e fotógrafa, por exemplo, super complementares. Tanto pelo fato de que posso fazer as duas coisas em situações especiais, como um exemplo, produzi e fotografei uma viagem com a Djamila para Detroit para a Gol! Quando eu puder contribuir, melhor para a minha equipe. Ser DJ e ter estudado áudio também é útil. Na hora certa, tudo se conecta.

E você tem outros projetos como DJ?

Nesse meio tempo a Clarinha Lima me convidou pra ser DJ dela, que foi uma honra pra mim, ela é foda demais. Talentosa, focada, gangsta do coração enorme. Ela merece tudo, é um privilégio muito grande trabalhar com ela.

Eu tenho também um projeto que é de descobrir mulheres MCs pelo mundo que se chama “365 Mulheres que Rimam“. Eu vou pesquisando e descobrindo mulheres no Brasil, Japão, Marrocos, Itália, Coréia, Angola… Só mulheres que fazem rap, seja boombap, trap, grime, drill e etc. Eu comecei o projeto porque quando a gente começou a tocar – eu presto muita atenção nisso – tinha set de DJ que era 100% só rapper homem. Não tinha uma música de mulher, e quando tinha, era tipo, uma. Ou cantando um refrão. Tanto que quando a gente toca, quando eu toco, eu faço questão: ou a maioria dos sons é de mulheres, ou, pelo menos, metade. E aí esse projeto é pra galera conhecer artistas novas, se acostumar com mulheres protagonistas, enriquecer os sets e playlists. E ver que tem muita gente fazendo coisa foda em todos os países.

EU TENHO TAMBÉM UM PROJETO QUE É DE DESCOBRIR MULHERES MCS PELO MUNDO QUE SE CHAMA “365 MULHERES QUE RIMAM“. EU VOU PESQUISANDO E DESCOBRINDO MULHERES NO BRASIL, JAPÃO, MARROCOS, ITÁLIA, CORÉIA, ANGOLA… SÓ MULHERES QUE FAZEM RAP, SEJA BOOMBAP, TRAP, GRIME, DRILL E ETC.

O projeto 3am Files vem da sua paixão por fotografar escritores urbanos. Como começou o seu interesse nesse tipo de arte e expressão? 

O 3am Files é um projeto em que eu registro a cena do grafite e pixação, a ação por trás da arte. Aquela do Ogi, “adrenalina é o nosso esporte” (risos). Esse é um mundo que eu sempre convivi, eu faço grafite desde os meus 17 ou 18 anos, guardo muitos amigos e bons momentos. É um daqueles vícios que vai e volta, mas nunca deixa a gente, eu gosto de fotografar o lado mais real, o não autorizado.

Aqui no Brasil o pessoal não gosta muito, mas o resto do mundo pira. Isso é muito louco, a pixação é original de São Paulo, arte admirada e valorizada no mundo inteiro, menos aqui. Além da caligrafia única ser referência e muito mal copiada por designers por aí, quem disse que a arte tem que estar dentro de uma galeria ou dentro dos moldes de um quadro ou, ainda, que precisa da sua autorização? O pixo é uma forma de ocupação urbana. E você sabia que aqui no Brasil é o único lugar no mundo onde ninguém atropela ninguém (passa por cima da letra de outro pixador ou grafiteiro)?

Eu comecei fotografando grafite, aí fiz uma foto para a estampa de uma camiseta collab do Zé LIXOMANIA – um dos maiores escritores urbanos de todos os tempos – para o Juk da An Urban Shop, meus irmãozinhos do Beside Colors e a Ease. Depois rolou a do Gds OSCURURU – que é um dos maiores escaladores de São Paulo – e a coisa foi fluindo, um rolê chama outro, que chama outro, você vai fotografar na madrugada, rola perrengue e você vai fazendo amizade. Passar perrengue juntos cria laços (risos). Madrugadas em telhados, em delegacia, em ruas desertas, preocupada com polícia e com bandido, já quebrei o pé, já peguei carrapato, já perdi equipamento, já pensei mil vezes “eu podia estar vendo Netflix, mas estou aqui”. Tem que gostar muito (risos). Eu também sou fã demais de grafite no metrô/trem, o verdadeiro grafite, real, oficial, original né.

Você trabalha há bastante tempo na Trip como Produtora Executiva. Quais foram as experiências mais especiais que você já teve? 

A Trip me proporcionou muitas experiências únicas, principalmente fazendo a revista da Gol. Viajar para Detroit com a Djamila Ribeiro foi uma delas com certeza, ela é maravilhosa. Já passei um carnaval dentro do trio elétrico da Claudia Leitte em Salvador (e eu odeio carnaval). Teve uma entrevista com o Chico Buarque na casa dele, ele que fez o café pra gente! Eu tomei o café do Chico Buarque (risos). Também comi o bolo da Palmirinha, mas dei azar e tinha ameixa. Nunca vou esquecer dessa situação, qual a chance de você não gostar de algo que a Palmirinha fez? Na casa dela? 

E fora as experiências, ter também a oportunidade de conhecer, trabalhar com, mostrar o trabalho de pessoas como Ailton Krenak, Marineide do Vida Corrida, Dona Diva, Ilona Szabó, Kondzilla, Dexter, Priscila Cruz, enfim, pessoas inspiradoras, isso me deixa feliz. 

Além disso, na outra parte, de fotografia, eu já cliquei duas capas pra Trip! Pra quem é fotógrafo, fazer uma capa de revista é muita realização. Esse foi o meu primeiro “check” de realização nessa área. Eu fiz as Trip Girls Mari Mello e a Gabi Rippi. Viajar para fotografar e ver impresso depois, é outro check dessa lista, um dos meus tipos de trabalhos preferidos.

Agora falando sobre o que todos nós amamos por aqui – qual foi o seu primeiro contato com tênis? 

Meu contato com tênis veio do skate. O primeiro que eu quis e não tive foi um Etnies, e o primeiro que eu tive que eu lembro que fiquei muito feliz era um de cânhamo da adidas. Nem era raro, mas eu lembro até que tive que comprar um número maior porque não tinha meu número, já começou aí rs.

E por que de todos os seus tênis, você escolheu o seu Sacai x Nike Blazer Mid para o Kickstory?

Não foi nada fácil escolher um. Mas eu escolhi esse porque, além de ser lindo, ter mil detalhes legais, combinar com tudo e ser confortável, ele é uma colaboração com uma marca japonesa. E eu me interesso pela cultura, sou de origem japonesa, meus quatro avós são do Japão. Metade é de Okinawa e metade é de Fukuoka. Gosto muito de usar marcas que têm alguma relação com o Japão, tipo Bape, Human Made, Comme des Garçons, o que dá pra ter também, né? Além disso, a dona e diretora criativa da Sacai é uma mulher – eu admiro muito a Chitose Abe. Acho muito legal o pensamento dela de não ter pressa pras coisas, sabe? Ela criou a marca e demorou uma década pra ter loja. É uma coisa meio japonesa de cuidado, tipo no skincare, o japonês prefere cuidar do que tratar. Então é uma coisa de sempre pensar no longo prazo. Isso eu acho legal. Gosto da forma dela de usar sobreposições, as texturas e tecidos diferentes… E tudo peças que dá pra usar na rua. Óbvio que não tudo, mas tipo, dá pra usar.

Você percebeu alguma mudança na sua relação com o tênis, de quando você trabalhava com skate para os dias de hoje? Você valoriza mais ou tem uma abordagem diferente? 

Logo que eu comecei a curtir marcas de streetwear, eu na verdade valorizava mais as roupas do que os tênis em si. Eu queria mais ter as peças. Mas aí você vai pegando gosto e aprendendo e viciando. Gosto muito das collabs, ver como cada identidade foi traduzida ali. E eu uso todos, todos os meus tênis. Eu não tenho nenhum que não vou usar. Na verdade, eu tenho um Converse Off-White transparente repetido mas ainda não tive coragem de vender o extra.

Uma coisa que fico muito frustrada nesse mundo dos tênis e que não mudou muito é a história de tamanho e modelo de mulher ou homem. Por que não tem tamanhos menores na maioria dos lançamentos legais? Tipo, eu calço 35, 36. A maioria vem a partir do 38. Eles acham que a mulher não vai gostar ou comprar? Ou que não podemos comprar? E se o homem é pequeno e ele calça 36, ele vai se sentir como? O homem não pode ser pequeno? Pra mim não faz o menor sentido. Isso sem entrar na cor rosa. 2021 gente, nem tem que existir gênero para tênis mais.

LOGO QUE EU COMECEI A CURTIR MARCAS DE STREETWEAR, EU NA VERDADE VALORIZAVA MAIS AS ROUPAS DO QUE OS TÊNIS EM SI. EU QUERIA MAIS TER AS PEÇAS. MAS AÍ VOCÊ VAI PEGANDO GOSTO E APRENDENDO E VICIANDO. GOSTO MUITO DAS COLLABS, VER COMO CADA IDENTIDADE FOI TRADUZIDA ALI.

Sacai x Nike Blazer Mid
Dono / Owner: Carla
Ano: 2019
Fotos: Pérola Dutra