“Meu nome é Maiwsi Ayana e tenho 23 anos. Trabalho com moda, mais especificamente com produção, estilo, styling e um pouco de comunicação visual. Faço também social media e sou figurinista. Além disso sou dançarina, faço algumas performances e toco em um bloco Afro chamado Zumbiido Afropercussivo. Tem mais coisas também mas eu sempre esqueço.”

Como e quando começou o seu interesse por moda?

Especificamente com moda foi aos 8 anos. Sempre gostei de tudo que era envolvido com arte – minhas irmãs são dançarinas, meu irmão é músico – e minha mãe como professora sempre tentou desenvolver os nossos dons naturais. Eu desenhava paisagens, objetos, o interior de ônibus, qualquer coisa. Minha mãe também sempre tentava desenvolver nosso raciocínio lógico com jogos. Com 8 anos de idade eu vi uma matéria na TV falando sobre profissões e no dia, eles estavam falando sobre ser estilista. Percebi que era isso que eu queria fazer. A partir do momento que decidi que queria trabalhar com moda, a minha mãe comprou uns livros tipo “moda para crianças” que conta a história da moda com umas ilustrações e etc, mostrando mais sobre o assunto.

Aos 12 anos eu entrei em um curso de corte e costura, mas depois de 3 meses a minha mãe não conseguiu me manter lá, então não tive tempo de aprender a costurar; só aprendi o que era molde, como a máquina funcionava e etc. Eu fazia bastante roupa de boneca, quando tinha uns 6 anos minha mãe me ensinou a fazer crochet e tricot, pegava uns retalhos de pano e fazia umas roupinhas. Aos 15 anos eu fiz um técnico de modelagem e vestuário e me formei. Depois entrei na faculdade, tendo um diploma em bacharelado de Moda com especialidade em estilo.

Hoje em dia tenho a percepção que escolhi ser estilista um pouco por causa da aparência, eu nunca fui uma menina bonita em si e quando pequena percebi que quando eu me vestia bem, as pessoas iriam me elogiar, nem que seja pela minha roupa. Então acredito que eu direcionei muito forte essa minha vontade de ser estilista por conta disso, da autoestima.

Qual o seu processo de criação para o desenvolvimento de suas roupas?

Meu processo não é tão documental pois ele fica muito na minha mente. A minha mente é um processo constante – acredito que tenha a ver com o raciocínio lógico que minha mãe incentivava em mim,e tenho memória fotográfica também – então eu não funciono muito com anotações, é mais com imagens. Todas as vezes que eu tive que fazer um storyboard ou um caderno de processo era um martírio pra mim, porque tinha que ficar correndo atrás de coisas que eu tinha visto e que estavam guardados na minha mente.

Então normalmente meu processo é: começa na minha mente vendo alguma referência, depois eu escolho um tema e se já tem um tema específico, eu faço um puta brainstorm dentro da minha cabeça. Vou longe fazendo associações conceituais que depois viram uma forma, modelagem, cor e estampa. Como eu participo de todo o processo de criação – eu desenho, costuro, modelo, estampo – isso acaba ajudando para todos os processos de desenvolvimento.

Às vezes você cria algo que não é executável, então durante o processo as coisas mudam. Geralmente eu tenho que pensar em custos baixos, então tenho que me adaptar para a situação. Isso limita o meu processo de criação no sentido de que eu sei que eu não posso fazer tal coisa porque não teria o dinheiro. Mas é bom também porque me força a pensar em outras alternativas. E se eu tivesse dinheiro o tempo todo eu estaria onde eu gostaria de estar, profissionalmente falando (risos).

É perceptível que suas opiniões refletem nas suas criações. Como é essa relação entre o que você cria e os seus ideias?

Tudo que é criado para alguém tem um pouco disso mas não necessariamente seja o que eu, Maiwsi, penso. Com a marca, principalmente com as coleções de roupa e estampas, ela tem uma preocupação de passar uma identidade do negro. Então a minha primeira coleção foi uma narrativa em homenagem a minha mãe, contando a minha história. A coleção era inteira preto e branco e fiz as fotos com uma menina que era albina e um cara negro com cabelo ruivo. Então eu tentei tratar desse assunto de diferenciação de cores de uma forma mais humana, de pessoas, mas não necessariamente de raça.

A minha segunda coleção foi para o meu TCC em que fiz questão de ter esse assunto, principalmente pra bater de frente com a minha faculdade e o tema que escolhi foi a história dos navios negreiros. Tenho uma preocupação de contar histórias sobre negros e nossa cultura porque ela é muito negada, então procuro pesquisar bastante sobre o assunto para que a minha roupa não seja somente mais uma roupa e sim pra ela ser uma fonte de estudo ou uma fonte de conhecimento para algo que desperte uma curiosidade. Não queria falar do negro como escravo e sim sobre de onde viemos e como chegamos até aqui, acho muito importante sabermos disso. Todo mundo sabe que viemos no navio negreiro, mas eles não sabem como que foi essa viagem, de qual porto o navio saiu, qual escravocrata, como que era a vida dentro do navio, como as histórias chegaram até nós, como foi a chegada, todo o processo de desidentificação – de tirar a identificação como pessoa e ela ser vendida como um produto. Então procurei contar isso na coleção e muitas vezes as pessoas entendem, algumas não – acho válido ter essa diferenciação de opiniões – então sempre procuro trazer alguma coisa além de peças de roupas.

Pra mim moda não é fútil, não é só uma peça de roupa, ela é a sua identidade. Qual é a sua identidade? Porque a sua roupa também não pode contar uma história? E não porque a sua história?. Eu tenho essa preocupação mas não é algo meu “da Maiwsi”, é algo além de mim. É minha raça, meu povo, minha história que não é só minha – são de várias pessoas. E acho que é por isso que as pessoas se identificam com o que faço.

A cidade afeta/inspira o jeito que você se veste?

Sim, muito. Eu sou muito cosmopolita, sou muito São Paulo e só consigo me ver morando em outros lugares parecidos com aqui. Não consigo ficar no campo “respirando o ar puro” (risos), mesmo que eu ainda tenha o privilégio de morar em um bairro que é muito arborizado, então eu ainda tenho uma qualidade de vida saudável para o bairro que moro.

O fato de morar longe, no extremo da Zona Leste, não posso usar uma roupa que sirva para um curto período de tempo porque sei que vou demorar no mínimo 1h30 para chegar em algum lugar. Tenho que estar preparada se vai fazer calor, frio, se vai chover e até o tênis influência. Porque se eu sei que vai chover, tem tênis que não saio porque sei que ele não aguenta chuva e odeio ficar com o pé molhado. Eu sempre tenho que sair de mochila, nela tem uma blusa, um guarda-chuva, enfim, tenho que sair com o kit completo. Quando saio só com carteira e chave é bem complicado.

Por eu viver na cidade percebo que meu estilo é muito urbano. Não sou good vibes, não tenho saia longa, roupas de tecido orgânico, muito algodão, eu não tenho isso. Uso sintético, muita roupa justa – isso é mais uma questão de periferia que tem mais essa questão do corpo envolvido. Pelo meu estilo de vida também né, sou do Hip Hop, danço, então geralmente tenho que ficar confortável nas minhas roupas, não posso ficar presa em nenhum tipo de movimento. Me mexo demais, não fico parada, nunca saio de casa pra ir em um lugar só, então tudo isso influencia.

Ainda mais por eu ser de moda é mais chato ainda, porque não repito roupa (risos). Por exemplo, só hoje fiz duas trocas de roupa e ainda vou fazer uma terceira. Estou com o mesmo top mas eu vou usar ele de três formas diferentes, então tenho que pensar em uma forma de camuflar o top e ele ainda ser a peça chave do meu look. É muito chato.(risos)

Qual sua relação com a cidade?

Eu gosto muito de São Paulo, tenho uma paixão muito grande por aqui. Mas ao mesmo tempo, depois que viajei para outros lugares e como convivo com pessoas que são de outros estados – principalmente cariocas e baianos, que tem um estilo de vida bem diferente – percebi que São Paulo não deixa você criar laços. Não que você não tenho comunicação ou convívio com as pessoas, porque você tem, mas é sempre algo muito imediato e necessariamente tem que ser intenso ou forte, caso contrário, você não vai ver ou não vai conviver com essas pessoas. Então as relações que eu tenho geralmente são fortes por conta disso.

A cidade de São Paulo me faz ser solitária: ao mesmo tempo que estou sempre perto de muitas pessoas que conheço e convivo na cidade, eu vejo que essa dinâmica me fez ser uma pessoa solitária. Essa solidão faz eu trabalhar da forma que trabalho – trabalho em casa não tendo convívio de pessoas, mas isso é necessário – e faço algo que envolve pessoas. Então eu tenho a necessidade de conhecer gente, ser vista por pessoas, conviver e isso só dá certo porque eu moro em São Paulo. Se fosse em qualquer outra cidade, não daria certo. Ao mesmo tempo que ela te isola, ela te dá essa carência de conviver com as pessoas. Eu vivo intensamente esses dois mundos.

Eu gosto muito da cidade, tenho quase certeza que já conheci quase todos os bairros, falo que sou guia turística porque eu sei ir pra qualquer lugar. Sei onde os ônibus vão me levar e se eu tiver um bilhete único, vou para qualquer lugar de São Paulo. Sou uma pessoa que conheço e procuro conhecer mais a cidade e isso faz parte também das histórias que quero contar. Se eu quiser contar a história de São Paulo, tenho que conhecer São Paulo e preciso viver a cidade para conhecê-la.

Nunca tive carro e nem convivi com alguém que tinha um, então eu conheço muito essa vida urbana através do transporte público, e isso é desde sempre. O meu bairro foi criado para ser uma cidade dormitório – de certa forma ele é ainda até hoje, mas hoje em dia você já consegue viver só no bairro – antes você não tinha essa possibilidade, então eu sempre tive que sair do bairro para fazer coisas. Essa dinâmica de rodar a cidade fez eu entender e conhecer ela de uma forma diferente. Por mais que exista um limite de transporte público, eu consegui quebrar essa barreira.

Quais lugares da cidade você levaria alguém pra dar um rolê? Tem algum “canto” dela que você se identifica mais?

Existe uma necessidade de você levar as pessoas nos pontos turísticos porque eles fazem parte da identidade da cidade e existem pontos turísticos que não são populares. Eu levaria a pessoa na Av. Paulista pra ela entender como que é um pouco a dinâmica de São Paulo – você consegue abranger o caos entre ônibus e carros, tudo ao mesmo tempo e se tiver uma manifestação no dia melhor ainda! Você vê como aqui é bem mais politizado, por mais que seja uma bosta, tem arte, tem shopping – o que é uma característica muito forte de São Paulo.

Levaria no Parque Ibirapuera, não para conhecer o parque, mas sim pra ir no Museu Afro Brasil. Levaria também no Banespão pra observar a cidade de cima, acho bem interessante e conheço poucas pessoas que já fizeram isso. Levaria para a vista invertida no Banespão que é o Pico do Jaraguá – do Banespão você vê o Pico do Jaraguá e se você tá no Pico, você consegue ver o Banespão. Levaria em alguma quebrada também como o fundo do Capão ou aqui na Cidade Tiradentes, para a pessoa ver o outro lado da cidade e pra mim São Paulo é muito a periferia. Levaria para dar um passeio de ônibus e metrô.

Sobre um canto da cidade que eu me identifico, ao mesmo tempo que sou bem perifa – eu amo muito o meu bairro – ele não é muito eu mas eu sou muito ele. Sou um estilo de pessoa da periferia que não é característico da periferia e as pessoas dessa periferia não se identificam comigo. Até por conta dessa dinâmica de eu viver a cidade. A forma política e social que é regida à São Paulo, tudo é feito para que as pessoas não saiam de seus bairros; eu fiz ao contrário – saí, vivi e isso faz com que eu seja diferente das pessoas de lá. Sempre fui uma menina diferente e não queria ser igual às pessoas que via ao redor do meu bairro, não no sentido de estilo de vida e sim de como enxergam o mundo. Via as pessoas satisfeitas em estarem lá e não me enxergava naquilo.

Por mais que eu não seja a imagem do meu bairro, acabei me tornando um exemplo para as pessoas de lá. O fato de eu ter saído e conquistado coisas, de ter estudado, me formado na faculdade, de ter sido bolsista, ter feito grandes projetos, isso faz com que pessoas do meu bairro me vejam como um exemplo, claro que não é todo mundo que vê assim. Mesmo assim, até esse negativismo é uma demonstração que eu atingi a pessoa de alguma maneira. Esse é o peso de você ter uma representatividade pro bairro. Eu nunca nego de onde venho, não vejo a necessidade hoje de morar em outro lugar, tanto que sempre falo que meu bairro é perfeito – o único problema é que ele é longe – e mesmo assim eu lido com essa distância normalmente.

Descreve pra gente o seu dia a dia.

Eu não tenho rotina. Mas vamos lá: não acordo cedo, geralmente o meu dia começa meio dia. Se eu tiver algum compromisso fora de casa eu acordo, tomo café da manhã, me troco, almoço em casa para não gastar na rua (risos) e saio. Se tenho que fazer alguma coisa ainda de tarde, com certeza tenho que sair antes das 14h pra conseguir chegar minimamente às 15h30 ou 16h no local. Fico lá até as 18h ou 19h e depois de noite sempre tem algum rolê que não necessariamente vou pra curtir, mas as vezes tenho que fazer reuniões dentro do rolê, vejo muito os meus amigos em festas e shows. Aliás, as minhas amizades giram em torno disso, do entretenimento. Normalmente minha vida noturna acaba entre 00h ou 1h da manhã.

Tem um ônibus noturno que para na frente da minha casa, então eu posso voltar a hora que eu quiser. Como eu ando muito de ônibus, estou bem saturada de usar eles quando estão lotados, então eu prefiro voltar a noite que ele está bem vazio. Falo que sou Miss Noturna (risos), porque o ônibus tá só pra mim, ele vem super rápido porque não tem trânsito nem nada. Se eu chego em casa, que é por volta da 1h, trabalho durante a madrugada – acho que meu trabalho rende bem mais assim.

Qual é o papel do tênis no seu corre diário?

É uma influencia forte, tanto que estou sempre usando tênis. Quando estou em casa procuro usar chinelo, porque meu pé fica muito tempo dentro do tênis durante o dia e isso faz muito mal para o pé. Mas enfim, sempre quando tenho que imaginar a minha imagem, pensando em qualquer look que vou usar, sempre me imagino de tênis porque costuma ser a minha peça-chave. Não é a primeira peça que penso na hora de montar o look, mas ela costuma ser uma das mais importantes, pelo meu estilo de vida, porque eu não paro, eu preciso estar confortável e preciso aguentar o dia inteiro. Então necessariamente vou fazer tudo isso com o tênis.

Ele tem esse papel de conforto muito grande, estilo, identidade visual e cultural – isso faz muito parte da minha cultura e procuro manter isso em mim. O tênis faz parte do corre.

Nike AirZoom Mariah Flyknit Racer
Dona: 
@maiwsi
Ganhado: 2017